São Paulo registra aumento de feminicídios em janeiro deste ano

No total, foram 27 mulheres assassinadas, cinco a mais que em janeiro de 2025

Por Por Redação

Estado já havia atingido maior marca histórica em 2025, com 22 mortes em janeiro daquele ano

O estado de São Paulo registrou 27 vítimas de feminicídio em janeiro deste ano, cinco a mais do que no mesmo mês de 2025, quando foram contabilizadas 22 mortes. Os dados foram divulgados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) e indicam o maior número para o mês desde o início da série histórica.

De acordo com a pasta, em 15 das 27 ocorrências os autores foram presos em flagrante. No interior paulista, foram registradas 20 mortes no primeiro mês do ano, com 12 prisões em flagrante. As demais vítimas foram assassinadas na capital e na região metropolitana.

Os números reforçam uma tendência preocupante. Em 2025, São Paulo já havia registrado o maior número anual de feminicídios desde 2018: foram 270 vítimas ao longo do ano, aumento de 6,7% em relação a 2024, quando 253 mulheres foram assassinadas em razão do gênero.

Desde o início de 2026, novos casos têm chamado a atenção. Na semana passada, Cibelle Monteiro Alves foi morta a facadas pelo ex-companheiro enquanto trabalhava em uma joalheria em um shopping de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.

No domingo (1º), um homem foi preso suspeito de matar a ex-mulher por asfixia após uma discussão sobre partilha de bens em um motel em Sapopemba, na Zona Leste da capital.

Os dados da SSP mostram que o interior paulista concentrou a maior parte das ocorrências registradas em janeiro. Foram 20 das 27 mortes no estado, evidenciando que a violência de gênero atinge municípios de diferentes portes e regiões e não se limita aos grandes centros urbanos.

Ciclo de violência

Especialistas alertam que o feminicídio raramente ocorre de forma repentina. A pesquisadora Daiane Bertasso, do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), da Universidade Estadual de Londrina (Uel), explica que esses crimes costumam ser o desfecho de um ciclo contínuo de violência.

"O feminicídio não é um crime inesperado. É um crime que resulta de relações familiares e íntimas. E ele se dá depois de um ciclo de violências de vários tipos. A própria Lei Maria da Penha, que tipifica vários tipos de violência - psicológica, emocional, patrimonial - ela explica o quanto esse ciclo de violência vai se agravando", disse.

A pesquisadora acrescenta que o machismo, a misoginia e uma sociedade voltada para os valores masculinos contribuem para que as pessoas ignorem os sinais de violência que precedem os feminicídios.

"Muitas vezes a mulher se sente intimidada, envergonhada, não socializa isso com a família. Quando ela socializa, muitas vezes, a família diz que é [apenas] um momento, uma fase", relatou.

Além disso, casos recentes de feminicídio que tiveram destaque na imprensa demonstram que, mesmo mulheres com medida protetiva contra seus agressores, não receberam efetivamente a proteção do Estado e acabaram mortas por eles.

"Seria importante a gente ter políticas públicas mais eficazes e que essas mulheres possam se sentir de fato acolhidas", disse Bertasso.

A masculinidade tóxica é mais um elemento que gera violência contra as mulheres no país. "A gente tem uma linha de pesquisa que estuda a machosfera, e a gente tem percebido que essas redes têm fortalecido muito esses ideais [machistas e misóginos]. E isso, infelizmente, está formando jovens e crianças com esse pensamento."

"Precisaria ter uma educação voltada para relações de gênero nas escolas como obrigatório, para evitar que essas crianças e jovens sejam cooptados por esse espaço digital que não tem muito controle", avaliou.

Em âmbito nacional, o Brasil atingiu número recorde de 1.518 vítimas de feminicídios em 2025, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o que representa quatro mortes por dia. No ano anterior, em 2024, o país já havia registrado 1.458 vítimas, mantendo a tendência de alta observada nos últimos anos.