Quando a solidariedade se transforma em dignidade

Rede de voluntários reforma casas e resgata a fé no ser humano

Por Ana Carolina Martins

Avó e neta receberam os voluntários com alegria para a reforma

Campinas figura entre os municípios mais desenvolvidos do Brasil, tem um dos maiores Produtos Internos Bruto (PIBs) do interior paulista e concentra universidades, centros tecnológicos e polos industriais. No entanto, na outra ponta de tanta prosperidade encontram-se milhares de famílias que convivem com uma realidade invisível aos números econômicos: moradias deterioradas, infiltrações, telhados comprometidos, instalações elétricas precárias e perigosas e ambientes sem condições adequadas de habitação.

O problema não é exclusivo do município. Dados oficiais da Fundação João Pinheiro, instituição pública vinculada ao Governo de Minas Gerais e voltada à formulação de políticas governamentais, o déficit habitacional brasileiro foi estimado em 5.773.983 moradias em 2024, o equivalente a 7,4% dos domicílios ocupados do país.

Além disso, mais de 26,5 milhões de domicílios urbanos apresentam algum tipo de inadequação, seja por carência de infraestrutura, problemas construtivos ou insegurança fundiária.

A força do cidadão

É nesse cenário que iniciativas da sociedade civil ganham relevância. Desde 2018, o Projeto Doce La”, organização sem fins lucrativos sediada em Campinas, vem demonstrando como a mobilização de cidadãos comuns pode transformar as casas e também as trajetórias de vida das pessoas.

Fundado pelo engenheiro civil Fernando César Ferreira, o projeto já realizou 14 reformas para 16 famílias, arrecadou cerca de R$ 350 mil em doações e mobilizou mais de 660 voluntários, acumulando mais de 10 mil horas de trabalho.

As obras acontecem aos fins de semana e são financiadas exclusivamente por doações de pessoas físicas e jurídicas. Não há vínculo político nem religioso. As famílias são selecionadas por critérios técnicos, sendo a posse regular do imóvel como um dos principais requisitos. “Entendemos que o projeto poderia fazer a diferença, proporcionando dignidade às famílias”, resume Fernando.

Mas o impacto do “Doce Lar” vai além das paredes.

Fachada transformada para avó e neta

Divulgação/Doce Lar - "Projeto Doce Lar", de Campinas, reforma a casa de quem mais precisa. Na imagem, avó e neta foram beneficiadas. Imagem da entrada após a reforma

Um dos casos mais emblemáticos foi o de Eline Rosa, atendida na 4ª edição do projeto. Depois de ver sua casa completamente transformada, ela se entusiasmou tanto que decidiu cursar Arquitetura e, hoje, atua como voluntária da própria iniciativa que mudou a sua realidade. “A mudança foi inacreditável. Hoje, temos um lugar onde podemos realmente descansar, com conforto e dignidade”, garante.

O relato de Eline ajuda a compreender um efeito pouco discutido dessas ações, a solidariedade cria um círculo virtuoso. Quem recebe a ajuda, frequentemente se torna agente de transformação para outras famílias.

Outro caso foi uma reforma mais recente concluída em março deste ano, beneficiou dona Rosa, aposentada e viúva, que vive com a neta Laura, de 17 anos. A residência, herdada do marido, apresentava problemas estruturais que estavam comprometendo as condições da moradia. As obras trouxeram mais segurança e conforto às duas mulheres.

Domicílios inadequados

A Fundação João Pinheiro define como “inadequados” os domicílios que não conseguem oferecer condições básicas de qualidade de vida, com problemas de abastecimento de água, esgoto, coleta de lixo, ausência de banheiro exclusivo, pisos ruins e cobertura comprometida. O foco do indicador da entidade é exatamente apontar a necessidade de melhorias na habitação existente e não apenas na construção de novas moradias.

É exatamente este o espaço ocupado pelo “Doce Lar”, o de recuperar imóveis que já existem, mas que deixaram de oferecer o mínimo de segurança, conforto e salubridade às famílias.

Novos projetos

Agora, o projeto prepara a sua 15ª reforma, prevista para o fim de agosto, enquanto amplia a sua atuação para instituições filantrópicas. A primeira entidade beneficiada foi a Associação Evangelista Assistencial (AEA), organização da sociedade civil de Campinas (SP), que desenvolve serviços gratuitos voltados a crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, com foco na promoção de direitos, fortalecimento de vínculos familiares e desenvolvimento comunitário.

A próxima intervenção deverá atender a uma organização que acolhe cerca de 120 crianças.
Os planos futuros incluem ainda a criação do “Instituto Doce Lar" voltado à formação de lideranças sociais e à capacitação de pessoas interessadas em desenvolver projetos de impacto comunitário.

Fé e esperança se encontram

Divulgação/Doce Lar - Equipe de voluntários faz o registro fotográfico antes de iniciar as obras na casa de avó e neta em Campinas

O projeto depende de doações em dinheiro, materiais de construção, móveis, ferramentas, alimentos e trabalho voluntário. Empresas interessadas em ações de responsabilidade social podem entrar em contato com a equipe para estabelecer parcerias, enquanto as inscrições para voluntários e famílias, assim como as formas de doação, estão disponíveis no site e nas redes sociais do Projeto Doce Lar.

“O financiamento das obras é um grande desafio. Algumas organizações e pessoas nos ajudam, mas estamos continuamente em busca de novos apoiadores e patrocinadores para fortalecer o projeto”, confirma Fernando.

Em tempos em que tantas notícias destacam crises e dificuldades, o Projeto Doce Lar lembra que existe outra força igualmente presente na sociedade: a disposição de pessoas comuns em doar tempo, trabalho e conhecimento para melhorar a vida de pessoas anônimas que passam a se conhecer.

Às vezes, a maior reforma não acontece em uma residência. Acontece na esperança de quem volta a acreditar que não está sozinho.