Feac: pontes invisíveis que sustentam vidas

Fundação tece redes silenciosas que conectam vulnerabilidade e oportunidade em Campinas

Por Ana Carolina Martins

Fazenda Vila Brandina doada por Odila e Lafayette de Souza Camargo: onde a Feac nasceu

Entre a concretude da metrópole e as histórias invisíveis que se desenrolam nas periferias, a Fundação Feac construiu, ao longo de mais de seis décadas, uma espécie de ponte silenciosa, daquelas que não aparecem nos mapas, mas que sustentam vidas inteiras.

Criada em 14 de abril de 1964, a partir da doação da Fazenda Vila Brandina pelo casal Odila e Lafayette Álvaro de Souza Camargo, a entidade nasceu em um momento em que Campinas já carregava uma tradição de solidariedade moldada por crises sanitárias e desigualdades profundas, por meio de uma articulação incomum para aquela época, a tentativa de organizar e fortalecer, de forma conjunta, as entidades assistenciais do município.

O modelo, que combina patrimônio próprio, gestão profissional e atuação em rede, ajuda a explicar a longevidade da entidade. Ao longo de mais de seis décadas, a Fundação se consolidou como uma organização independente do terceiro setor, com atuação voltada à promoção humana, assistência social, educação e defesa de direitos, priorizando crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Proposta ousada

Para além de uma entidade tradicional, a Feac se estruturou como uma espécie de “fundo comunitário” avant la lettre, reunindo recursos, conhecimento e estratégia para apoiar outras organizações. A proposta era simples e, ao mesmo tempo, ousada.

Desde então, a Feac se tornou um dos principais pilares do terceiro setor em Campinas, com foco na promoção humana e no enfrentamento das vulnerabilidades sociais, priorizando crianças, adolescentes e suas famílias.

Entretanto, com o passar do tempo, a forma de atuar evoluiu. Se no início o trabalho era mais assistencial, hoje ele é mais estratégico, sistêmico e articulado junto às políticas públicas e redes locais.

Soluções inovadoras

A trajetória da entidade acompanha, quase como um espelho, a própria transformação de Campinas. Quando o município se tornou metrópole, a fundação também precisou se reinventar, uma vez que a assistência social deixou de ser apenas “caridade”, para se tornar política pública. Assim, ela adotou um novo papel, o de parceira, articuladora e indutora de soluções inovadoras.

Esse movimento de recriação se intensificou nos últimos anos. Durante a pandemia, por exemplo, a campanha “Mobiliza Campinas" levou apoio emergencial a milhares de famílias, como alimentos, conectividade e itens básicos, comprovando que, diante da urgência, a estrutura construída ao longo de décadas pode se transformar rapidamente em resposta concreta.

Ecossistema social

Toninho Oliveira/PMC - Apresentação de Capoeira durante Festival Cultural promovido pela Feac

Mais recentemente, a Federação passou a investir ainda mais naquilo que chama de “ecossistema social”, fortalecendo organizações da sociedade civil, melhorando a sua governança e ampliando o impacto coletivo. Em projeto recente, mais de 120 pessoas foram formadas para atuar como dirigentes e conselheiros de entidades, ajudando a sustentar o futuro dessas organizações.

Também estruturou um planejamento estratégico robusto, com metas claras e monitoramento de impacto, destinado a um portfólio que movimenta cerca de R$ 30 milhões por ano em projetos sociais. A lógica é: menos ações isoladas e mais transformações consistentes nos territórios vulneráveis.

Organização em eixos

Atualmente, a sua intervenção se organiza em eixos, como o acesso e inclusão, convivência saudável e inclusão produtiva, termos que, na prática, significam garantir que uma criança tenha escola, uma família tenha renda, um jovem tenha perspectiva de futuro.

Apesar da relevância institucional, a governança da Feac mantém um perfil discreto e coletivo. O atual presidente do Conselho Curador, Renato Nahas, costuma reforçar o caráter histórico da entidade como articuladora da sociedade civil. Em declarações públicas, ele destaca que a origem da fundação é inspirada na própria reação da cidade às suas crises, ou seja, “cuidar de quem cuida” tornou-se, ao longo do tempo, uma síntese do seu papel.

Esse protagonismo se manifesta em diferentes frentes. A Fundação atua em áreas como educação, assistência social, saúde, cultura e inclusão produtiva, com foco territorial, ou seja, priorizando as regiões mais vulneráveis da cidade.

Ao longo dos anos, também participou de iniciativas estruturantes, como programas de educação integral, apoio à adaptação de entidades ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e a criação de espaços de monitoramento e produção de dados, como o Observatório da Educação. 

Capacidade adaptativa

A sua capacidade adaptativa é uma outra forte característica. Em momentos críticos, como o da pandemia de covid-19, a Feac mobilizou rapidamente recursos e parceiros para ações emergenciais. Por meio do programa “Mobiliza Campinas”, apoiou cerca de 20 mil famílias com cartões-alimentação e beneficiou milhares de pessoas oferecendo acesso à internet e itens básicos de proteção.

A comunicação institucional privilegia o coletivo e os resultados em detrimento da personalização em lideranças individuais.

Aos 62 anos, celebrados neste ano, a Feac carrega um paradoxo bonito, ao ser, concomitantemente, uma instituição histórica e um organismo em permanente movimento. Entre relatórios estratégicos e histórias de vida transformadas, sua essência permanece ancorada em algo simples mas poderoso, a ideia de que nenhuma cidade se sustenta sem cuidar dos seus mais vulneráveis.

Há dois anos, a instituição passou por uma reorganização estratégica, reforçando uma atuação ainda mais intersetorial e territorial. A lógica é menos fragmentada e mais sistêmica, enfrentando as vulnerabilidades não apenas com projetos isolados, mas articulando diferentes dimensões da vida, como renda, educação, acesso a serviços e convivência comunitária. É uma visão que entende o bem-estar social como resultado de múltiplos fatores interdependentes.

Protagonismo discreto

Manoel de Brito/PMC - Apresentação durante a abertura do "Territórios em Movimento: Cidade Próspera para Todos", promovido pela Fundação Feac, em outubro de 2025

A trajetória da entidade revela um tipo de protagonismo discreto, porém decisivo. Ao longo de décadas, ela ajudou a estruturar uma rede de proteção social em Campinas que vai muito além de suas próprias ações, influenciando políticas, fortalecendo organizações e ampliando oportunidades para milhares de pessoas. Não se trata apenas de assistência, mas de construção contínua de cidadania.

E talvez seja esse o seu maior legado, o de não apenas distribuir recursos como também tecer redes invisíveis aos olhos apressados que sustentam o que há de mais essencial, a possibilidade de construir o futuro.