Unesp de Botucatu diminui os casos de sepse em prematuros
Metodologia aplicada em 12 centros neonatais reduziu infecções graves em bebês
A sepse, uma resposta inflamatória desregulada e exagerada do organismo a uma infecção, é a principal causa de morte entre recém-nascidos prematuros de muito baixo peso, segundo analisou a Universidade Estadual Paulista (Unesp). Para transformar essa realidade, um estudo coordenado por pesquisadoras da Unesp de Botucatu revelou que mudanças simples e de baixo custo nas rotinas hospitalares podem salvar vidas.
O trabalho, desenvolvido na Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), focou em bebês que nascem com menos de 1.500 gramas, público em que a doença se manifesta de duas formas: a precoce, ligada a fatores maternos, e a tardia, que surge após o terceiro dia de vida por causas ambientais.
Ao nascer, o prematuro possui um sistema imunológico imaturo e depende de dispositivos de manutenção da vida, como ventilação mecânica e acessos venosos para nutrição. Embora essenciais, esses recursos podem servir de porta de entrada para agentes infecciosos. Desde 1997, a Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais (RBPN) monitora esses dados, e a sepse tardia tornou-se um alvo prioritário, já que pode ser evitada com a melhoria das práticas assistenciais.
Entre 2009 e 2020, os índices de infecção subiram de 25% para 30%, o que motivou a criação do projeto de intervenção "DownLOS", liderado pelas docentes Ligia Maria Suppo de Souza Rugolo e Maria Regina Bentlin, da Unesp.
Teoria em prática
O projeto DownLOS (sigla em inglês para sepse tardia) não se limitou a observar os números, mas propôs uma ação direta. Entre 2021 e 2023, 12 centros neonatais aderiram voluntariamente à iniciativa. A meta era atacar os três principais vilões identificados: o uso desnecessário de antibióticos nas primeiras 48 horas, complicações com cateteres venosos e o atraso no início da alimentação com leite materno. Segundo as pesquisadoras de Botucatu, o uso precoce de antibióticos causa disbiose — um desequilíbrio na flora intestinal que favorece infecções —, enquanto o leite materno protege o bebê e permite a retirada mais rápida dos acessos vasculares.
Metodologia
Para organizar as mudanças, a equipe utilizou ferramentas de gestão empresarial adaptadas à saúde, como o método PDCA (planejar, fazer, verificar e agir) e o 5W2H, que define responsabilidades claras para cada tarefa. O diferencial foi o respeito à individualidade de cada hospital.
Como as unidades possuem infraestruturas diferentes, as metas foram proporcionais à realidade local. Centros com incidência de 45% de sepse tinham objetivos distintos daqueles que já operavam com índices de 15%. Esse modelo personalizado garantiu que as equipes multidisciplinares, compostas por médicos, enfermeiros e técnicos, pudessem engajar-se de forma factível e realista.
Resultados e custo
Os resultados do estudo com 1.993 bebês foram animadores: 67% das unidades participantes registraram queda na ocorrência de sepse tardia, com uma redução geral de 18,5% na incidência da doença. Metade dos centros atingiu as metas de redução de complicações por cateteres e a suspensão de antibióticos desnecessários ocorreu em 67% dos casos.
O sucesso demonstrou que a prevenção da sepse não depende necessariamente de tecnologias caríssimas, mas de protocolos rigorosos de higiene, uso consciente de medicamentos e incentivo ao aleitamento materno logo nas primeiras 24 horas de vida.
Futuro neonatal
O projeto entra agora em uma nova fase em 2026. Todos os 24 centros da RBPN foram convidados a participar, desta vez com um foco ainda maior no protagonismo de enfermeiros e técnicos de enfermagem. Segundo as informações, a expectativa das pesquisadoras da Unesp de Botucatu é que essa metodologia ultrapasse os muros das universidades e chegue a qualquer unidade neonatal do país.