Cine Paradiso: o último suspiro de uma era no Centro

Atrás daquela porta discreta, um universo inteiro de histórias. Para muitos, o Paradiso continua em cartaz

Por Por Ana Carolina Martins - Campinas

Entrada do cineclube

Houve um tempo em que ir ao cinema em Campinas era um ritual. As luzes do Centro ficavam acesas até mais tarde, os encontros eram marcados na calçada e o café, tomado antes da sessão e das conversas depois de listados os créditos.

E, quando quase todos os cinemas de rua já haviam sucumbido ao avanço dos shoppings, um pequeno guerreiro resistente continuava de pé, escondido nos fundos da Galeria Barão Velha, na Rua Barão de Jaguara. Atrás de uma porta discreta, um universo inteiro de histórias, onde o mundo cabia em uma tela. Seu nome parecia uma profecia: Cine Paradiso.

Inaugurado em 1983, como herdeiro do movimento cineclubista da cidade, o Paradiso nasceu primeiro nas dependências do Senac, pelas mãos de apaixonados pelo cinema, entre os quais, Hélcio Henriques, que transformaria uma paixão pessoal em um dos maiores exemplos de resistências culturais que o município já viu.

No coração do Centro

Divulgação - Cartaz do polêmico filme Dogville, com Nicole Kidman, exibido no Cineclube de Campinas Cine Paradiso

Em 1992, a sala encontrou seu endereço definitivo no coração do Centro, onde permaneceria até a sua última sessão, em 2009. “As memórias de 27 anos estão vivas em mim. Quando comecei tinha apenas 19 anos. Uma aventura que durou de 1983 a 2000”, conta. Enquanto os multiplex dos shoppings prometiam poltronas reclináveis, amplos estacionamentos e pipocas gigantes, o Paradiso oferecia algo impossível de se comprar: pertencimento.

Lá era o lugar onde os estudantes descobriram Buñuel, Fellini e Bergman; onde casais marcavam encontros silenciosos; onde professores levavam seus alunos para aprender que o cinema também podia fazer perguntas e também trazer respostas. “A maioria dos filmes exibidos eram escolhidos a dedo, fora do circuito hollywoodiano, eram alternativos, independentes, como o lançamento de “Dogville”, relembra.

Hélcio costumava dizer que, nos anos 1980, ninguém ia ao cinema preocupado com o sistema de som ou com a comodidade de estacionar. As pessoas queriam ver o filme em cartaz. Caminhavam pelas calçadas, encontravam amigos na fila e aceitavam que a cópia desse algum problema durante a projeção. Havia paciência, curiosidade e tempo.

Entretando, tudo começou a mudar… O Centro perdeu movimento, as grandes salas migraram para os shoppings e o público foi desaparecendo aos poucos. Não foi uma despedida repentina, foi um esvaziamento lento, quase doloroso. 

Ainda assim, Hélcio insistiu...

Arquivo pessoal - Helcio Henriques, ator campineiro


Insistência movida pela paixão

Insistiu quando as contas já não fechavam. Insistiu quando a tecnologia digital exigia investimentos impossíveis para uma pequena sala independente. Insistiu mesmo sabendo que exibir cinema de arte era nadar contra uma corrente cada vez mais forte. “No final, acabei com as dívidas. Foi um período muito difícil, mas acredito que deixamos um legado. Foram 27 anos de história, sem patrocínios… algo muito raro de acontecer”, lembra.

Nos últimos anos, o Cine Paradiso parecia viver dentro de um filme que ele próprio poderia exibir. As sessões reuniam um público fiel, pequeno, mas apaixonado. Muitos espectadores frequentavam a sala há mais de duas décadas.

A ironia mais bonita, mas também a mais cruel, aconteceu pouco antes do derradeiro fechamento da sala de cinema. O cineasta campineiro Marcos Craveiro filmou, dentro do Paradiso, um curta chamado “A Última Estação”. Nele, Hélcio interpretava justamente o dono de um cinema de rua prestes a fechar as portas. Ficção e realidade caminhavam lado a lado. “Tudo o que aprendi sobre cinema foi ali. Hoje, sou ator de teatro, filmes e TV”.

Sessão derradeira

Quando a última sessão aconteceu, em outubro de 2009, Hélcio nem estava em Campinas. Havia viajado para Nova York para apresentar o seu próprio curta em um festival internacional. Antes da exibição do seu trabalho, contou ao público estrangeiro que, naquele exato momento, vencidos os fusos horários, seu cinema estava vivendo a derradeira noite.

Enquanto uma plateia o aplaudia do outro lado do continente, outra, muito menor, deixava em silêncio a sala escura da Barão de Jaguara pela última vez.

Cineclube Campinas Cine Paradiso - No começo foi tudo bem difícil, o projetor era emprestado.

Desde então, Campinas nunca mais teve uma sala de cinema de rua em funcionamento no Centro. O Cine Paradiso foi o último capítulo de uma tradição que começou ainda nas primeiras décadas do século XX, quando as grandes salas iluminavam a cidade muito antes dos shoppings existirem. O seu fechamento marcou o fim de uma era, deixando uma ausência que nenhuma sala multiplex conseguiu preencher.

Talvez seja por isso que, mesmo passado tantos anos, basta alguém pronunciar o nome Cine Paradiso para despertar um sorriso melancólico nos campineiros. Denotando não apenas saudade de um prédio ou de uma tela, mas também de uma Campinas que caminhava mais devagar, que acolhia as noites boêmias e seus personagens populares… Uma Campinas que acreditava que um pequeno cinema escondido numa galeria podia mudar a maneira de se olhar o mundo.

Lugares assim não desaparecem de verdade. Eles continuam projetando memórias na tela invisível de quem passou por eles. E, para muita gente, o Paradiso continua em cartaz.