Câmara de São Roque cria CPI para investigar aplicação de R$ 93 milhões no Banco Master

Colegiado será formado por três vereadores que não assinaram o pedido de abertura; grupo deve iniciar trabalhos nos próximos dias

Por Rafael Lima

Grupo deve iniciar trabalhos nos próximos dias

A Câmara Municipal de São Roque, no interior de São Paulo, formalizou a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito que vai investigar a aplicação de R$ 93 milhões do São Roque Prev em letras financeiras do Banco Master. A principal novidade é a definição dos membros do colegiado, anunciada após o cumprimento dos requisitos regimentais e a indicação das bancadas.

Foram nomeados para compor a comissão os vereadores Guilherme Araujo Nunes, Wanderlei Divino Antunes e Mateus Taraborelli Foina. Conforme nota enviada ao Correio da Manhã pela assessoria de imprensa da Câmara de São Roque, a escolha foi oficializada pelo presidente da Câmara, Júlio Mariano, responsável pela indicação de um dos integrantes. A comissão deve se reunir nos próximos dias para eleger presidente e relator e dar início às apurações.

Um ponto que chama atenção na composição é que nenhum dos parlamentares que assinaram o pedido de abertura da CPI fará parte do grupo responsável pela investigação. As indicações partiram apenas de duas bancadas. O PSD indicou Guilherme Nunes, que também é líder do partido e se colocou como membro, enquanto o Republicanos indicou Wanderlei Divino Antunes. Já a presença de Mateus Taraborelli Foina decorre de escolha da presidência da Casa.

A instalação da CPI foi viabilizada mais cedo com a assinatura do vereador Diego Costa, líder do governo, que garantiu o número mínimo necessário. Antes dele, já haviam aderido Dani Castro, Marquinho Arruda, Paulo Juventude e Rafael Tanzi.

A comissão terá como foco o investimento feito pelo instituto de previdência dos servidores municipais, realizado ao longo de 2024 e que corresponde a cerca de 18 por cento da carteira do órgão. O caso ganhou repercussão após a identificação de possíveis inconsistências em documentos que teriam autorizado a operação, incluindo versões divergentes de atas do Comitê de Investimentos.

A expectativa é que, com a definição da presidência e relatoria, a CPI comece a convocar envolvidos e reunir documentos para esclarecer os fatos nos próximos dias.A comissão será instaurada com duração inicial de 90 dias, admitindo prorrogação.

O Correio da Manhã tentou contato com o presidente da Câmara Municipal de São Roque, vereador Júlio Mariano, para esclarecimentos em relação à escolha do terceiro integrante da comissão, mas até o fechamento desta reportagem não obteve retorno.

Possíveis irregularidades

Com a formalização, os vereadores deverão apurar eventuais falhas na decisão de investimento, a existência de possível adulteração de documentos e as responsabilidades pelo aporte. Os recursos aplicados estão vinculados à aposentadoria dos servidores municipais, o que amplia a relevância da investigação.

Uma das principais investigações está relacionada à ata da reunião que autorizou o investimento, já que existiram duas versões do mesmo texto. O documento sob questionamento foi a Ata nº 2/2024, do Comitê de Investimentos da autarquia, comissão responsável por formalizar a decisão que aprovou aplicações em Letras Financeiras Master, títulos de renda fixa emitidos pela instituição financeira. Apesar de apresentarem a mesma numeração, data e horário, as duas versões apontavam conclusões divergentes sobre o risco da operação.

A inconsistência foi identificada após a vereadora Dani de Castro (PSD) protocolar, em setembro de 2025, requerimento solicitando informações detalhadas sobre as aplicações realizadas pelo instituto previdenciário. Na resposta encaminhada à Câmara pelo SRPREV, em conjunto com a Prefeitura, foi anexada uma versão da ata que registra preocupação dos membros do comitê quanto ao risco da instituição financeira para a carteira previdenciária.

Entretanto, ao consultar o site oficial do próprio instituto, parlamentares localizaram outra versão da mesma. O documento público apresentava avaliação distinta, afirmando que a instituição não aumentaria o risco da carteira do São Roque Prev. Em resumo, a ata disponível no site oficial apontava que não aumentaria risco ao SRPREV e a versão do documento enviada aos vereadores, de forma contrária, dizia que existiam riscos ao SRPREV.

Montagem - Ata do mesmo dia mostrou orientações diferentes sobre risco de investimento no Master

Em março de 2026, em nota oficial enviada ao Correio da Manhã, o Instituto de Previdência de São Roque/SP (SRPREV) esclareceu que a divergência entre os textos das atas do Comitê de Investimentos decorreu de um erro material de redação, já identificado e corrigido. Em uma das versões, constava a frase "...Banco Master ser um banco que trará risco ao SRPREV..., o que gerou interpretação equivocada" - cita a nota.

O comitê deliberou por unanimidade a favor do investimento, com base em pareceres técnicos favoráveis, execução que ocorreu até setembro de 2024. O Instituto ressaltou que "não houve adulteração de documentos e que todas as atas foram disponibilizadas aos órgãos de controle, reforçando o compromisso com a transparência". O investimento em letras financeiras do Banco Master seguiu rigorosa análise de mercado e parecer técnico da consultoria Crédito & Mercado, que indicava "rentabilidade superior" e atestava a "governança adequada da instituição", aprovada pelo Banco Central. Com a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, a gestão da São Roque Prev instaurou auditoria interna para revisar procedimentos administrativos e evitar novas ambiguidades documentais. A prioridade do instituto é "proteger o patrimônio dos servidores públicos de São Roque", adotar todas as medidas jurídicas e administrativas cabíveis e "colaborar integralmente com o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP)" e demais órgãos de controle - dizia a nota.

A entidade reafirmou que a correção da ata visou apenas ajustar a redação, refletindo a "real convicção técnica do comitê" naquele momento. A São Roque Prev mantém, assim, o compromisso inabalável com a transparência e a responsabilidade previdenciária". O atual Diretor Presidente da SRPREV é o advogado e servidor efetivo do Município de São Roque, Bruno César Octávio Caparelli. Ele assumiu o comando da autarquia em dezembro de 2024, após os investimentos da autarquia no Master.

A reportagem também tentou contato, durante a produção da reportagem de 18 de março de 2026, com o então presidente do São Roque Prev à época dos investimentos, Vanderlei Massariolli, mas ele não foi localizado.. Os outros integrantes do Comitê de Investimentos que participaram da reunião em 2024 também não foram localizados.

Dados de fevereiro de 2026 mostram que o SRPREV atualmente é responsável pelo pagamento de 741 aposentadorias e 98 pensões em São Roque/SP.