Duas Campinas em uma mesma cidade
Relatório da Fundação FEAC mostra como investimentos sociais chegam aos territórios mais vulneráveis da cidade e ajudam a reduzir desigualdades que afetam quase 139 mil famílias
Campinas reiteradamente aparece nos rankings das cidades mais desenvolvidas do Brasil. Sede de respeitadas e reconhecidas universidades, centros de pesquisa, grandes empresas e de uma economia que figura entre as maiores do país.
Contudo, existe uma outra Campinas, menos visível, na qual milhares de famílias enfrentam diariamente dificuldades para ter acesso a renda, moradia em condições mínimas, qualificação profissional e até mesmo de serviços básicos.
É justamente na fronteira entre a face próspera e a realidade marcada pela desigualdade da cidade que atua a Fundação FEAC. O Relatório de Gestão e Impacto 2025, divulgado pela instituição, aponta que mais de R$ 34 milhões foram direcionados no último ano para projetos sociais, desenvolvimento comunitário e fortalecimento de organizações que trabalham diretamente com populações vulneráveis.
Por trás dos números, contudo, fica no ar uma questão importante: o que isso muda na vida das pessoas? A resposta da FEAC aparece nos territórios em que atua.
Embora muitos campineiros enxerguem uma “metrópole de oportunidades”, uma pesquisa encomendada pela própria Federação revelou que 65% da população considera Campinas uma cidade desigual. O levantamento também identificou diferenças significativas na qualidade de vida entre bairros e grupos sociais distintos.
Essas desigualdades aparecem de forma concreta nos dados do Cadastro Único, que registra quase 139 mil famílias em situação de vulnerabilidade social no município. A maior concentração está, justamente, nas regiões Sul e Sudoeste, áreas historicamente marcadas por desafios relativos à renda, infraestrutura e acesso a serviços públicos.
E é justamente para essas regiões que boa parte dos investimentos sociais tem sido direcionada.
Nos bastidores
Grande parte da população conhece as organizações sociais que atuam no município a partir dos projetos que executam, entretanto, raramente dimensionam a estrutura necessária para se oferecer esse atendimento.
Ao longo de 2025, a FEAC apoiou 62 organizações da sociedade civil, responsáveis por 84 projetos voltados à proteção social, geração de renda, fortalecimento familiar e desenvolvimento comunitário.
Na prática, isso significa manter abertas as portas que acolhem crianças, adolescentes, mulheres, idosos e famílias inteiras em momentos de vulnerabilidade. E, ainda, a garantia de que as entidades tenham condições técnicas, financeiras e organizacionais para continuar funcionando e ampliando a sua atuação e resultados. Sem esse suporte, muitos projetos indispensáveis em comunidades inteiras simplesmente não existiriam.
Caminhos que se abrem
Um dos exemplos apontados no relatório é o Projeto Oásis, desenvolvido no Jardim Itatinga, que oferece atendimento voltado a fortalecer a autonomia de mulheres que enfrentam situações de vulnerabilidade social. São centenas de atendimentos individuais e coletivos, além de mais de 700 encaminhamentos para serviços de saúde, educação, assistência social e segurança pública.
Cada encaminhamento representa uma pessoa que conseguiu acessar um direito muitas vezes distante ou inacessível em sua realidade. São histórias que dificilmente aparecem nas estatísticas oficiais, mas que ajudam a interromper os ciclos de exclusão social.
Outro exemplo é o Empreende Campinas, para moradores dos Amarais, Campo Belo e Novo Flamboyant. O programa oferece apoio a pequenos empreendedores, para que possam estruturar seus negócios e ampliar a sua renda.
Os dados mostram a participação majoritária de mulheres e pessoas negras, exatamente os grupos que costumam enfrentar maiores barreiras para ingressar e permanecer no mercado de trabalho. O programa os ajuda a conquistar autonomia financeira e melhorar as condições de vida de suas famílias.
Em cada território
Talvez uma das mudanças mais significativas esteja na forma como a entidade resolveu atuar. Em vez de apenas financiar projetos, a instituição passou a investir na compreensão profunda de cada território da cidade e das necessidades específicas de cada comunidade.
Nos Amarais, por exemplo, o trabalho envolveu ações de regularização fundiária que permitiram aos moradores obter documentos fundamentais para comprovar residência e acessar direitos.
No Jd. Novo Flamboyant, o foco foi o de fortalecer a participação comunitária, estimulando lideranças locais e mecanismos de governança que permitam aos próprios moradores discutir e encaminhar soluções para os desafios do bairro.
A lógica é simples: transformações duradouras acontecem quando a própria comunidade participa da construção das respostas.
Cidade forte, rede forte
O relatório também ajuda a compreender algo frequentemente ignorado no debate público: o enfrentamento das desigualdades não depende apenas do poder público. Instituições filantrópicas, organizações sociais, empresas, lideranças comunitárias e cidadãos formam uma rede que complementa e fortalece as políticas públicas.
Ao apoiar dezenas de entidades simultaneamente, a FEAC atua como articuladora dessa rede, conectando conhecimento, recursos e estratégias para ampliar o alcance das ações sociais.
Em uma cidade onde quase 139 mil famílias convivem com algum grau de vulnerabilidade, essa articulação deixa de ser apenas uma iniciativa solidária e passa a representar um componente importante da capacidade de Campinas de enfrentar os seus desafios sociais.
Desafio que permanece
Os números apresentados no relatório da entidade são expressivos, mas também revelam a dimensão do desafio. A mesma cidade que concentra universidades de excelência, centros tecnológicos e uma das economias mais robustas do país continua convivendo com profundas desigualdades territoriais e sociais.
"Temos avanços significativos a compartilhar e celebrar, especialmente no que diz respeito aos resultados alcançados nos territórios prioritários de Campinas. O monitoramento sistemático de nossas iniciativas nos permite compreender, com maior precisão, as demandas, potencialidades e desafios de cada região, fortalecendo uma atuação cada vez mais estratégica e conectada à realidade das comunidades”, afirma Lina Pimentel, diretora socioeducativa da Fundação FEAC.
Para ela, o Relatório de Gestão e Impacto 2025 evidencia transformações concretas relacionadas à ampliação de oportunidades e redução de vulnerabilidades sociais. “Esses aprendizados reforçam nosso compromisso com o desenvolvimento social do município e nos orientam a construção de soluções cada vez mais efetivas para o enfrentamento das desigualdades. Os resultados alcançados nos motivam a seguir investindo em iniciativas baseadas em evidências, parcerias qualificadas e impacto social duradouro", completa.