Quando a Imprensa Fluminense salvou centenas em Campinas
Mobilização liderada pelos jornais fluminenses foi decisiva durante epidemia de 1889
Houve um tempo em que, no Centro da hoje metrópole, pulsava entre os seus jardins e caminhos sinuosos a promessa de uma cidade que aprendia como poderia se transformar, crescer e se desenvolver. No final do século XIX, entre 1876 e 1882, surgia o Passeio Público, um espaço pensado para o lazer, para civilizar hábitos, promover a convivência e, sobretudo, responder a uma preocupação crescente em relação à saúde urbana daquela época.
Assim, inspirado em modelos europeus e na capital do país na época, o Rio de Janeiro, o local representava uma ideia moderna de urbe organizada, arejada e aberta ao encontro entre as pessoas. Entretanto, foi a ocorrência de uma tragédia que acabou redefinindo o seu destino e o seu nome.
Epidemia violenta
Em 1889, Campinas foi assolada por uma violenta epidemia de febre amarela. E o município praticamente parou. Os serviços entraram em colapso, e o medo se espalhou na mesma velocidade com a qual o mosquito fazia as suas vítimas.
Com uma população estimada entre 15 mil a 20 mil habitantes, a cidade viu cerca de 75% dos moradores deixarem o local, com a população urbana caindo para menos de 4 mil ou 6 mil pessoas, segundo diferentes estimativas. O surto paralisou a economia cafeeira, marcando profundamente a cidade, que adotou uma fênix - símbolo de renascimento - em seu brasão
Foi nesse cenário de abandono e desespero que chegou uma importante ajuda de fora, mais precisamente da então capital. A imprensa carioca mobilizou uma rede de solidariedade que ultrapassou as páginas dos jornais da época.
Solidariedade e força
Inúmeras e cruciais campanhas foram engendradas pela Imprensa Fluminense em favor de Campinas, envolvendo, principalmente, suporte médico e recursos materiais, dada a gravidade da situação em que a cidade mergulhou sem médicos e com alta mortalidade, refletindo a solidariedade dos cariocas e fluminenses que também sofriam com a doença.
A ajuda oficial e não oficial incluiu comissões médicas compostas por doutores, farmacêuticos e desinfectadores para combater a doença, e enviados medicamentos, roupas e materiais necessários para a desinfecção e tratamento dos doentes. Em um momento em que o poder público campinense se mostrava insuficiente, foram os jornais que ajudaram a dar voz, urgência e resposta à crise.
Justo reconhecimento
O gesto de solidariedade do estado do Rio de Janeiro não foi esquecido. Ainda naquele ano, em 19 de agosto de 1889, a Câmara Municipal decidiu renomear o Passeio Público como Praça Imprensa Fluminense. Mais que uma homenagem, a ideia foi a de reconhecer a força da "imprensa” que salvou muitas vidas. O nome da praça atravessa gerações, carregando até os dias de hoje essa memória de irmandade e da força da comunicação.
Nas décadas seguintes, a praça consolidou-se como um dos principais espaços de convivência da urbe. Fotografias antigas revelam um cenário de alamedas bem cuidadas, lagos, grutas e famílias passeando.
Era ali que Campinas se encontrava, em tardes tranquilas, encontros sociais e no cotidiano que se desenrolava ao ar livre. Em 1940, a instalação de um parque infantil reforçou ainda mais esse papel, aproximando gerações e transformando o local em referência de lazer e formação.
Entretanto, assim como a própria cidade, a praça também precisou se reinventar. A partir dos anos 1960, Campinas enfrentou uma lacuna cultural importante a partir da demolição do antigo Teatro Municipal Carlos Gomes. A ausência de um grande espaço para espetáculos exigia uma resposta à altura. E ela veio justamente ali, no terreno carregado de história.
Nasce o “Convivência”
Nascia, assim, o projeto do Centro de Convivência Cultural, concebido pelo arquiteto Fábio Penteado. As obras começaram em 1967, atravessaram várias interrupções e culminaram na sua inauguração, em 1976, de um dos mais emblemáticos complexos culturais do interior paulista.
O novo equipamento transformou profundamente a dinâmica da praça. O teatro de arena, a sala interna de espetáculos e os espaços de exposição impuseram uma outra vocação ao local: a de palco da arte, da música, do teatro e da vida cultural campineira.
Aos poucos, o nome ‘Centro de Convivência’ passou a se sobrepor ao da praça, ainda que ele nunca tenha deixado de existir, resistindo como um lembrete silencioso de suas origens. Ao longo das décadas, o espaço passou por intervenções, reformas e também períodos de abandono. No início dos anos 2000, uma reurbanização redesenhou o seu entorno.
Renovado e entregue novamente à população, o lugar se mantém como um dos marcos mais simbólicos da metrópole pela sua arquitetura, localização, mas, principalmente pelo que representa.
Registro vivo
Talvez pouca gente que cruza a praça diariamente saiba o motivo do nome da praça e a história de amparo e compaixão envolvendo a imprensa fluminense que resultou em uma mobilização coletiva.
Mais do que um espaço físico, a Praça Imprensa Fluminense é um registro vivo de como a sociedade pode se organizar diante de crises e tragédia, e de como a memória pode ser incorporada à paisagem urbana.
Entre o jardim do século XIX e o centro cultural do século XX, permanece, ali,m um território de encontros. Um lugar onde Campinas, em diferentes épocas, aprendeu a conviver com seus desafios, suas perdas e suas reinvenções.