Cemitério da Saudade: as vozes que não silenciam

Um passeio pelas memórias, tragédias e devoções campineiras

Por Ana Carolina Martins

Poucos lugares de Campinas concentram tantos relatos, memórias e contradições como o Cemitério da Saudade

Poucos lugares de Campinas concentram tantos relatos, memórias e contradições como o Cemitério da Saudade. À primeira vista, ele até pode parecer apenas um espaço silencioso e dedicado à despedida. Entretanto, basta atravessar os seus portões para perceber que ali estão guardados capítulos inteiros da história da cidade, do ciclo do café, das grandes epidemias, das famílias tradicionais e dos personagens anônimos que ganharam fama póstuma por suas trajetórias marcadas por tragédias, fé e mistério.

Inaugurado oficialmente no ano de 1880, em uma época em que o município experimentava um intenso crescimento urbano e econômico, o Cemitério da Saudade foi pensado e planejado para equacionar uma grave questão sanitária: os antigos locais de descanso eterno em igrejas e pequenos cemitérios paroquiais já não comportavam os mortos, especialmente após as sucessivas epidemias de febre amarela, que devastaram a população do município no fim do século XIX.

Inicialmente conhecido como “Cemitério do Fundão”, somente receberia o atual nome décadas depois, em 1924. Aliás, um nome que, curiosamente, ajudou a moldar a aura afetiva e simbólica do lugar. Com uma área que ultrapassa 180 mil metros quadrados, distribuída em mais de uma centena de quadras, o Cemitério da Saudade abriga dezenas de milhares de sepulturas e um dos maiores acervos de arte funerária do interior paulista.

Mausoléus e esculturas

 

Firmino Piton/PMC - Arte tumular se destaca no Cemitério da Saudade de Campinas

Mausoléus monumentais, esculturas em mármore Carrara, bronze e granito, capelas ornamentadas e anjos esculpidos com delicadeza revelam o gosto estético das elites do passado. Foi justamente por esse valor histórico, artístico e urbanístico, que o cemitério foi tombado como patrimônio cultural do município em 2003.

Entre os seus “hóspedes” estão personagens fundamentais da história campineira. Políticos, empresários, intelectuais e figuras públicas que ajudaram a construir a cidade repousam em túmulos que, ainda hoje, recebem visitas. 

Um dos mais conhecidos é o de Francisco Glicério, figura central da política republicana brasileira, cujo nome batiza ruas e avenidas de Campinas. Outro importante é o monumento dedicado aos combatentes da Revolução Constitucionalista de 1932, espaço de memória coletiva que relembra um dos episódios mais marcantes da história paulista, com inscrições e elementos simbólicos que evocam civismo e sacrifício.

Histórias populares

Contudo, é no campo das histórias populares que o Cemitério da Saudade ganha contornos quase literários. Algumas sepulturas se tornaram destinos de peregrinação. Não por status social, mas pelas narrativas trágicas que cercam os seus ocupantes. Suas histórias são transmitidas oralmente, geração após geração e misturam fatos documentados, emoção e crença.

Um dos túmulos mais visitados e comentados é o de Maria Jandira. Sua história é uma das mais conhecidas e trágicas do cemitério. A jovem, rejeitada pela família depois de engravidar fora do casamento, teria vivido um amor marcado por abandono e vergonha social.

Segundo os relatos mais difundidos, ela morreu de forma trágica, com o corpo incendiado, em circunstâncias que nunca foram completamente esclarecidas. O impacto de sua morte foi tão grande naquela época, que, com o tempo, a sua sepultura passou a ser associada a pedidos voltados a relacionamentos, reconciliações e dores amorosas.

Um detalhe sobre as visitas chama a atenção: aqueles que vão ao túmulo homenageá-la costumam deixar flores, mas evitam acender velas, supostamente devido à maneira como ela morreu.

Escravo do boi falô

Outro personagem envolto em lenda é o Toninho, conhecido como o “escravo do boi falô”. Conta a tradição oral que Toninho, homem escravizado em uma fazenda da região, teria ouvido um boi falar com ele em uma Sexta-feira Santa, pedindo que nenhum trabalho fosse realizado naquele dia por ser sagrado.

Toninho teria transmitido o aviso ao capataz, mas não foi levado a sério. Como castigo, foi violentamente punido e acabou morrendo. Após sua morte, episódios considerados inexplicáveis teriam ocorrido na fazenda, reforçando a crença de que Toninho dizia a verdade. Seu túmulo tornou-se ponto de grande visitação, especialmente de pessoas que buscam justiça, proteção e alívio de sofrimentos.

Três anjinhos

Também há os túmulos conhecidos como o dos “Três Anjinhos” que foram três crianças que morreram em um incêndio, uma tragédia que comoveu a cidade. As esculturas angelicais que marcam o local chamam a atenção pela delicadeza e simbolismo, e o túmulo passou a ser associado a pedidos de proteção para crianças e famílias.

Não faltam também relatos de visitantes que afirmam ter vivido experiências estranhas: sensações de frio repentino, impressão de ouvir vozes, mudanças bruscas de atmosfera em determinadas quadras… Não há registros oficiais ou científicos, mas os relatos fazem parte do imaginário coletivo e costumam surgir, especialmente, durante visitas noturnas ou passeios guiados.

E é justamente por reconhecer o valor histórico e cultural do local que a Prefeitura de Campinas, por meio da Setec, passou a incentivar visitas monitoradas ao cemitério. O passeio conhecido como “Saudade e Suas Vozes” conduz grupos por túmulos de personalidades históricas, obras de arte tumular e sepulturas envoltas em lendas, sempre com acompanhamento de guias e historiadores. O objetivo é apresentar o espaço como um patrimônio vivo, promovendo educação histórica e valorização cultural.