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Escalada de violência política contra indígenas mobiliza Unicamp e Governo Federal

Após denúncia de agressão armada contra estudante indígena e manifesto de coletivo estudantil do campus de Limeira (SP), reitoria divulga nota oficial; órgãos federais articulam investigação nacional de ataques

Por Moara Semeghini - Campinas

Wenatoa Parakanã, presidente da associação Tato'a, na aldeia Terra Indígena Apyterewa

A escalada de violência contra comunidades indígenas por motivação política após o segundo turno das eleições presidenciais de 2026 atingiu diretamente a comunidade universitária no interior paulista. A Reitoria da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) divulgou nesta sexta-feira (30) uma nota de repúdio em relação a graves atos de intimidação e agressão sofridos por estudantes indígenas da instituição no campus de Limeira (SP).

O episódio na universidade veio à tona publicamente após a divulgação de uma nota de repúdio pelo Coletivo Acadêmicos Indígenas da Unicamp, entidade ligada à Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) e à Faculdade de Tecnologia (FT). O grupo denunciou as ameaças sofridas no período pós-eleitoral, manifestou solidariedade às vítimas e solicitou à universidade a ampliação da segurança no entorno do campus e o aprimoramento dos canais de denúncia sobre violência política.

O resultado de uma eleição pode gerar insatisfação, mas jamais pode justificar a violência. Democracia exige respeito, inclusive quando o resultado não corresponde à nossa vontade. [...] Nossa existência merece respeito e proteção!" - nota de repúdio do Coletivo Acadêmicos Indígenas da Unicamp, divulgada nesta sexta-feira (30).

A gravidade da situação em Limeira foi detalhada pelo vereador Wagner Romão. Segundo o relato, um estudante indígena voltava da faculdade à noite quando foi abordado por dois homens que desceram de um carro modelo Pálio branco. Com uma arma de fogo apontada contra sua cabeça, o jovem foi vítima de ofensas verbais vinculadas ao resultado das urnas e de ameaças explícitas de eliminação física. “Disseram o seguinte: foi por causa de vocês que esse velho nojento ganhou as eleições e se nós começarmos a eliminar vocês daqui”, contou o vereador em sua rede social.

“Isso é muito grave, a gente está vendo, eu estou acompanhando a situação dos indígenas no Mato Grosso do Sul, a situação da violência política do assédio eleitoral nestas eleições depois do segundo turno está enorme no País. É muito importante que nós aqui especialmente em Campinas, em Limeira, possamos dar proteção para os estudantes indígenas que estão aqui na Unicamp fazendo seus estudos, quero pedir uma posição da reitoria que observe isso também dos órgãos de segurança aqui de Campinas, de Limeira para que nada de mal possa acontecer para os nossos estudantes indígenas”, afirmou Romão.

40 casos em quatro meses

O caso na Unicamp ocorre em um momento de alta tensão nacional. Entre julho e outubro de 2026, o Brasil registrou 40 casos de violência política contra indígenas — o equivalente a cerca de uma ocorrência a cada três dias. É o que revela um levantamento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), obtido pelo jornal O Globo.

Os dados mostram que a onda de agressões impactou 30 povos originários (como os Yanomami, Guarani e Xavante) em 35 territórios distribuídos por 15 estados do país. No total, a Apib contabilizou: sete assassinatos e 11 ameaças de morte; 35 episódios de racismo e 18 agressões físicas; sete casos de violência de gênero.

A maior concentração dos atos violentos ocorreu no período entre o início oficial da campanha e o primeiro turno (18 casos), seguido por 13 ocorrências durante o segundo turno e seis registros contados após a etapa final do pleito. Entre os episódios mais graves relatados no Mato Grosso do Sul estão assassinatos, incêndios criminosos contra lideranças espirituais de 90 anos e ameaças de envenenamento de reservatórios de água em aldeias.

Reitoria da Unicamp 

Em resposta às denúncias em Limeira, a Reitoria da Unicamp emitiu um posicionamento oficial em 30 de outubro de 2026. A administração central informou que acompanha o caso juntamente com as direções locais e os órgãos de segurança para prestar todo o suporte institucional necessário e colaborar com as investigações policiais.

"A Reitoria reforça a necessidade de manutenção da serenidade e reitera que o respeito mútuo e a convivência pacífica devem prevalecer em todos os espaços que permeiam a vida universitária, rejeitando qualquer ato de hostilidade ou discriminação", diz um trecho da nota. (veja na íntegra, abaixo).

Força-tarefa interministerial e ação da Polícia Federal

Diante da gravidade dos relatos em todo o país, a Funai aciona a PF e pede apuração de casos de ataques contra indígenas. Para conter o avanço das agressões, os Ministérios dos Povos Indígenas (MPI), dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e da Igualdade Racial (MIR) estruturaram uma força-tarefa interministerial em coordenação com o Ministério da Justiça e as corregedorias policiais nos estados.

Em articulação direta com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a Secretaria-Geral da Presidência da República (SG/PR) também apresentou ações de enfrentamento à intolerância pós-eleitoral. Um levantamento inicial do órgão aponta 45 casos de violência e atentados com motivação política no país após o pleito, resultando em 47 vítimas, das quais 10 foram homicídios, incluindo três indígenas.

Como Denunciar

Para garantir a orientação correta da população e o encaminhamento ágil dos casos, o Governo Federal reforça que a população deve utilizar exclusivamente os canais oficiais ativos para o envio de denúncias:

. Disque 100: Canal específico do Ministério dos Direitos Humanos para receber denúncias de perseguição e violência política (gratuito e disponível 24 horas).
. Plataforma Fala.BR: Acessível pelo site falabr.cgu.gov.br.
. Ouvidoria do MPI: E-mail mpi.ouv@povosindigenas.gov.br ou pelos telefones (61) 2020-1278 e (61) 2020-1480.

Manifestação

Em Campinas, movimentos sociais organizam para este domingo (1º) uma manifestação em defesa dos povos indígenas e contra a violência política. O ato está marcado para as 9h, no Largo do Rosário, no Centro, e cobra medidas de proteção às comunidades indígenas, investigação das ameaças e responsabilização dos envolvidos.

Nota oficial - reitoria da Unicamp

A Reitoria da Universidade Estadual de Campinas vem a público condenar os recentes episódios de violência cometidos contra alunos indígenas da instituição na cidade de Limeira. A Universidade reitera seu compromisso com a integridade e a dignidade de todos os membros de sua comunidade.

A administração central, em conjunto com as direções locais e os órgãos de segurança, acompanha o caso com atenção. Estão sendo adotadas as medidas cabíveis para oferecer o suporte institucional necessário e colaborar com as autoridades competentes para a devida apuração dos fatos.

A Reitoria reforça a necessidade de manutenção da serenidade e reitera que o respeito mútuo e a convivência pacífica devem prevalecer em todos os espaços que permeiam a vida universitária, rejeitando qualquer ato de hostilidade ou discriminação.



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