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A infância que o Brasil insiste em não enxergar

Evento fará o lançamento regional da 2ª temporada da série documental sobre o tema

Por Por Ana Carolina Martins

Daniel Becker é pediatra, sanitarista e escritor e foi conviado para palestrar

O que acontece nos primeiros anos de vida de uma pessoa não fica restrito à infância. As experiências afetivas, as condições de saúde, a alimentação, as oportunidades de aprendizagem e a segurança do ambiente no qual uma criança cresce participam da construção de suas capacidades emocionais, cognitivas e sociais. Apesar dessa etapa ser crucial para o desenvolvimento do indivíduo, o Brasil ainda não reconhece concretamente a dimensão e impacto dela para garantir que todas as crianças tenham condições adequadas de desenvolvimento desde o nascimento.

Uma pesquisa realizada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, divulgada em agosto de 2025, dimensionou esse desconhecimento. O levantamento, com 2.206 entrevistas em todo o país, mostrou que 84% dos entrevistados ignoram que os primeiros anos de vida são o período de maior desenvolvimento físico, emocional e de aprendizagem. Além disso, 42% não sabiam o significado da expressão “primeira infância”. Os resultados revelam um desafio que vai além da informação: fazer com que a sociedade compreenda a infância como uma questão coletiva, que envolve famílias, serviços públicos, escolas e comunidades.

E é a partir desse contexto que Campinas recebe, no dia 27 de outubro, o lançamento regional da segunda temporada da série documental Quanto Mais Cedo, Maior 2, série criada por Francesco Civita e dirigida por Shirlene Paixão, com a parceria da Fundação Educar, Fundação FEAC, Fundação Itaú, Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Fundação Van Leer e Instituto Tecendo Infâncias. O encontro terá a participação do pediatra e sanitarista Daniel Becker, apresentador e consultor de conteúdo da produção.

A programação inclui a exibição de episódios e uma roda de conversa sobre as infâncias brasileiras, seus desafios e a construção de redes de cuidado.

Com oito episódios, a nova temporada percorre diferentes realidades sociais, culturais e étnico-raciais, acompanhando famílias do Acre, de Pernambuco, de São Paulo e do Rio de Janeiro. Os relatos abordam questões que atravessam a vida de quem cuida de bebês e crianças pequenas: a falta de uma rede de apoio, o uso excessivo de telas, a saúde mental, a educação antirracista, a inclusão, o meio ambiente e a necessidade de olhar também para quem assume diariamente a responsabilidade de cuidar.

A família sobrecarregada

Pródigo Filmes - Criança no colo da mãe. Primeira infância é período mais importante de formação

A ideia de que criar uma criança é uma tarefa, exclusivamente, privada ainda pesa sobre mães, pais e outros responsáveis. Na prática, o desenvolvimento infantil também depende de condições que não estão sob o controle individual das famílias: acesso a consultas e acompanhamento de saúde, vagas em creches, alimentação adequada, ambientes seguros, oportunidades de convivência e orientação para lidar com as diferentes fases do crescimento.

A dimensão social desse desafio aparece nos dados nacionais. O Censo Demográfico de 2022 contabilizou 18,1 milhões de crianças de zero a seis anos no Brasil. Mais da metade desse contingente é negra, e a desigualdade econômica condiciona as oportunidades disponíveis desde o começo da vida. Levantamento do Ministério do Planejamento, com base em dados de 2023, apontou que mais de 10 milhões de crianças nessa faixa etária estavam inscritas no Cadastro Único, o que confirma a presença expressiva da primeira infância entre famílias de baixa renda.

O cenário reforça a iminente importância de uma atuação articulada. Acompanhamento pediátrico, educação infantil, assistência social e apoio às famílias não devem funcionar como iniciativas isoladas. Quando os serviços conseguem dialogar, identificar necessidades e encaminhar situações de vulnerabilidade, aumentam as possibilidades de prevenir problemas e oferecer respostas mais adequadas às crianças.

E ainda, a rede de cuidados também precisa considerar os adultos. Sobrecarga, isolamento, dificuldades financeiras e sofrimento emocional podem comprometer a experiência rotineira do cuidar, especialmente quando não há familiares ou serviços com quem dividir responsabilidades. Isso não significa retirar a responsabilidade dos adultos, mas reconhecer que a proteção infantil exige condições concretas para ser exercida.

Para além da consulta pediátrica

Convidado para conduzir a discussão em Campinas, o pediatra Daniel Becker construiu uma trajetória que combina medicina, saúde pública e atuação comunitária. Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e com mestrado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), reúne experiências profissionais voltadas à pediatria social em outros países.

Becker foi o primeiro médico brasileiro a trabalhar com a organização “Médicos Sem Fronteiras” e também participou da criação da Estratégia Saúde da Família, política que ampliou a atenção básica no SUS. Também fundou o Centro de Promoção da Saúde (Cedaps), organização que atua em comunidades promovendo a saúde.

Enquanto palestrante e comunicador, o pediatra também se utiliza de entrevistas, palestras e das redes sociais para discutir infância, parentalidade e saúde. Na série, sua participação ajuda a contextualizar as experiências das famílias e a relacioná-las com questões mais amplas do desenvolvimento infantil.

Os decisivos primeiros anos

Pródigo Filmes - Criança ainda na primeira infância

Ao reunir relatos de famílias e especialistas, Quanto Mais Cedo, Maior 2 propõe uma reflexão sobre o lugar que a infância ocupa nas decisões cotidianas e coletivas. O desafio é transformar o reconhecimento da importância dos primeiros anos em práticas concretas: ampliar o acesso aos serviços, fortalecer vínculos, orientar cuidadores e assegurar que as crianças não dependam exclusivamente das condições econômicas ou da estrutura familiar em que nasceram.

Ao trazer a série para Campinas, as fundações envolvidas colocam em pauta uma questão que ultrapassa o evento: que tipo de sociedade se constrói quando a primeira infância recebe a devida atenção? E quando as suas necessidades são tratadas como secundárias? Essas respostas dependem de escolhas individuais, compromissos comunitários e políticas públicas capazes de reconhecer que cuidar das crianças é também cuidar do nosso futuro.

SERVIÇO:
Lançamento regional de Quanto Mais Cedo, Maior 2
Data: 27 de outubro, às 19h
Local: auditório da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em Campinas
Entrada gratuita, com 208 vagas e retirada de ingressos pela plataforma Sympla.
A série está disponível gratuitamente no Globoplay, inclusive para não assinantes, e no YouTube.