O legado que revolucionou os paradigmas da saúde da mulher
Hospital da Unicamp redefiniu os parâmetros do atendimento a 'elas' no país
Poucas decisões institucionais tomadas em Campinas tiveram um impacto tão profundo e duradouro na saúde pública brasileira quanto a criação do Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti, o Caism. A unidade da Universidade Estadual de Campinas é voltada, exclusivamente, à atenção integral à saúde da mulher e do recém-nascido.
Inaugurado em março de 1986, o centro nasceu com uma proposta ousada para a época, a de oferecer assistência altamente especializada, integrando concomitantemente às atividades de ensino, pesquisa e políticas públicas de saúde.
Mais do que apenas um hospital, o Caism representou uma mudança de paradigma em relação ao que existia enquanto referência de assistência à mulher no âmbito dos serviços públicos de saúde brasileiros, que eram predominantemente centrados na gravidez e no parto.
Ampliação de horizontes
A ideia defendida por professores da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, especialmente do Departamento de Tocoginecologia, era a de ampliar esse horizonte, de modo a tratar a saúde feminina de maneira integral, considerando-se as dimensões preventivas, clínicas, sociais e psicológicas ao longo de toda a sua vida.
Esse conceito dialogava diretamente com as discussões que, nos anos 1980, ganhavam força no Brasil sobre a estruturação de políticas de saúde voltadas às mulheres. O projeto do hospital foi inspirado pelo Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (Paism), política pública que buscava romper a perspectiva restrita da mulher apenas enquanto mãe e paciente obstétrica.
Consolidação
A criação do centro na universidade consolidou uma nova abordagem dentro de um hospital universitário capaz de produzir conhecimento, formar especialistas e oferecer atendimento de alta complexidade. A liderança do projeto esteve nas mãos do médico ginecologista e professor José Aristodemo Pinotti, figura central na história da medicina brasileira e da própria universidade, assumindo o cargo de diretor-executivo do Caism, nos anos de 1985 e 1986.
Ex-reitor da Unicamp e um dos mais influentes especialistas em saúde da mulher do país na época, sob a sua gestão inicial o Caism ganhou o seu espaço como centro de referência que unia ainda a assistência hospitalar, pesquisa clínica e formação de profissionais, tornando-se modelo para outras instituições brasileiras. Décadas depois, seu nome seria incorporado oficialmente à denominação do hospital, em reconhecimento ao papel fundador que exerceu na concepção do projeto.
Caráter público
Desde a origem, o hospital foi estruturado para funcionar exclusivamente dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Esse caráter público e universal consolidou a sua função social de oferecer atendimento de alta complexidade a mulheres que, em muitos casos, não teriam condições de acesso a esse tipo de assistência em outros serviços.
Atualmente, o Caism atende pacientes procedentes de cerca de 42 municípios da macrorregião de Campinas, uma área que reúne aproximadamente cinco milhões de habitantes. A dimensão do atendimento ajuda a entender a sua relevância. O hospital realiza cerca de 250 partos por mês e 7 mil consultas ambulatoriais mensais, além de milhares de procedimentos diagnósticos e terapêuticos.
Ao longo de sua história, mais de 1,5 milhão de pacientes passaram pela instituição, cuja estrutura dispõe de cerca de 130 a 140 leitos distribuídos entre áreas como a obstetrícia, neonatologia, ginecologia, oncologia ginecológica e mastologia.
Referência nacional
No entanto, a importância do Caism não se resume a números. O hospital se tornou referência nacional nas áreas de tratamento de câncer ginecológico e de mama, medicina fetal, neonatologia e reprodução humana. Programas pioneiros, como os serviços especializados de fertilização assistida e de medicina fetal, alçaram a instituição à uma posição de vanguarda na área da assistência hospitalar brasileira.
Outra área onde o Caism desempenhou papel inovador foi no atendimento a mulheres vítimas de violência sexual. Desde a sua fundação, a instituição mantém um serviço especializado para acolher essas pacientes, proporcionando um atendimento médico, psicológico e social específico, além de procedimentos previstos em lei, como a interrupção legal da gravidez em casos autorizados. Um modelo de atendimento multidisciplinar que se tornou referência para a implantação de serviços semelhantes em outras regiões do Brasil.
A maternidade do hospital se consolidou como uma das mais importantes referências para gestações de alto risco no Estado de São Paulo. Casos complexos, envolvendo doenças maternas ou fetais, malformações e complicações graves, encontram, no centro de atendimento, um ambiente altamente especializado, com a integração das especialidades de obstetrícia, neonatologia e medicina fetal.
Exemplo para o país
Quase quatro décadas após a sua inauguração, o Caism permanece como uma das estruturas mais emblemáticas do complexo de saúde da Unicamp. Contudo, a instituição segue enfrentando desafios comuns aos grandes hospitais públicos brasileiros, como limitações de infraestrutura e a crescente demanda regional.
Para o atual superintendente do Caism, o prof. dr. João Renato Bennini Júnior, o hospital consolidou-se enquanto patrimônio científico e social e tornou-se exemplo para o país de como uma iniciativa bem idealizada pode se transformar em um enorme avanço na forma de se tratar e cuidar integralmente da saúde da mulher.
“Ao longo destes 40 anos, o Caism se consolidou como um centro de referência em assistência, ensino e pesquisa em saúde da mulher e do recém-nascido, com atuação regional, nacional e internacional. Isso graças a um ensino bem estruturado, que contribui para a excelência no atendimento à população, visto que a formação de profissionais mais preparados impactam qualitativamente o serviço prestado”, afirma Bennini.
Outro ponto importante destacado por ele é o fato de a instituição de saúde ser também um campo de estágio para diferentes cursos, de várias áreas e níveis de formação como graduação, pós-graduação, residência e especialização.
“Isso também é um diferencial importante do hospital. A pesquisa qualificada contribui para fortalecer o ensino e melhorar a assistência, porque traz novos conhecimentos. Além disso, muitas políticas públicas de saúde da mulher e do recém-nascido surgiram a partir de projetos de pesquisa ou de iniciativas que foram desenvolvidas dentro do hospital”, complementa.
A história deste importante Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher comprova como uma decisão institucional, tomada em um momento em que a saúde feminina ainda era tratada de forma fragmentada no país, consegue redefinir práticas médicas e inspirar novos modelos de atendimento.