☰
✕

Construção civil avalia novo programa de cargos no setor

‘Trilhas Profissionais da Construção’ pode afetar cerca de 100 mil trabalhadores na região

Por Por Ana Carolina Martins

Obra da construção civil

O setor da construção civil da Região Metropolitana de Campinas (RMC) tem, diante de si, uma proposta de mudança que pretende atingir uma das questões mais antigas do segmento: a transformação da experiência adquirida no canteiro de obras em uma trajetória profissional efetiva e melhor remunerada.

Na nossa região, o universo potencial é expressivo, mais de 100 mil trabalhadores com carteira assinada atuavam na construção civil nos 20 municípios da RMC, segundo levantamento do SindusCon-SP, com dados do Novo Caged e da FGV Ibre. Em maio de 2026, eram 101,7 mil vínculos formais, estoque que acumulava crescimento de 2,7% no ano.

E é para esse mercado que chega a proposta ‘Trilhas Profissionais da Construção’, apresentada em setembro, (29/10), no auditório do SENAI Roberto Mange, em Campinas. O encontro integra o roadshow que percorre as regiões do Estado de São Paulo para divulgar um modelo desenvolvido pelo SindusCon-SP, SENAI-SP, Fiesp, Sintracon-SP e Feticom-SP.

A ideia central é criar uma espécie de ‘escada profissional’, na qual o trabalhador possa identificar efetivamente em que degrau quais são os requisitos necessários para chegar ao próximo nível. O modelo estabelece 7 degraus de evolução, começando como Auxiliar de Produção, passando sucessivamente por Oficial de Produção I, Oficial de Produção II, Encarregado de Produção, Mestre de Obras Júnior, Mestre de Obras Pleno e Mestre de Obras Sênior.

A proposta vai além de uma mera troca de nomes, envolvendo, para avançar, requisitos, como experiência comprovada, domínio técnico e formação específica. A progressão completa pode chegar a 12 anos, distribuídos entre as diferentes etapas da carreira.

Na prática, a proposta busca oferecer previsibilidade a uma carreira que, em muitas empresas, ainda depende de critérios internos aleatórios e pouco uniformes e coerentes à realidade das atividades efetivamente realizadas.

Da experiência à certificação

Divulgação - Operários da Construção Civil em obra

A industrialização, as novas tecnologias e a diversificação dos sistemas construtivos aumentaram as exigências por trabalhadores melhor preparados. A nova proposta parte da premissa de que a construção deve ser tratada como indústria de alta tecnologia, cujo desenvolvimento humano deve, obrigatoriamente, acompanhar essa transformação.

O ‘‘Trilhas” contempla sete áreas de atuação: obras civis, impermeabilização, sistemas de construção a seco, armação, formas, hidráulica e elétrica. Cada uma dessas áreas deverá ser relacionada à formação profissional oferecida pelo SENAI-SP, com a capacitação sendo aplicada nos canteiros.

A mudança de nomenclatura é um outro componente importante. Termos usuais como “servente de obras”, “ajudante de pedreiro” e “meio oficial de pedreiro” integram o modelo atual. Contudo, a nova estrutura propõe a substituição desses termos por denominações associadas às competências e ao desenvolvimento profissional, começando pelo Auxiliar de Produção e avançando até as funções de liderança.

RonconGracaCom - Diretor regional do SindusCon-SP, Márcio Benvenutti, afirmou que a mão de obra é um entrave, principalmente a qualificada, na Construção Civil

Falta gente… mas falta principalmente qualificação

O tamanho do contingente regional ajuda a dimensionar a importância dessa iniciativa. São 101,7 mil vínculos formais na construção nos 20 municípios da RMC, de acordo com o levantamento mais recente localizado para a região. Por isso, a implantação do ‘Trilhas’ será gradual.

Na própria Regional Campinas, a dificuldade com trabalhadores qualificados vem sendo sinalizada pelo setor. Em agosto, o diretor regional do SindusCon-SP, Márcio Benvenutti, afirmou que a mão de obra é um entrave, principalmente a qualificada. “Precisamos que a construção trabalhe como, por exemplo, as montadoras de automóveis", exemplificou, mencionando o programa ‘Minha Casa Minha Vida'.

“É um programa que foca em métodos industrializados e de alta escala para reduzir custos e acelerar a entrega, como a alvenaria estrutural (blocos de concreto que sustentam o peso da casa sem precisar de vigas e colunas tradicionais) e paredes de concreto moldadas in loco (concreto é injetado em formas metálicas montadas diretamente no canteiro de obras)”, observa.

Uma carreira que inicia no canteiro

O projeto-piloto das Trilhas terá duração de 12 meses e envolverá inicialmente 30 empresas, dez construtoras e 20 empreiteiras. A formação será levada aos canteiros, priorizando produtividade, associando esse ganho à qualificação, segurança e qualidade de vida dos trabalhadores.