Mila segue para o Sul e reforça conservação do sagui-da-serra-escuro

Fêmea nascida em centro de conservação paulista é transferida para zoológico do RS para formar novo par reprodutivo e fortalecer a diversidade genética da espécie ameaçada de extinção

Por Ana Laura Gonzalez - SP

Mila, uma fêmea de sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), de 2 anos, nascida no Centro de Conservação da Fauna Silvestre (Cecfau)

A fêmea de sagui-da-serra-escuro Mila, de dois anos, iniciou na sexta-feira, 30, uma nova etapa ao ser transferida do Centro de Conservação da Fauna Silvestre (Cecfau), em São Paulo, para o Parque Zoológico de Sapucaia do Sul, no Rio Grande do Sul. O deslocamento integra uma estratégia nacional de conservação da espécie, classificada como ameaçada de extinção, e tem como objetivo a formação de um novo par reprodutivo e o fortalecimento da diversidade genética da população mantida sob cuidados humanos.

Nascida em 30 de março de 2023 no Cecfau, unidade vinculada à Diretoria de Biodiversidade e Biotecnologia da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo, Mila é filha do casal Bia e Xereta. O nascimento foi considerado um marco para a equipe técnica, uma vez que a mãe havia registrado a perda de seis filhotes em partos anteriores, o que tornava o histórico reprodutivo especialmente delicado.

A transferência segue as diretrizes do Programa de Manejo Populacional Integrado do sagui-da-serra-escuro, com base nas recomendações do consultor genealógico da espécie. A iniciativa busca promover o manejo responsável, a formação planejada de casais e a manutenção de populações geneticamente viáveis em instituições participantes do programa em todo o país.

Atualmente, o Cecfau abriga 14 indivíduos da espécie, incluindo dois casais reprodutivos. Desde o início das ações de manejo, 15 filhotes nasceram na instituição. Apesar de desafios, como perdas neonatais registradas ao longo dos anos, os resultados são considerados relevantes para o avanço das estratégias de conservação do primata.

O transporte de Mila foi realizado gratuitamente pela companhia aérea Latam, por meio do programa Avião Solidário, que atua há 14 anos no apoio a iniciativas ambientais, humanitárias e de saúde. A operação permitiu reduzir o tempo de viagem e minimizar o estresse do animal durante o deslocamento. Segundo a empresa, mais de 4,6 mil animais já foram transportados em ações de conservação ambiental desde a criação do programa.

No Zoológico de Sapucaia do Sul, Mila passará por um período de quarentena e adaptação, com acompanhamento veterinário, antes de ser integrada ao recinto do macho Lindo, que vive no local desde 2024. O casal fará parte do Programa Nacional de Conservação do Sagui-da-Serra-Escuro, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, em parceria com a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil.

O sagui-da-serra-escuro é uma espécie endêmica da Mata Atlântica, com ocorrência restrita aos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. De acordo com a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas, publicada em 2022, o primata está classificado como “Em Perigo de Extinção”. Estimativas indicam a existência de cerca de 10 mil indivíduos em vida livre, número que vem diminuindo em razão da perda e fragmentação do habitat, além da competição e da hibridização com espécies invasoras.

A transferência de Mila representa mais uma ação dentro do conjunto de esforços voltados à conservação da fauna brasileira e à preservação da biodiversidade da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do país.