Polícia passa a utilizar reconstrução facial para identificar pessoas mortas
Técnica cria imagens em 3D a partir de crânios e auxilia investigações de mortes sem identificação no estado
A Polícia Técnico-Científica de São Paulo utiliza reconstrução facial em três dimensões para auxiliar na identificação de pessoas mortas que não puderam ser reconhecidas por métodos convencionais. O procedimento cria uma imagem aproximada do rosto a partir do crânio e já ajudou a esclarecer um caso investigado em São José do Rio Preto, no interior paulista.
O método foi desenvolvido pelo desenhista técnico-pericial Bruno Robles Paschoal, que começou a estudar o assunto em 2020, após participar de um trabalho com uma ossada sem identificação em Jales. Ele buscava alternativas para situações em que os exames tradicionais não permitem estabelecer a identidade.
A técnica foi aplicada na investigação da morte de uma mulher cujas partes do corpo foram encontradas em diferentes locais de São José do Rio Preto. O estado de decomposição impedia o reconhecimento visual e, naquele momento, não havia mãos disponíveis para coleta de impressões digitais.
O profissional solicitou ao Instituto Médico-Legal (IML) a preparação do crânio e produziu uma representação digital do rosto. Investigadores perceberam semelhanças com a fotografia de uma mulher desaparecida, apresentada por familiares. A comparação orientou a apuração e exames periciais posteriores confirmaram a identidade.
Como funciona a técnica
O procedimento começa com a preparação do crânio no IML, incluindo a retirada de tecidos remanescentes. Em seguida, fotografias feitas de diferentes ângulos permitem produzir um modelo tridimensional da estrutura óssea por meio da fotogrametria.
Com o modelo digital, o profissional realiza medições anatômicas e consulta estudos sobre a espessura dos tecidos faciais. Esses dados ajudam a estimar os volumes do rosto e elaborar uma representação aproximada da aparência da pessoa.
O trabalho utiliza o Blender, programa gratuito de modelagem tridimensional. Segundo a Polícia Técnico-Científica, a reconstrução é feita manualmente, sem uso de inteligência artificial.
A técnica, porém, tem limitações. Características como cicatrizes, rugas, manchas e alterações provocadas por procedimentos estéticos não podem ser determinadas apenas pelos ossos. Por isso, a imagem reconstruída não comprova, isoladamente, a identidade. A confirmação depende de outros métodos, como exames de DNA, impressões digitais ou comparação da arcada dentária.
A reconstrução facial é estudada há décadas e também é empregada em antropologia forense e arqueologia. Em São Paulo, a proposta é incorporar a modelagem digital ao trabalho de identificação humana.
Ampliação depende de validação
A Polícia Técnico-Científica avalia ampliar o procedimento para outras unidades do estado, mas a expansão depende de novos testes e validações. Entre os desafios está a utilização de referências anatômicas mais adequadas à população brasileira.
Atualmente, o trabalho considera medidas médias de espessura dos tecidos faciais descritas em estudos científicos. Segundo a instituição, parâmetros que representem melhor a diversidade da população poderão aumentar a precisão das aproximações.
O superintendente da Polícia Técnico-Científica, Claudinei Salomão, destacou a importância da identificação para familiares de pessoas desaparecidas. Apesar do resultado obtido em São José do Rio Preto, a metodologia ainda passará por avaliações. A Secretaria da Segurança Pública não informou prazo para adotá-la em outras unidades.