Curso inédito no Brasil sobre ciência forense será sediado em Jaboticabal

Disciplina da Unesp combina o conhecimento do solo com investigações criminais

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Relevância reside na capacidade do solo de atuar como uma "testemunha silenciosa"

A Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp, em Jaboticabal, consolidou um marco acadêmico ao lançar uma disciplina de pedologia forense inédita no Brasil. Voltada a estudantes de Engenharia Agronômica e Ciências Biológicas, a matéria propõe uma imersão profunda na ciência do solo aplicada estritamente a contextos jurídicos e investigativos. A iniciativa não se limita à teoria tradicional: ela integra conhecimentos sobre a formação, classificação e distribuição dos solos com técnicas de investigação criminal, utilizando dinâmicas que envolvem laboratórios modernos e a simulação prática de cenas de crime.

Segundo a Unesp, a relevância da pedologia forense reside na capacidade do solo de atuar como uma "testemunha silenciosa". Vestígios infinitesimais encontrados na sola de um sapato, nas fibras de uma roupa ou nas ranhuras de um pneu podem ser o elo crucial para vincular um suspeito a um local específico ou para reconstruir cronologicamente trajetórias em delitos, inclusive em crimes ambientais de alta complexidade.

Estrutura

A disciplina, oferecida em caráter optativo, atraiu um interesse massivo. De um grupo de cerca de 60 candidatos, foram selecionados 30 alunos que apresentaram os desempenhos mais destacados em disciplinas de base, como mineralogia, geologia e gênese dos solos. Essa filtragem rigorosa garante que os estudantes possuam o embasamento técnico necessário para avançar nas aplicações forenses. Ao final do curso, os créditos obtidos serão integralizados aos históricos escolares, valorizando a especialização precoce desses futuros profissionais.

A professora Samara Alves Testoni, responsável pela cadeira no Departamento de Ciência do Solo, ressalta que a proposta se baseia em uma lógica interdisciplinar que conecta a ciência pura às necessidades reais da sociedade e da segurança pública. Segundo a docente, a disciplina representa uma chance de os alunos obterem um diferencial competitivo em suas carreiras. Para o jornal da universidade, ela pontuou que, como educadora, considera fundamental que o estudante consiga visualizar a aplicação prática de seus estudos acadêmicos em demandas externas, sendo o estabelecimento desse vínculo um dos maiores desafios do ensino superior atual.

Trajetória

Samara Testoni possui um currículo robusto na área, acumulando uma década de pesquisas que se iniciaram durante seu doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Sua formação incluiu um período de estudos no Instituto James Hutton, na Escócia, sob orientação da renomada Lorna Anne Dawson, consultora da Agência Nacional de Combate ao Crime do Reino Unido. Essa bagagem internacional permitiu que a professora trouxesse ao Brasil metodologias de ponta, adaptando-as à realidade das polícias científicas e da Polícia Federal brasileira.

Ao longo de sua trajetória, Samara tem contribuído para a sistematização do conhecimento forense através de publicações na Revista Brasileira de Criminalística. Nesses artigos, ela compartilha técnicas desenvolvidas em campo, detalhando tanto os sucessos quanto os aprendizados obtidos em parcerias institucionais. Um dos frutos desse trabalho é a criação de um Procedimento Operacional Padrão (POP) para a perícia em locais de crime com vestígios de solo.

A professora explica que pretende ensinar o método rigoroso de coleta em cenas de crime simuladas, utilizando o POP para garantir que a objetividade da análise não seja comprometida. Ela enfatiza que, por meio do exame minucioso desses vestígios, é possível revelar informações que, de outra forma, permaneceriam ocultas aos investigadores.

A docente destaca ainda que, diferentemente de evidências biológicas como sangue ou impressões digitais, o solo é frequentemente ignorado por criminosos, o que o torna um rastro persistente e valioso.

Samara contou, em entrevista a Unesp, sobre o sucesso da nova disciplina, observando que a existência de uma lista de espera reflete a crescente curiosidade e o desejo de especialização dos alunos na área forense, inclusive com planos para a pós-graduação. Ela conclui afirmando que esse entusiasmo pelo aprendizado é compartilhado por ela mesma, reforçando o caráter inovador da pedologia forense na Unesp.