Tarcísio pede cautela em debate sobre fim da escala 6x1
Governador afirma que redução da jornada de trabalho deve considerar impactos econômicos e alerta para risco de informalidade e perda de renda
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, defendeu nesta segunda-feira (18) cautela na discussão sobre mudanças na jornada de trabalho no país, incluindo o fim da escala 6x1 e a redução da carga semanal de 44 para 40 horas. A declaração foi feita durante a abertura da 40ª edição da APAS Show, feira do setor supermercadista realizada na capital paulista.
Segundo o governador, alterações nas regras trabalhistas precisam considerar não apenas a proteção ao trabalhador, mas também a capacidade de adaptação das empresas. Ele afirmou que mudanças estruturais na jornada podem gerar efeitos indiretos, como aumento da informalidade e redução de renda, caso não sejam acompanhadas de medidas de equilíbrio econômico.
“Não adianta achar que vai cuidar do trabalhador sem cuidar do empregador. Quem está falando hoje de desoneração do empregador?”, questionou.
A proposta de redução da jornada semanal e o fim da escala 6x1 têm avançado no Congresso Nacional e se tornado uma das pautas em debate no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A medida é defendida por setores que argumentam que pode melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e ampliar o tempo de descanso.
Tarcísio, no entanto, afirmou que há consenso sobre a importância de melhores condições de trabalho, mas alertou que mudanças mal planejadas podem ter efeitos contrários aos desejados. Segundo ele, parte dos trabalhadores pode buscar atividades informais para complementar a renda, caso haja perda de poder de compra.
“Todo mundo quer que o trabalhador possa passar mais tempo em casa, possa ter uma escala melhor e ganhar a mesma coisa. Mas a gente não pode enganar o trabalhador”, disse.
O governador acrescentou que, na prática, trabalhadores com jornada reduzida poderiam recorrer a “bicos” para compensar eventual queda na renda mensal, o que, segundo ele, comprometeria o objetivo da proposta.
“Ele vai ter que perder o tempo livre fazendo bico para garantir o mínimo de renda”, afirmou.
Tarcísio também defendeu que o debate seja conduzido sem pressa e com análise dos impactos econômicos. Ele afirmou que alterações na legislação trabalhista podem elevar custos para as empresas e afetar a geração de empregos formais.
“Há uma preocupação enorme que precisa ser ouvida para que a gente não leve as pessoas para o caminho da informalidade, da falta de proteção social e do desemprego”, disse.
Durante o evento, representantes do setor varejista e supermercadista manifestaram preocupação com possíveis impactos sobre custos operacionais e contratação de mão de obra. O governador citou ainda que parte do setor já adota modelos alternativos de escala, como o 5x2, mantendo a carga horária e a formalização do emprego.
O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, também participou da abertura da feira e afirmou que o governo federal pretende ampliar o diálogo com trabalhadores e empresários sobre o tema. Ele relatou que a discussão já chegou ao cotidiano das relações de trabalho e defendeu a busca por consenso.
“A política é essa arte do abraço coletivo, do bem comum”, afirmou.
Já o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, disse ter ouvido preocupações do setor produtivo e avaliou que o tema ainda precisa amadurecer antes de qualquer decisão. Segundo ele, mudanças na jornada de trabalho podem ter impactos jurídicos e em contratos públicos, exigindo avaliação mais ampla.
O debate sobre a jornada de trabalho segue em discussão no Congresso e deve continuar dividindo opiniões entre representantes do setor produtivo e defensores de mudanças nas relações trabalhistas.