Os anos dourados do kartódromo de Campinas
Quando os mais extraordinários pilotos brasileiros correram aqui
Durante quase duas décadas, um dos sons mais característicos dos fins de semana campineiros não vinha dos bares, dos estádios ou dos parques. Vinha dos motores, diretamente do Kartódromo Municipal Afrânio Ferreira Júnior, instalado ao lado da Lagoa do Taquaral. Um dos principais centros do kartismo paulista entre os anos 1970 e início dos anos 1990.
Ali, gerações de pilotos deram as suas primeiras voltas, disputaram campeonatos e alimentaram sonhos de colecionar prêmios e chegar às grandes categorias do automobilismo. O espaço ajudou a consolidar Campinas como uma referência esportiva além do nosso futebol.
Inaugurado em 1973, o kartódromo surgiu em uma época de expansão da modalidade no país. O kart era visto como a principal escola para a formação de pilotos e uma grande oportunidade para ser descoberto pelas grandes equipes do esporte. Isso incentivou diversas cidades a investir em pistas permanentes.
Campinas não ficou atrás. A localização privilegiada da cidade transformou rapidamente a pista em um polo regional, que recebeu competições oficiais reconhecidas pelas federações esportivas.
Os chamados "anos de ouro" do kartódromo coincidiram justamente com o período em que o Brasil começava a produzir uma geração extraordinária de pilotos, que brilharam nas pistas nacionais e internacionais. E eles passaram pelo traçado campineiro.
O adolescente Ayrton Senna
Entre eles, Ayrton Senna, que, ainda criança, aos 4 anos, ganhou o seu primeiro kart, construído pelo pai, Milton. A diversão de infância passou a ficar mais séria e, aos 9 anos, ele ganhou a sua primeira corrida amistosa no kartódromo de Campinas. O futuro campeão era além de tudo “pé quente” desde pequeno, garantindo a pole position naquela corrida em um sorteio. Adolescente, saía de São Paulo para disputar provas em Campinas.
Também correram lá os pilotos Rubens Barrichello e Felipe Massa, que, posteriormente, conquistaram uma projeção internacional. O Museu Virtual de Campinas registra, inclusive, que Senna competiu diversas vezes naquele espaço e que Massa conquistou ali uma de suas primeiras vitórias importantes.
Sucesso X derrocada
Entretanto, a mesma localização que contribuia para aquele sucesso acabaria se tornando o motivo de sua derrocada. Durante os anos 1980, a urbanização do entorno da Lagoa do Taquaral se intensificou, acolhendo empreendimentos residenciais no entorno da Av. Heitor Penteado. E, consequentemente, aumentaram as reclamações relacionadas ao ruído provocado pelos motores dos karts.
O tom do conflito foi aumentando gradualmente. Em 1992, a Prefeitura decidiu encerrar as corridas e os treinamentos no local devido às recorrentes reclamações dos moradores. A decisão marcou o fim de uma era.
Posteriormente, grupos favoráveis ao automobilismo tentaram convencer, tecnicamente, que as atividades poderiam coexistir com a vizinhança, recorrendo a medições profissionais de ruído no início dos anos 2000. Contudo, o kartódromo jamais voltaria a receber competições oficiais de forma permanente.
Revitalização necessária
A pista foi perdendo a sua função original com o passar do tempo. Durante anos a área permaneceu subutilizada, carregando a memória de um período em que Campinas ocupava um lugar de destaque no kartismo brasileiro.
Na década de 2020, a Prefeitura promoveu uma ampla revitalização do espaço, preservando o traçado básico da antiga pista e adaptando-o para atividades de lazer e esporte voltadas à população em geral.
Atualmente, o antigo kartódromo é um dos mais movimentados espaços esportivos do bairro Taquaral. O local recebeu recapeamento, ciclovia, pista de caminhada, pista infantil de corrida, sanitários acessíveis e um campo de futebol society, sendo rebatizado como Espaço Afrânio Ferreira Júnior.
Mudança de perfil
Onde antes havia boxes, mecânicos e motores acelerando e uma audiência específica voltada ao automobilismo, hoje circulam corredores, ciclistas, crianças em bicicletas e famílias em busca de lazer. O espaço tornou-se ponto de encontro de grupos de corrida e palco de eventos esportivos, caminhadas e atividades recreativas. Os motores silenciaram, mas a vocação esportiva permaneceu.
O piloto profissional de kart, Carlos Marcelino, de 64 anos, afirma que deve muito ao kartódromo campineiro. Atuando hoje como chefe de equipe da scuderia Marcelino, com mais de 30 pilotos, deu o seu depoimento ao Correio da Manhã diretamente do Maranhão, onde acontecia a 2ª etapa do Campeonato Sul Maranhense de Kart 2026. Ele correu na pista da cidade de 1993 a 2008. "Campinas sempre foi um celeiro maravilhoso para pilotos que conquistaram títulos em todo o país e até fora dele", recorda.
O próprio Carlos tem os seus títulos no kart, como da Copa do Brasil de kart, campeão paulista de kart, campeão campineiro, campeão ituano, entre outros. "Devo tudo à escola que tive no kartódromo do Taquaral, que oferecia uma pista muito técnica. Afinal, lá correram Ayrton Senna, Nelson Piquet, Felipe Massa, Rubinho Barrichello... todos os expoentes do automobilismo brasileiro passaram por lá", lembra.
O empresário era tão apaixonado que chegou a ocupar a presidência do Kart Club local. "Tomei conta, eu e mais dois amigos, o Carlos Ferreira e o Dilson de Moraes. A gente levantou uma bandeira quando o espaço estava fechado e conseguimos reabri-lo aos trancos e barrancos. Levamos a situação de 1994 a 2008. Mas um decreto encerrou as atividades".
"Graças a Deus, a gente tem hoje uma pista bem perto, em Paulínia, com toda a infraestrutura. Ficaram as recordações no coração. Foram". Foram os melhores anos da minha vida no kartismo. Um lugar maravilhoso, uma pista sensacional e todo aquele glamour de estar na Lagoa, com toda aquela torcida linda olhando", conclui.