Acadêmicos do Samba é campeã em Batatais, após jejum de 37 anos

Escola conquista o seu quarto título com homenagem às mães negras ancestrais

Por

A Estância Turística de Batatais viveu, neste domingo (15), mais um momento marcante de sua história cultural. Após a apuração oficial das notas no Sambódromo "Carlos Henrique Cândido Alves", que esteve com sua capacidade máxima de público durante a noite de desfiles no último sábado (14), o Grêmio Recreativo Acadêmicos do Samba foi consagrado o grande campeão do Batatais Folia 2026, encerrando um jejum de 37 anos sem conquistar o título.

A leitura das notas confirmou o alto nível técnico apresentado na avenida. Com 268,2 pontos, a Acadêmicos do Samba alcançou a maior pontuação da competição e garantiu o retorno ao topo do Carnaval batataense. A última conquista da agremiação havia sido em 1989. Agora, a escola soma quatro títulos em sua trajetória: 1982, 1985, 1989 e 2026.

Ancestralidade

Com o enredo "No Xirê das Yabás! Preto Velho cultua as mães negras ancestrais", a escola levou ao sambódromo um desfile marcado por profunda espiritualidade, identidade e potência cultural. A apresentação exaltou as mães negras ancestrais como pilares da fé, da resistência e da formação da sociedade brasileira, reverenciando as Yabás como símbolos de proteção, sabedoria e força feminina.

A comissão de frente, as alegorias imponentes, as fantasias ricamente trabalhadas e a evolução coesa demonstraram meses de dedicação e planejamento. O público, que lotou as arquibancadas, acompanhou cada setor com emoção, em um espetáculo que reafirmou o valor da cultura afro-brasileira e do samba como expressão de pertencimento.

Tradição e resistência

Fundado em 1979 por sambistas oriundos da antiga escola Princesa Isabel, o Grêmio Recreativo Acadêmicos do Samba nasceu do desejo de manter viva a tradição do Carnaval em Batatais. Entre os fundadores estão Carlos Roberto dos Santos, Isoel Aparecido da Silva, Reinaldo Aparecido da Silva e Sebastião Carlos Rodrigues, nomes marcantes na história da folia batataense.

Com as cores branco, prata, amarelo e ouro, a escola construiu sua identidade pautada na força comunitária.

Nos primeiros anos após sua fundação, definia-se como "pobre em recursos financeiros, mas rica em samba, que jogado no asfalto se transforma na alegria do povo". Os títulos anteriores consolidaram sua relevância no cenário local. Na década de 1980, os enredos homenagearam os artistas Dorival Caymmi e Clara Nunes.

O equilíbrio foi a marca da competição, com a vice-campeã, Castelo, ficando apenas dois décimos atrás da vencedora (com 268 pontos), seguida de perto pela Unidos do Morro (267,4 pontos) e pela Unidos da Liberdade (266,6 pontos).

Identidade cultural

O Batatais Folia 2026 confirmou a força do Carnaval do interior paulista. Na noite de sábado (14), as quatro agremiações apresentaram enredos que dialogaram com ancestralidade, crítica social, cultura popular e identidade brasileira.

A vice-campeã, Castelo, desfilou com "Com alegria, samba e emoção, Castelo canta a Rapunzel do Sertão", inspirada na obra "Rapunzefa", do artista batataense Luciano Dami, levando ao sambódromo uma releitura nordestina e popular do conto clássico.

A Unidos do Morro levou à avenida "Troco, Trambique e Tecnologia: Um País Chamado Brasil", com uma narrativa criativa e bem-humorada sobre a história do dinheiro no país, do escambo às tecnologias digitais.

Já a Unidos da Liberdade apresentou "As Mãos Negras de Angola - Luta, Riqueza, Crença e Tambor", exaltando as raízes africanas e a contribuição de Angola para a formação do samba e da cultura nacional.

Desfile das Campeãs

O encerramento oficial ocorreu na segunda-feira com o Desfile das Campeãs, momento em que as escolas voltaram à avenida para celebrar o sucesso de uma festa que, muito além das notas, premiou a memória e a cultura viva do interior de São Paulo.