Unicamp, 60 anos de ciência e poder intelectual

Dotada de vocação estratégica, a universidade tornou-se referência continental em pesquisa, inovação e formação de excelência

Por Ana Carolina Martins

Imagem capturada por drone da cidade universitária da Universidade Estadual de Campinas, em Barão Geraldo: instituição administra o seu orçamento com relativa independência, o que contribuiu para o planejamento de longo prazo e estabilidade

Falar sobre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) é, de certo modo, discorrer sobre a trajetória recente da ciência brasileira fora do tradicional eixo Rio de Janeiro - São Paulo (capital). Que o diga o atual reitor da instituição, o prof. Paulo Cesar Montagner: “A Unicamp está entre as melhores universidades não apenas do Brasil, mas também da América Latina. É um feito notável para uma instituição tão jovem, que completará apenas 60 anos de existência este ano em outubro.”

Segundo ele, o que levou a universidade a esta posição de destaque foram os investimentos realizados desde os anos iniciais, a contratação de bons professores e a construção de uma sólida infraestrutura laboratorial, com impactos visíveis no ensino de graduação e pós-graduação, nos programas de pesquisa e inovação, na extensão universitária e na assistência à saúde.

“A Unicamp desempenha hoje papel fundamental para o desenvolvimento do Estado de São Paulo e do país, mediante a formação de profissionais preparados para atuar no mercado de trabalho contemporâneo, produção de conhecimento voltado ao enfrentamento dos grandes desafios da atualidade e da formulação de políticas públicas que beneficiem o conjunto da sociedade", afirma Montagner.

Nascida oficialmente em 1966, em pleno regime militar, a instituição de ensino universitário foi concebida enquanto projeto estratégico de desenvolvimento. O seu idealizador e primeiro reitor, o médico e professor Zeferino Vaz, tinha uma visão clara sobre a criação de uma instituição que fosse estruturada a partir de institutos e faculdades fortemente voltados à pesquisa e foco em áreas consideradas decisivas para o avanço tecnológico do Brasil.

Proposta ousada

A proposta era ousada. Formar quadros altamente qualificados, produzir ciência de ponta e dialogar com o setor produtivo, algo que, na década de 1960, ainda engatinhava no País. Ao longo das décadas de 1970 e 1980, a universidade consolidou áreas estratégicas, entre elas engenharia, física, química, matemática e medicina, além de se destacar rapidamente nas ciências humanas e nas artes.

Embora responda por uma parcela relativamente pequena do total de matrículas universitárias do país, a instituição tem um peso desproporcional na produção científica brasileira. Estudos bibliométricos reiteradamente apontam que a Unicamp está entre as instituições que mais publicam artigos científicos no Brasil e América Latina, registrando uma alta taxa de citações e menções internacionais.

Em seus programas de pós-graduação, apresenta índices de excelência reconhecidos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), uma fundação do Ministério da Educação (MEC) que regula, avalia e fomenta a pós-graduação stricto sensu no território nacional.

A formação de mestres e doutores na Unicamp também se destaca como um dos motores silenciosos de sua influência, visto que boa parte dos pesquisadores que atuam em universidades federais, estaduais e centros privados de pesquisa pelo país passaram por seus laboratórios.

Vocação em inovação

A vocação para a inovação também se traduz em expressivos números de patentes depositadas e licenciadas, colocando a Unicamp, frequentemente, entre as universidades brasileiras que mais registram patentes junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), ajudando a construir uma cultura institucional voltada à transformação do conhecimento em tecnologia aplicável, em realidade.

Seu ecossistema de inovação dialoga diretamente com o polo tecnológico da metrópole campineira, que abriga inúmeros centros de pesquisa de excelência e o desenvolvimento de grandes empresas nacionais e multinacionais.

Contudo, a potência da instituição não pode ser medida apenas em gráficos e rankings. Ela se manifesta na diversidade de suas áreas, que vão da física de partículas às artes cênicas; da biotecnologia às políticas públicas; da inteligência artificial aos estudos literários.

Formação de excelência

No campo da saúde, a instituição estadual estruturou um complexo que articula ensino, pesquisa e atendimento à população. O Hospital de Clínicas — que merece e terá uma reportagem especial própria contemplando a sua dimensão e impacto — integra esse sistema e é referência em procedimentos de alta complexidade, formação médica e desenvolvimento de protocolos clínicos.

A autonomia universitária, garantida pela Constituição de 1988 e regulamentada no Estado de São Paulo, permitiu à Unicamp administrar o seu orçamento com relativa independência, o que contribuiu para o planejamento de longo prazo e estabilidade institucional.

Políticas afirmativas

Outra característica marcante é o movimento de ampliação do acesso à universidade. Nos últimos anos, políticas de ação afirmativa e sistemas de cotas raciais e sociais alteraram o perfil do estudante que entra pelas portas do vestibular, tornando-o mais diverso e representativo da sociedade brasileira
Em quase seis décadas de história, a Unicamp se transformou em uma instituição estratégica para o país.

Seu impacto ultrapassa os muros do campus e se encontra nas nas empresas incubadas, nas pesquisas que embasam políticas públicas, nas descobertas científicas que dialogam com redes internacionais, nos profissionais formados que ocupam posições-chave na indústria, na academia e na gestão pública.

Campinas cresceu com a universidade. E a universidade cresceu com Campinas.