Monólogo de Nelson Rodrigues, Valsa Número 6 estreia em SP na próxima semana
Em nova montagem, Jorge Farjalla e Carol Costa revisitam o único monólogo de Nelson Rodrigues para transformar a história de uma adolescente morta em um manifesto sobre abuso, violência e silenciamento
Há histórias que o tempo não consegue envelhecer. Valsa Número 6, único monólogo escrito por Nelson Rodrigues, é uma delas. Criado em 1951, o texto acompanha Sônia, uma adolescente de 15 anos que, depois de morta, tenta reconstruir, em fragmentos de memória, as circunstâncias de sua própria morte. Mais de sete décadas depois, a personagem volta ao palco pelas mãos do diretor Jorge Farjalla e da atriz Carol Costa, em uma montagem que amplia o olhar sobre a violência sofrida pela menina e estabelece um diálogo direto com o presente.
Para Farjalla, a força da obra está justamente na atualidade de suas camadas. Ao revisitar o texto, o diretor se deparou com uma história sobre abuso sexual e sobre a dificuldade de vítimas serem ouvidas. "Esse texto foi escrito em 1951 pelo nosso Shakespeare brasileiro, que é o Nelson Rodrigues, falando sobre abuso", resume. A proposta é transformar a encenação em um manifesto, fazendo com que o público perceba que a violência de Sônia não pertence ao passado.
Em determinados momentos, a própria peça é interrompida para que Carol dialogue com questões contemporâneas, trazendo acontecimentos, estatísticas e situações de violência que fazem parte do cotidiano. A intenção não é apenas contar a história de Sônia, mas provocar uma reflexão sobre tantas outras meninas e mulheres que continuam tendo suas vozes silenciadas.
Uma menina, muitas vozes
Conhecida por sua trajetória nos grandes musicais, Carol Costa enfrenta agora seu primeiro monólogo. Durante cerca de uma hora, ela sustenta sozinha uma narrativa marcada por medo, silêncio, memória e dor. A arena proposta por Farjalla aproxima radicalmente público e atriz. "Nem a atriz e nem o espectador têm como se esconder", afirma Carol.
A proximidade transforma a plateia em testemunha da confissão de Sônia. Não há grandes cenários ou um elenco para dividir a narrativa. Há o corpo da atriz, sua voz, seus silêncios e as diferentes figuras que atravessam a memória da personagem.
Para Carol, um dos maiores desafios foi criar um distanciamento entre ela e Sônia. Não porque a personagem lhe seja distante, mas justamente pelo contrário. A atriz se reconhece em aspectos da experiência feminina e também incorporou ao processo relatos de mulheres que chegaram até ela durante e depois da primeira temporada.
A montagem procura humanizar Sônia e fugir de qualquer caricatura. A menina não consegue nomear completamente o trauma que sofreu e passa boa parte da história tentando reconstruir sua memória, questionando-se, justificando-se e até se culpando. É justamente aí que a personagem encontra uma dimensão contemporânea.
Carol também chama atenção para uma das primeiras falas de Sônia: "Eu não sou louca". A frase ganha novo peso quando relacionada à maneira como vítimas de violência muitas vezes são desacreditadas. A personagem tenta falar, mas encontra um ambiente que não a escuta.
Entre Teresinha e Sônia
O trabalho ganhou ainda uma dimensão especial porque Carol chega a Sônia depois de interpretar Teresinha em Ópera do Malandro, também dirigida por Farjalla. São duas personagens femininas submetidas a estruturas de poder, mas que reagem de maneiras completamente diferentes.
Teresinha é forte, estratégica e enfrenta diretamente o sistema que a cerca. Sônia é íntima, silenciosa e fragmentada. "Em ambas as obras, a gente vê uma estrutura de poder agindo de forma explícita sobre o corpo feminino", observa Carol.
A diferença também está na própria linguagem teatral. Em Ópera do Malandro, ela conta com uma grande estrutura, elenco, música, cenários e figurinos. Em Valsa Número 6, resta o essencial: corpo, voz e silêncio.
É nesse espaço reduzido que Farjalla e Carol encontram a força da montagem. O clássico de Nelson Rodrigues deixa de ser apenas uma obra preservada no tempo e passa a conversar com uma realidade que ainda produz novas Sônias. A valsa, afinal, continua tocando porque a sociedade ainda precisa aprender a escutar.
A nova temporada estreia neste dia 10 de setembro, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, onde segue até 28 de setembro. As apresentações acontecem de quinta a segunda-feira, às 19h, na Sala Paschoal Carlos Magno, com classificação de 14 anos e duração aproximada de uma hora. Com direção e encenação de Jorge Farjalla e atuação de Carol Costa, Valsa Número 6 reafirma a potência do teatro como espaço de memória, denúncia e reflexão.