Uma nova licitação para um antigo desafio

Por Ana Carolina Martins

Os números divulgados nesta semana sobre o transporte público de Campinas reforçam uma constatação antiga dos usuários: a problemática que envolve o sistema de ônibus na cidade não é episódica e sim estrutural.

Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que as empresas responsáveis pelo transporte coletivo no município acumulam R$ 2,2 milhões em multas contratuais pendentes desde 2021, relativas a 53 infrações aplicadas entre 2021 e 2025. As penalidades somam mais de R$ 3 milhões, sendo que menos de um terço delas foi, efetivamente, pago. O valor, isoladamente, pode parecer pequeno frente ao tamanho do sistema da nossa metrópole campineira. Entretanto, ele evidencia algo bem mais significativo: falhas recorrentes no cumprimento de obrigações contratuais e dificuldades históricas de fiscalização e cobrança.

Não por acaso, levantamentos anteriores mostram um volume muito maior de penalidades aplicadas ao longo dos últimos anos, resultado de milhares de autuações por irregularidades na operação do transporte coletivo. A divulgação desses dados ocorre justamente em um momento decisivo para a mobilidade urbana da cidade. O município acaba de concluir a nova licitação do transporte público para selecionar as empresas responsáveis pelo sistema pelos próximos 15 anos, com a possibilidade de prorrogação. O leilão definiu a operação dividida em dois lotes, o Norte, que ficará com o Consórcio Grande Campinas, e o Sul, operado pela Sancetur. A mudança promete renovar o modelo e substituir as atuais concessionárias. Ainda que no papel, trata-se de uma investida para reorganizar um sistema que há anos convive com reclamações de usuários sobre atrasos, intervalos irregulares, superlotação e oferta insuficiente de linhas.

A experiência recente, porém, recomenda cautela. Campinas já atravessou diferentes contratos e promessas de reestruturação sem que a percepção da população sobre a qualidade do transporte melhorasse de forma consistente. 

As multas pendentes são o aspecto mais visível de um problema mais amplo: a dificuldade de garantir que os contratos sejam cumpridos e o serviço entregue à altura da tarifa paga pelo usuário.

A nova licitação pode representar uma oportunidade real de mudança. Porém, dependerá menos da troca de empresas e mais da capacidade do poder público de fiscalizar com rigor, cobrar resultados e manter transparência na gestão do sistema. Sem isso, Campinas corre o risco de repetir um roteiro já conhecido: novos contratos, novas promessas… E os mesmos velhos problemas para quem depende do ônibus todos os dias.