Menos famílias acolhedoras, mais crianças em abrigos

Queda no número de famílias limita alcance do Família Acolhedora em Campinas

Por Raphaela Cordeiro

Projeto tem capacidade para 40 famílias, mas conta com apenas 24 cadastradas atualmente

Por Raphaela Cordeiro

Responsável por oferecer um ambiente familiar temporário a crianças e adolescentes afastados de seus lares por situações de abandono ou violação de direitos, o Programa Família Acolhedora enfrenta um desafio em Campinas: a redução no número de famílias participantes ao longo dos anos. Atualmente, o serviço opera cerca de 40% abaixo de sua capacidade máxima, que comportaria até 40 famílias acolhedoras. Hoje, o município conta com 24 famílias cadastradas, responsáveis por acolher 17 crianças, enquanto 455 crianças e adolescentes vivem em acolhimento institucional. A capacidade total dos abrigos é de 500 vagas.

O serviço é executado por meio do SAPECA, ligado à Secretaria Municipal de Assistência Social e Segurança Alimentar, e do ConViver, vinculado à ONG Associação de Educação do Homem de Amanhã (AEDHA). Por meio do acolhimento familiar, crianças e adolescentes de até 18 anos passam a viver temporariamente com famílias voluntárias, enquanto equipes técnicas trabalham para viabilizar o retorno à família de origem, à família extensa ou, em último caso, o encaminhamento para adoção. Em Campinas, há prioridade para crianças de 0 a 3 anos, seguindo orientações nacionais e internacionais que apontam o ambiente familiar como o mais adequado nos primeiros anos de vida.

Alternativas

O Programa Família Acolhedora é uma das principais estratégias de proteção social do município para crianças e adolescentes afastados de suas famílias por situações de violação de direitos. Segundo a secretária municipal de Desenvolvimento e Assistência Social de Campinas, Vandecleya Moro, "o serviço do Programa Família Acolhedora é uma alternativa ao acolhimento institucional, destinada a garantir que crianças e adolescentes permaneçam, de forma temporária, em ambiente familiar, seguro e afetuoso".

O atendimento contempla crianças e adolescentes de até 18 anos, com prioridade para a primeira infância. "Atendemos crianças e adolescentes de 0 a 18 anos incompletos, com prioridade de 0 a 6 anos, em consonância com o Plano da Primeira Infância Campineira", explica.

O acolhimento tem caráter provisório e pode durar até 18 meses. "Durante esse período, a equipe técnica acompanha de perto a criança e a família acolhedora, atuando junto à rede de proteção para que o desfecho seja o mais adequado, de preferência a reintegração à família de origem ou, quando indicado, o encaminhamento para adoção", afirma Vandecleya.

Atualmente, os dois serviços que executam o programa em Campinas somam 24 famílias cadastradas e 17 crianças acolhidas. Apesar de um leve crescimento nos últimos anos, o número ainda está distante da capacidade ideal. "Apesar do avanço, o programa ainda opera cerca de 40% abaixo do potencial, que é de 40 famílias", destaca a secretária.

Acompanhamento

Além de garantir proteção imediata, o acolhimento familiar tem impacto direto no desenvolvimento das crianças. De acordo com orientações nacionais e internacionais da área da infância, a convivência em ambiente familiar, ainda que temporária, favorece a criação de vínculos afetivos, a segurança emocional e o desenvolvimento saudável, especialmente nos primeiros anos de vida. Por isso, em Campinas, o programa prioriza bebês e crianças pequenas, evitando que permaneçam longos períodos em instituições.

Para participar do programa, as famílias passam por capacitação e por avaliações psicológicas e socioassistenciais. "A família manifesta interesse, passa por capacitação e por avaliações que verificam condições e disponibilidade para manter a rotina da criança ou adolescente", explica Vandecleya.

Após a habilitação, o acompanhamento é contínuo. "A família é acompanhada tecnicamente durante todo o período, com visitas e orientações, mantendo-se claro que não substitui a família biológica e não participa de eventual processo de adoção."

Além do suporte técnico, há uma ajuda de custo mensal para cobrir despesas da criança acolhida, reforçando, no entanto, o caráter voluntário do serviço. A Prefeitura informou ainda que realiza campanhas periódicas para divulgar o programa e captar novas famílias.

"Amar e deixar ir"

Há oito anos no programa, a estudante de psicologia Majory Vieira Santa Maria, junto do marido Miguel, é uma das famílias acolhedoras que transformam a realidade de crianças em situação de vulnerabilidade. "Eu vi uma reportagem sobre a Família Acolhedora na TV há muitos anos. Na época meus três filhos eram pequenos e guardei esse desejo no coração. Quando cresceram, realizei meu sonho. Amo cuidar, maternar. Nunca tive receio, porque entendi que era amar e deixar ir."

Desde que ingressou no projeto, Majory e sua família já passaram por 15 acolhimentos. " Hoje estamos acolhendo dois bebês. O tempo varia muito: o mais rápido foi de 40 dias e o mais longo de um ano e meio", explica. Ela conta que a rotina é intensa e repleta de afeto. "O dia a dia é como o de qualquer família com filhos, mas como nosso tempo com eles é limitado, tudo é mais intenso: muito amor, muito colo, muita escuta, muito cuidado. Nossa rotina se adapta às necessidades deles."

Para ela, um dos momentos mais delicados do acolhimento é a despedida, mas, que a maior recompensa está na convivência diária. "Nosso maior desafio é o momento da transferência de cuidados. Quando acontece de maneira respeitosa para a criança, para nós é a melhor sensação possível de dever cumprido. Sentimos saudade, sim, mas o coração fica muito grato. Cada segundo vivido com eles vale a pena. Cada lágrima de saudade na despedida não chega nem perto da felicidade da convivência, da sensação de que aquela criança aprendeu a receber e dar amor e vai levar isso para sempre no coração", conta Majory.

Futuro do programa

Majory acredita que o fortalecimento do programa passa pela informação. "Para que o serviço de acolhimento familiar cresça, ele precisa ser muito falado, mais divulgado. Também é importante que a Vara da Infância e Juventude apoie mais as famílias, principalmente nos momentos de transição dos cuidados. Se existe essa sementinha no coração, deixe florir. É muito mais grandioso do que se possa imaginar. É sobre amar na forma mais pura", conclui.

Hoje, porém, a realidade mostra o tamanho do desafio. Enquanto apenas 24 famílias estão cadastradas no Programa Família Acolhedora em Campinas — número bem abaixo da capacidade de 40 —, 455 crianças e adolescentes seguem em acolhimento institucional no município. Embora os abrigos tenham estrutura para até 500 acolhidos, especialistas apontam que o ambiente familiar é mais adequado, sobretudo nos primeiros anos de vida.

Os dados evidenciam que ampliar o número de famílias acolhedoras não é apenas uma meta administrativa, mas uma necessidade social urgente para garantir desenvolvimento emocional, vínculos afetivos e mais chances de reintegração familiar. O futuro do programa, portanto, depende tanto das políticas públicas quanto do engajamento da sociedade em transformar números em lares temporários cheios de cuidado, proteção e muito afeto para as crianças.