RS: Polícia Civil deflagra operação contra quadrilha de crimes virtuais

Foram cumpridas 125 ordens judiciais e, entre elas, cinco mandados de prisão

Por Mateus Lincoln - BSB

Além da PC-RS, atuaram na operação as polícias dos estados de Goiás e São Paulo

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul (PC-RS) deflagrou, na manhã de terça-feira (13), a Operação Mirage com foco no combate a uma organização criminosa especializada em golpes de falsos investimentos.

A ação foi conduzida pela Delegacia de Polícia de Investigações Cibernéticas Especiais (Dicesp), ligada ao Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (Dercc), e apura a prática de estelionato com fraude eletrônica, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

O trabalho investigativo aponta prejuízo superior a R$ 4,3 milhões causado a uma vítima do Rio Grande do Sul e indica que ao menos outras 40 pessoas podem ter sido lesadas em diferentes regiões do país.

Durante a ofensiva, foram cumpridas 125 ordens judiciais, entre elas cinco mandados de prisão preventiva e 13 de busca e apreensão nos estados de São Paulo e Goiás.

A Justiça também determinou o bloqueio de contas bancárias de 85 pessoas físicas e jurídicas, o sequestro de veículos de alto padrão e a restrição de carteiras de criptoativos custodiadas por 17 exchanges. Até o momento, três investigados foram presos.

As equipes apreenderam celulares, computadores, milhares de chips de telefonia e veículos, materiais que serão analisados para aprofundar a apuração.

A investigação teve início após uma vítima residente no Rio Grande do Sul relatar que foi enganada por um grupo que se apresentava como empresa de consultoria em investimentos. O primeiro contato ocorreu em anúncio patrocinado nas redes sociais, com promessa de ganhos elevados no mercado de ações.

Em seguida, a pessoa foi incluída em um grupo de aplicativo de mensagens com dezenas de participantes, no qual perfis se passavam por investidores experientes e orientadores financeiros, criando um ambiente de aparente credibilidade.

De acordo com a PC-RS, na fase inicial eram repassadas orientações verdadeiras sobre aplicações em plataformas nacionais, o que gerava ganhos reais e reforçava a confiança.

Posteriormente, os envolvidos induziam a migração para investimentos em criptomoedas, direcionando a vítima para uma plataforma fraudulenta.

Os valores eram transferidos via pix para contas vinculadas a empresas utilizadas pelo grupo e, na sequência, passavam por suposta conversão em ativos digitais. Os saldos e rendimentos exibidos eram manipulados para incentivar novos aportes.

Quando ocorriam perdas súbitas, estas eram atribuídas a supostos erros operacionais do próprio investidor.

Para tentar recuperar o dinheiro, a vítima era levada a realizar novos depósitos, inclusive com promessas de contratos diferenciados e garantias irreais.

Em menos de um mês, durante maio de 2025, o montante transferido chegou a mais de R$ 4,3 milhões, conforme apurado pela equipe da Dicesp.

A análise técnica revelou uma organização estruturada em núcleos com funções específicas. Um deles era responsável pela captação das vítimas e utilizava linhas telefônicas registradas em nome de terceiros, operadas a partir de um mesmo dispositivo.

Outro núcleo cuidava da ativação massiva de chips, permitindo o uso de números brasileiros por operadores localizados no exterior. Houve ainda a identificação de um setor financeiro voltado à criação de empresas de fachada, muitas delas sem sede física, usadas para receber e pulverizar os valores.

Também foi identificado um núcleo dedicado à conversão dos recursos em criptomoedas estáveis, com transferências rápidas para terceiros, dificultando o rastreamento.

Relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas, fracionamento sistemático de valores e circulação entre empresas com perfis semelhantes, além do uso de pessoas com baixo poder aquisitivo como intermediárias.

A operação contou com apoio das Polícias Civis de São Paulo e Goiás. As investigações seguem para identificar todas as vítimas, rastrear ativos, ampliar o bloqueio de recursos e apurar a participação de outros envolvidos no esquema.