Quando a fotografia aprende a respirar
Exposição convida a redescobrir a imagem enquanto experiência estética
Vivemos cercados por fotografias… Elas chegam em ritmo frenético pelas telas dos celulares, atravessam redes sociais, registram viagens, refeições, encontros e acontecimentos cotidianos. Nunca se produziu tanta imagem como na atualidade. Entretanto, paradoxalmente, talvez nunca se tenha olhado tão pouco para elas.
E é justamente contra essa instantaneidade e banalização velocidade que a exposição "A Oitava Arte: Fotografia, Arte Essencial II" se insurge. Em vez do consumo imediato, ela se propõe à contemplação. No lugar do gesto automático de deslizar a tela, convida o visitante a permanecer diante da imagem e observar a luz, a composição, as texturas, os silêncios e as histórias que existem para além do instante congelado pelo obturador.
A mostra será aberta na próxima quarta-feira, dia 5/8 , às 19h, na Galeria de Arte do Centro de Convivência Cultural Carlos Gomes (CCC), até 29 de agosto, com entrada gratuita. A exposição integra a programação do XVI Festival Hercule Florence, reunindo 44 fotografias produzidas por 22 profissionais e artistas de diferentes trajetórias, linguagens e pesquisas visuais.
Não há um tema único nem um roteiro previamente estabelecido. O elo entre as obras acontece pela maneira como cada fotógrafo transforma o cotidiano em linguagem artística, revelando que toda fotografia é, por definição, uma forma particular e única de olhar.
Essa talvez seja a principal diferença entre a fotografia produzida para o consumo instantâneo e aquela que ocupa as galerias. Enquanto uma busca informar ou compartilhar um momento, a outra convida à interpretação. A imagem deixa de ser apenas registro para tornar-se narrativa, metáfora, memória e emoção.
Essa transformação consolidou a fotografia como uma das mais importantes manifestações das artes visuais contemporâneas. O ato de fotografar envolve escolhas estéticas tão complexas quanto as da pintura ou da escultura. O enquadramento, a incidência da luz, o tempo de exposição, a composição e, sobretudo, a sensibilidade de quem está atrás da câmera fazem de cada fotografia uma obra absolutamente singular.
A curadoria das galeristas de arte contemporânea Ligia Testa, de Campinas, e Rosita Cavenaghi, de São Paulo, reflete essa multiplicidade ao reunir profissionais e artistas com estilos bastante distintos unidos pela capacidade de transformar a imagem em experiência estética. “A ideia de chamar a fotografia de ‘oitava arte’ é sedutora, ainda que não seja exatamente consensual do ponto de vista histórico. Por isso, é importante reconhecê-la como essencial: a fotografia deixou de ser apenas um registro técnico para se firmar como uma das linguagens centrais da arte e da cultura visual contemporânea”, afirma Ligia.
Para Rosita Cavenaghi, a fotografia deve ser compreendida também por sua dimensão coletiva e social. “Chamar a fotografia de essencial não é exagero. A fotografia molda a nossa memória coletiva, redefine a forma como percebemos o real e democratiza a produção de imagens”, afirma.
Poucas cidades brasileiras dispõem de uma relação tão estreita com a fotografia quanto Campinas. A metrópole abriga o “Festival Hercule Florence”, homenagem ao inventor e pesquisador franco-monegasco que viveu na região e desenvolveu, ainda na década de 1830, experimentos pioneiros sobre a fixação de imagens pela ação da luz, paralelamente às descobertas realizadas na Europa.
A realização de "A Oitava Arte" dentro dessa programação reforça essa tradição. Mais do que uma mostra coletiva, ela reafirma Campinas como espaço de reflexão sobre a produção fotográfica contemporânea, em um momento em que a fotografia vive uma curiosa contradição: nunca esteve tão presente na vida das pessoas e, ao mesmo tempo, raramente foi observada com tanta atenção.
Ao percorrer a galeria, o visitante perceberá que nenhuma imagem pretende oferecer respostas prontas. Cada foto abre uma possibilidade de leitura, desperta lembranças, provoca estranhamentos ou simplesmente convida à contemplação. Em tempos dominados pela rapidez e pelo excesso de informação, talvez esse seja seu maior mérito: devolver ao olhar o tempo que ele perdeu.
Participam da exposição Bel Young, Cadu Carmignani Verdade, Cati Alionis, Cláudio Colavolpe, Daniel Gallo, Daniel Von, Elisabeth Wortsman, Fabiana Yazbek, Germano, Heloisa Tannuri, a colunista do jornal Correio da Manhã, Huguette Gallo, JR Hofling, Márcio Murilo Pilot, Piergiorgio Castrucci, Pierre Piton, Renata Grangeiro, R. Kovacs, Ricardo Lima, Sayuri Assanuma, Sergio Poroger, Tania Martins e Thelma Gátuzzô. Cada um apresenta duas obras, compondo um panorama da fotografia contemporânea que dialoga com diferentes públicos, técnicas e sensibilidades.
A exposição nos convida a reaprender a olhar. Afinal, em um mundo saturado de imagens, talvez a verdadeira experiência estética não esteja em produzir mais fotografias, mas em dedicar alguns minutos para contemplar uma única imagem até que ela, silenciosamente, comece a respirar.
Serviço
Exposição: A Oitava Arte: Fotografia, Arte Essencial II
Abertura: 5 de agosto, às 19h
Visitação: de 5 a 29 de agosto
Local: Galeria de Arte do Centro de Convivência Cultural Carlos Gomes, Campinas
Entrada: gratuita.