Mudanças climáticas influenciam planos de vida de jovens

Pesquisa revela que prognósticos negativos impactam as escolhas futuras

Por Ana Carolina Martins - Campinas

Consulta foi realizada pelas organizações 'Em Movimento' e 'Minha Campinas', com assessoria técnica da Rede Conhecimento Social e investimento da Feac

As mudanças climáticas e os prognósticos futuros sobre o assunto deixaram de ser apenas uma preocupação meramente ambiental de autoridades, pesquisadores e especialistas no tema e passaram a afetar diretamente as perspectivas e os planos de vida dos jovens de Campinas.

Isso foi o que constatou o primeiro diagnóstico do projeto “Juventudes, Raça e Mudanças Climáticas em Campinas” (Jucamp), segundo o qual 58% dos jovens entrevistados afirmam que a crise climática interfere em suas expectativas e possíveis decisões futuras. E ainda que 34% afirmaram que passaram a repensar o desejo de ter filhos em razão das mudanças no clima.

O levantamento foi realizado entre fevereiro e março deste ano pelas organizações Em Movimento e Minha Campinas, com a assessoria técnica da Rede Conhecimento Social (ReCoS) e investimento da Fundação Feac.

Vulnerabilidade

PAC (Ozipa Criativa) - 58% dos jovens entrevistados afirmam que a crise climática interfere em suas expectativas e possíveis decisões futuras

A pesquisa revela que os impactos das mudanças climáticas são sentidos diariamente, sobretudo nas regiões mais vulneráveis da cidade, onde a população é afetada mais significativamente pelo calor ou frio extremos, enchentes, incêndios e falhas nos serviços públicos que impactam sobremaneira a rotina da população jovem.

Embora o calor intenso seja apontado como a principal queixa física entre a população de 15 a 29 anos, apenas 2,7% das salas de aula da rede estadual de ensino são equipadas com climatização básica . O estudo também identificou que, apesar de compreenderem os desafios ambientais que enfrentam, muitos jovens ignoram a possibilidade de mobilização da sociedade civil como um caminho viável para reivindicar melhorias nas políticas públicas.

Obstáculo concreto

De acordo com a coordenadora de projetos da organização Em Movimento, Iasmim Vieira, a deficiência na infraestrutura urbana transforma a crise climática em um obstáculo concreto para o desenvolvimento da juventude.

"A ausência de climatização nas escolas e as constantes quedas de serviços básicos, como energia e internet, comuns em dias de ventania, por exemplo, comprometem o rendimento de quem tenta estudar ou trabalhar nas periferias”, afirma. Para Iasmin, o diagnóstico ajuda a tirar o debate climático da teoria, inserindo-o no contexto das necessidades mais urgentes do cotidiano urbano.

A pesquisa também revela que os efeitos das mudanças climáticas variam conforme a região da cidade. Na região Norte, que inclui bairros como Barão Geraldo, Amarais e Nova Aparecida, os jovens registraram os maiores índices de impacto sobre a saúde mental, o rendimento escolar e as expectativas em relação ao futuro.

Já na região Central, embora os consultados afirmem que o clima altera menos a sua rotina, demonstram maior preocupação com uma possível escassez de água e relatam que percebem um aumento significativo na incidência de doenças respiratórias e viroses.
Na região Noroeste, as enchentes e alagamentos aparecem como os principais fatores de transtornos à mobilidade urbana, com frequentes interdições de ruas e avenidas.

Desastres ambientais

A consulta revela ainda que, nas regiões Norte e Noroeste, os desastres ambientais ampliam a sobrecarga relativa aos cuidados familiares, uma responsabilidade que recai comumente sobre as mulheres.

Para a cogestora da Minha Campinas, Viviane Junta, compreender os impactos das mudanças climáticas é reconhecer as desigualdades existentes entre os territórios. “O objetivo de apoiar uma pesquisa desse porte é o de garantir que esses dados sirvam de ferramenta para que os próprios moradores e os coletivos de bairro consigam cobrar da Prefeitura soluções integradas de saneamento, arborização e transporte nos locais cuja vulnerabilidade é histórica”.

Na avaliação da gerente de Desenvolvimento Social da Fundação Feac, Tatiane Zamai, o diagnóstico fortalece a produção de conhecimento como instrumento para qualificar políticas públicas e ampliar a capacidade dos territórios de interpretar seus desafios e construir soluções coletivas.

”A Jucamp demonstra que evidências, participação social e fortalecimento das organizações não são agendas distintas, mas dimensões de uma mesma estratégia de desenvolvimento social e territorial”, avalia.

Principais resultados da pesquisa

58% dos jovens afirmam que a crise climática influencia suas expectativas de futuro;
34% repensam o desejo de ter filhos por causa das mudanças climáticas;
73% enfrentam dificuldades para utilizar o transporte coletivo em dias de chuva forte;
70% relatam quedas de internet provocadas por eventos climáticos;
75% sofrem interrupções no fornecimento de energia elétrica durante ventanias;
69% percebem impactos no desempenho escolar ou profissional em razão das condições climáticas;
69% afirmam faltar ou se atrasar para compromissos devido a tempestades ou calor extremo;
68% acreditam que pessoas pobres e pessoas ricas sofrem os efeitos das mudanças climáticas de maneira diferente.