Egas: arte em estado intenso e visceral
Autodidata, artista plástico de Campinas deixa um legado de obras inquietantes e avassaladoras
Há artistas que constroem obras. E há aqueles que parecem ser construídos por ela lentamente, atravessados pela tinta, pelo gesto e por uma inquietação que nunca cessa. Egas Francisco é, ao mesmo tempo, um artista local e universal.
Talvez, por isso, seja descrito como um artista “mais reconhecido fora do Brasil do que dentro dele”. Contudo, há algo que nenhuma geografia mede: a intensidade. Egas não pinta para agradar. Pinta para existir. E, nesse gesto contínuo, constrói uma obra que não se encerra, permanece aberta, inquieta, viva, como o próprio artista.
Nas origens
Nascido em 1939, na capital paulista, Egas Francisco Sampaio de Souza chegou ainda menino a Campinas, cidade que o acolheu aos 7 anos e que, desde então, tornou-se, além de seu endereço, também a sua inspiração e material criativo.
Filho de uma artista plástica, cresceu entre referências visuais e livros de arte, muitos deles folheados com a reverência de quem descobre e interpreta o mundo pelas imagens. Ainda criança, copiava mestres como Rembrandt e Düre. Entretanto, não se tratavam de meras imitações, mas de uma forma de diálogo silencioso com a tradição das artes plásticas.
Autodidata por vocação, Egas jamais se acomodou ou se enquadrou em escolas ou rótulos. Sua formação foi, antes de tudo, visceral e moldada pela observação, pela leitura e por uma inquietação permanente diante da existência.
Campinas como território criativo
Embora nascido em São Paulo, foi em Campinas que Egas ‘floresceu’, tornando-se um artista incrível e que também formava artistas. Na década de 1960, lecionou educação artística no Instituto D. Nery e, no histórico Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA), dirigiu o departamento de pintura.
Mais tarde, Egas ampliaria esse papel pedagógico com a oferta de cursos, como o de Introdução à Arte Contemporânea, no Senac (1979) e Os Pintores Malditos, ministrado no Museu de Arte Contemporânea de Campinas(Macc), em 1981.
Campinas era mais que um cenário para o artista. Era também interlocutora. Uma urbe que, com as suas limitações e potências culturais, foi revelada por ele de forma crítica e afetiva em seu discurso, revelando o seu reconhecimento ao que recebeu dela, mas também pelo que lhe faltou em termos de projeção nacional.
Expressionismo inquieto
A pintura de Egas Francisco não pede licença, ela se impõe. Marcada por cores densas, figuras distorcidas e gestos largos, sua obra dialoga com o expressionismo, mas sem jamais se submeter a ele. É uma pintura de tensão: corpos que parecem em transformação, rostos que carregam inquietações, cenas que transitam entre o humano e o simbólico.
Há em seus quadros uma espécie de teatro interior, povoado por personagens marginais, referências literárias, religiosas e culturais. Prostitutas, poetas malditos, figuras bíblicas e ícones da cultura convivem em uma mesma atmosfera carregada de dramaticidade.
O próprio artista definia o seu impulso criativo de forma quase confessional: pintava movido pela ansiedade, por uma necessidade interna que o atravessa.
Primeiras exposições
A estreia de Egas ocorreu em 1960, na Livraria Macunaíma, em São Paulo. Um início modesto, mas acompanhado por nomes relevantes do meio cultural. Nos anos seguintes, consolida a sua presença em importantes circuitos brasileiros: Salvador (1963), União Cultural Brasil–Estados Unidos; Rio de Janeiro (1964), Petite Galerie; Campinas (1971), Galeria Girassol; São Paulo (1975), Museu de Arte de São Paulo.
Participa também de salões e coletivas de peso, como o Salão de Arte Contemporânea de Campinas e eventos ligados à cena moderna paulistana. Nesta época, já se afirmava como uma voz única, difícil de enquadrar mas impossível de se ignorar.
Europa como espelho
A partir dos anos 1980, a carreira de Egas ganha dimensão internacional. Curiosamente, é fora do Brasil que sua obra encontra maior reconhecimento crítico. Ele participa da Bienal de Udine, na Itália (1988), e realiza uma série de exposições individuais e coletivas em cidades como: Milão, Stuttgart, Frankfurt, Amsterdã, Gênova, Bérgamo, entre outras.
Suas obras passam a integrar acervos de instituições europeias, como o Museu de Arte de Murcia, na Espanha, e coleções em Madri e Granada. Sua pintura intensa, dramática, existencial dialoga com tradições expressionistas e encontra eco em um público mais acostumado a esse tipo de linguagem.
Exposições e presença contínua
Mesmo circulando internacionalmente, Egas nunca abandonou Campinas. Ao contrário, manteve uma relação constante com a cidade, seja mediante exposições institucionais, seja por experiências mais íntimas. Sua pintura, ao mesmo tempo sensível e rigorosa, contribui para a construção de uma memória visual da atual metrópole, registrando suas transformações com delicadeza e profundidade. Egas representa uma linhagem de artistas que, a partir de onde vivem, estabelecem diálogos amplos com a história da arte brasileira.
Entre os destaques estão: “Monstro de Gelo”, mostra individual com 45 telas no MACC, em 2013, reunindo obras com forte carga simbólica e técnica densa; exposição no Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT-15ª), em 2019, com cerca de 170 obras relacionadas ao projeto Palimpsesto Mágico, fruto de sessões terapêuticas; participação em coletivas e eventos culturais locais, incluindo palestras na Academia Campineira de Letras e Artes (ACLA).
Artista em estado permanente
Com mais de 80 anos, Egas Francisco segue pintando, cercado por centenas de obras, discos de vinil, livros e cadernos com escritos inéditos. Seu processo continua intenso, quase ritualístico: pintar é entrar em transe, atravessar a tela e ser atravessado por ela.
Há algo inacabado em sua trajetória. Não por falta, mas por excesso. Excesso de inquietação, de dúvida, de desejo de continuar.
Novo projeto para 2026
Mas eis que surge um novo projeto envolvendo o artista plástico: um livro-arte dedicado à sua trajetória. A publicação vai registrar, valorizar e difundir o legado do artista, reunindo imagens emblemáticas de suas obras, além de relatos, memórias e reflexões sobre a sua vida e seu processo criativo.
A equipe à frente do projeto tem como curador o próprio Egas, enquanto a coordenadoria geral está aos cuidados da jornalista Renata Podolsky. Nesta etapa, estão sendo oferecidas cotas de patrocínios e contrapartidas para a publicação.
O lançamento da obra está estimado para dezembro deste ano. Quem quiser patrocinar a publicação, pode entrar em contato com a Renata, pelo telefone: (19) 99905-8882.