SC: acervo de Siã Huni Kui entra para a Cinemateca Brasileira
Material histórico sobre povos indígenas e a Amazônia será incorporado oficialmente à coleção da instituição
Um dos mais importantes registros audiovisuais da história recente dos povos indígenas e dos movimentos socioambientais brasileiros passará a integrar oficialmente a coleção da Cinemateca Brasileira, segundo a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).
O acervo do cineasta indígena Siã Huni Kui será entregue à instituição em cerimônia marcada para o próximo dia 11, em São Paulo, consolidando um processo de preservação iniciado há quase uma década por pesquisadores de Santa Catarina.
A incorporação do material representa um marco para a memória audiovisual. Considerado o primeiro acervo indígena acolhido institucionalmente pela Cinemateca Brasileira, o conjunto documental reúne registros produzidos ao longo de mais de 20 anos na Amazônia e documenta aspectos culturais, sociais e políticos de povos indígenas.
A iniciativa teve início em 2016, quando pesquisadores da UFSC e da Udesc criaram um projeto de extensão voltado à preservação do acervo. Desde então, o material permaneceu sob guarda das universidades, onde passou por etapas de catalogação, indexação e digitalização parcial.
O trabalho foi conduzido pelos pesquisadores Alberto Groisman e Rafael Gue Martini, pelo cineasta e restaurador Enio Staub e pelo próprio Siã Huni Kui, com a participação de estudantes e apoio institucional da universidade, da Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária e de integrantes do Grupo Co-Operativo Acervo Siã.
O acervo reúne fitas nos modelos VHS, Hi8, Mini DV, DVDs e outros formatos audiovisuais. Entre os registros preservados estão acontecimentos considerados fundamentais para compreender a história da Amazônia nas últimas décadas. As imagens retratam a vida nos rios e na floresta, mobilizações do movimento indígena, ações do movimento ambientalista.
Entre os destaques está a documentação do Primeiro Encontro da Aliança dos Povos da Floresta, realizado em 1989. O material também registra os chamados "empates", mobilizações organizadas por trabalhadores da floresta contra o avanço do desmatamento, além da atuação do líder seringueiro Chico Mendes e de outras referências do movimento socioambiental brasileiro.
Outro momento histórico preservado no conjunto documental é a viagem realizada pelo cantor e compositor Milton Nascimento ao Acre, em agosto de 1989. A expedição reuniu lideranças indígenas e ambientalistas em uma demonstração de apoio aos povos da floresta e percorreu diferentes territórios indígenas da região naquele ano.