Estação Cultura: o transporte do "ouro verde" pelos trilhos

Graças à ferrovia e ao café, o município vivenciou o seu período de maior esplendor

Por Ana Carolina Martins - Campinas

Fachada do conjunto construtivo da antiga ferroviário em Campinas: beleza arquitetônica com tijolos ingleses que encanta e nos leva de volta a um passado de desenvolvimento e riqueza

Houve um tempo em que, quando se desejava sentir o verdadeiro ritmo de Campinas, era só permanecer alguns minutos na plataforma da Estação da Companhia Paulista. No fim do século XIX e primeiras décadas do século XX, a estação vivenciou o seu período de maior esplendor.

O café continuava sendo o grande motor da economia paulista, e o município consolidava-se como um dos mais importantes centros comerciais e ferroviários do Brasil. Pelos trilhos circulavam diariamente toneladas do chamado "ouro verde", destinadas ao Porto de Santos para abastecer mercados da Europa e dos Estados Unidos. Porém, os vagões transportavam muito mais do que sacas de café. Transportavam vidas.

Na mesma plataforma onde desembarcavam imigrantes, também chegavam professores, médicos, engenheiros, empresários e artistas. A proximidade proporcionada pelos trilhos permitiu que a cidade ampliasse a sua influência econômica, cultural e científica, reforçando a sua condição de um dos municípios mais importantes do interior brasileiro.

Muitas das mais importantes notícias chegavam, primeiro, pelos trilhos. E a estação também testemunhou momentos históricos que ficaram gravados na memória coletiva local.

Personalidades inesquecíveis

Um dos momentos mais emocionantes ocorreu em 3 de setembro de 1896, quando Campinas recebeu o corpo de seu filho mais ilustre, o compositor e maestro Carlos Gomes, falecido em Belém do Pará.

A urna funerária chegou de trem e foi recebida por milhares de pessoas, em uma cerimônia marcada por profunda comoção. Ruas tomadas por moradores, autoridades e músicos transformaram aquele desembarque em uma das maiores homenagens públicas já realizadas na cidade.

Poucos anos depois, outro acontecimento mobilizou uma multidão. Em 1903, o inventor Alberto Santos Dumont, reconhecido internacionalmente por suas experiências com dirigíveis em Paris, desembarcou em aqui e foi recebido com entusiasmo por uma população orgulhosa por receber um dos brasileiros mais admirados do mundo.

Ao longo das primeiras décadas do século XX, o complexo ferroviário tornou-se ainda maior. A cidade passou a concentrar estruturas operacionais de duas das principais companhias ferroviárias paulistas: a Companhia Paulista e a Companhia Mogiana. Ser ferroviário era motivo de orgulho.

Não por acaso, muitas famílias campineiras construíram a sua história em torno da ferrovia. Pais transmitiam o ofício aos filhos, criando gerações de trabalhadores cujas vidas foram marcadas pelo som dos trilhos e ritmo dos horários dos trens.

Vila Industrial

Aristides Pedro da Silva, CC BY-SA 4.0 - Crianças brincam nas "ruas" da Vila Industrial, bairro que cresceu praticamente em sintonia com a estação ferroviária. Além das casas dos ferroviários, acolheu pequenas indústrias, oficinas mecânicas, serralherias, armazéns e comércios

A Vila Industrial cresceu praticamente em sintonia com a estação. Casas de ferroviários, pequenas indústrias, oficinas mecânicas, serralherias, armazéns e comércios passaram a ocupar os arredores, formando um bairro profundamente ligado à atividade ferroviária.

Entretanto, a partir da segunda metade do século XX, um novo modelo de transporte começou a ganhar força no Brasil. O investimento crescente nas rodovias e no transporte rodoviário de cargas e passageiros reduziu gradativamente a importância das ferrovias. Assim, antigas linhas foram desativadas e o grande centro ferroviário começou a experimentar um silencioso processo de esvaziamento.

Os relógios continuavam marcando as horas. Os trilhos permaneciam no mesmo lugar… Mas já não havia mais a mesma multidão apressada cruzando as plataformas. A cidade começava a se despedir de uma Era que havia talhado a sua identidade por mais de um século.

Na terceira e última parte desta reportagem, veremos como a antiga estação quase foi engolida pelo abandono, a mobilização que garantiu a sua preservação enquanto patrimônio histórico e a emocionante transformação que deu origem à atual Estação Cultura, local onde os trens deixaram de transportar passageiros, mas cuja memória se mantém preservada.