Estudo da UFSCar identifica as plantas resistentes a herbicida

Araras, Cordeirópolis e Mogi Mirim têm até cinco espécies vivendo juntas

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Uso de herbicida seleciona plantas resistentes, que sobrevivem e geram linhagens tolerantes

Pesquisadores do Laboratório de Produtos Naturais (LPN) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) identificaram plantas invasoras capazes de sobreviver à aplicação do glifosato, o herbicida mais difundido na agricultura global.

O destaque do estudo é a espécie Solanum americanum, que teve sua resistência documentada de forma inédita tanto no Brasil quanto no exterior.

A investigação, conduzida por Gabriel da Silva Amaral sob orientação da professora Maria Fátima Fernandes da Silva, surgiu após relatos de citricultores sobre a ineficácia do controle químico em pomares de laranja e limão. A equipe coletou sementes de plantas sobreviventes em campo e realizou testes laboratoriais rigorosos para validar os mecanismos de resistência.

Seleção evolutiva

A resistência não surge subitamente, mas através de um processo evolutivo estimulado pelo uso repetitivo e indiscriminado de um único princípio ativo. Naturalmente, pequenas variações genéticas podem tornar certos indivíduos de uma espécie menos sensíveis ao veneno. Quando a aplicação do herbicida elimina as plantas vulneráveis, esses indivíduos resistentes sobrevivem, reproduzem-se e transmitem suas características para as gerações futuras. Com o tempo, a população predominante na área passa a ignorar doses que antes seriam letais.

Evidências científicas

Além da descoberta inédita a respeito da resistência da planta Solanum americanum, representando um novo e complexo desafio para o manejo da citricultura a pesquisa trouxe revelações importantes sobre a diversidade da resistência no campo. Por exemplo, a espécie Bidens pilosa (picão-preto), embora geralmente sensível, apresentou populações resistentes na cidade de Olímpia.

Espécies já conhecidas por dificultar o manejo, como a buva (Conyza bonariensis) e o capim-amargoso (Digitaria insularis), confirmaram sua alta tolerância, sobrevivendo inclusive a doses elevadas.

Via do chiquimato

Para assegurar que a sobrevivência não era meramente casual, os cientistas analisaram a via do chiquimato, uma rota metabólica essencial que o glifosato deveria interromper para impedir a produção de aminoácidos vitais. Em plantas sensíveis, o bloqueio gera um acúmulo de ácido chiquímico; nas plantas resistentes identificadas pela UFSCar, esse acúmulo foi significativamente menor, provando que o metabolismo dessas invasoras permanece ativo mesmo sob efeito do herbicida.

Consequências

Além da dificuldade direta no controle das ervas daninhas, o estudo alerta para o impacto ambiental. O excesso de glifosato pode prejudicar microrganismos benéficos no solo, como fungos e bactérias responsáveis pela saúde da terra e pela ciclagem de nutrientes.

Outro ponto crítico é a presença simultânea de várias espécies resistentes em um mesmo local. Em cidades como Araras, Cordeirópolis e Mogi-Mirim, os pesquisadores encontraram até cinco tipos de plantas resistentes convivendo lado a lado. Essa sobreposição exige que o produtor utilize misturas de defensivos mais complexas ou métodos alternativos, o que eleva os custos de produção e o risco ambiental.

Manejo sustentável

A identificação precoce dessas populações é um passo fundamental para que a agricultura brasileira reduza sua dependência exclusiva de herbicidas químicos. Os resultados, publicados na revista AgriEngineering, reforçam a necessidade de estratégias de manejo mais diversificadas e sustentáveis, como a rotação de princípios ativos e o uso de métodos físicos e biológicos de controle.

A pesquisa contou com o apoio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) e evidencia o papel da ciência básica em resolver problemas práticos que afetam diretamente a economia e a segurança alimentar.