Cidades inteligentes: desafios e oportunidades diante do crescimento urbano

Para Luis Castiella, da SmartCities Latam, zonas urbanas devem se preparar para impactos políticos e econômicos dos crescimentos populacionais, enquanto Sérgio Sgobbi, da Brascomm, aponta gargalos dos municípios brasileiros

Por Ana Laura Gonzalez - SP

Desde os anos 1970, a população urbana brasileira é maior que a rural.

O rápido crescimento das populações urbanas coloca cidades brasileiras diante de desafios estruturais e econômicos, ao mesmo tempo em que abre oportunidades para a adoção de soluções inteligentes de gestão urbana. Segundo estimativas da ONU, o planeta terá 10 bilhões de habitantes em 2050, com dois terços residindo em áreas urbanas, cenário que exige planejamento para enfrentar gargalos de infraestrutura, mobilidade e serviços públicos.

Durante reunião da Frente Empresarial pela Modernização do Estado (Feme), do Conselho de Sociologia, Economia e Política (CSESP) da FecomercioSP, especialistas destacaram que as cidades brasileiras ainda operam com estruturas urbanas projetadas há mais de um século, o que pressiona sistemas de transporte, habitação e segurança.

"O crescimento das metrópoles não é acompanhado pela modernização de suas ruas, avenidas e da própria infraestrutura urbana", afirmou Luis Castiella, CEO da SmartCities Latam. Ele aponta que, além dos impactos demográficos, a urbanização influencia diretamente o cenário político e econômico, afetando desde decisões eleitorais até produtividade local. No Brasil, a população urbana supera a rural desde os anos 1970, e hoje representa cerca de 87% do total do país, segundo o IBGE. O economista Antônio Lanzana, presidente do CSESP, enfatizou que a escassez de mão de obra qualificada e os gargalos ambientais são desafios cruciais para a expansão urbana, reforçando a relevância do conceito de cidades inteligentes.

Segundo os especialistas, uma cidade inteligente é marcada pela capacidade de coleta e uso eficiente de dados, conectividade e gestão ágil de recursos, proporcionando melhorias tangíveis na vida dos cidadãos. "O mais importante é que esse processo gere benefícios concretos para a população", explicou Sergio Sgobbi, diretor da Associação das Empresas Brasileiras de TIC (Brascomm).

Apesar de avanços, o Brasil ainda enfrenta obstáculos significativos. Apenas 18% dos municípios têm leis relacionadas à conectividade, embora essas cidades concentrem a maioria da população, incluindo as capitais. A adoção de estratégias inteligentes em áreas densamente povoadas, como São Paulo, pode gerar respostas eficientes que se estendem a níveis regionais e nacionais. Exemplos internacionais, como Singapura, Shenzhen e o projeto da Nova Cairo, demonstram que cidades planejadas digitalmente e com foco em sustentabilidade atraem talentos e ampliam produtividade. No Brasil, iniciativas em cidades como Rio de Janeiro e municípios do Uruguai indicam uma tendência crescente de investimentos em infraestrutura tecnológica e planejamento urbano moderno. A discussão sobre cidades inteligentes, promovida pela FecomercioSP, reforça a necessidade de políticas públicas e privadas que preparem os centros urbanos brasileiros para um futuro cada vez mais populoso e conectado.