Carlos Zarattini, eleito deputado federal pela sexta vez, e Wagner Romão, ambos do PT, analisam o avanço da extrema-direita e caminhos para o 2º turno
O primeiro turno das eleições, realizado neste domingo (4), escancarou um profundo movimento de consolidação da direita e extrema-direita. Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro obteve 47% dos votos ante 45% de Lula (PT) e garantiu vantagem para o segundo turno.
Nos estados, dos 20 governadores eleitos logo no primeiro turno, três são do PT e 17 são de partidos da direita e do centro-direita (PSD, Republicanos, PL, MDB, PP). No Senado Federal, das 54 vagas em disputa, apenas 10 ficaram com a esquerda ou centro-esquerda: seis do PT, três do PSB e um do PDT.
Diante desse tabuleiro adverso para o campo progressista e do avanço conservador, a reportagem ouviu o deputado federal Carlos Zarattini (PT), reeleito para o seu sexto mandato no último domingo e que possui profunda ligação histórica e familiar com Campinas, e o vereador campineiro Wagner Romão (PT), para decifrar os fatores que impulsionaram o avanço da direita nas urnas e analisar os reflexos desse cenário para o país e para a cidade.
As raízes em Campinas e a voz da experiência no Congresso
Entre as vozes que analisam o momento está o deputado federal Carlos Zarattini (PT), reeleito para o seu sexto mandato na Câmara dos Deputados no último domingo (4). Zarattini possui uma ligação histórica e afetiva com Campinas. É filho do engenheiro e histórico militante político Ricardo Zarattini (nascido em Campinas em 6 de fevereiro de 1935 e falecido em 2017), figura central na luta contra a ditadura militar, ex-integrante do Partido Comunista Brasileiro e do MR-8, preso político, exilado e eleito deputado federal em 2002.
A tradição política da família segue viva nas novas gerações: Luna Zarattini, sobrinha de Carlos e neta de Ricardo, também foi vitoriosa nas urnas como a deputada federal mais votada do PT por São Paulo.
Com passagens pelo movimento sindical dos metroviários e uma trajetória consolidada desde os anos 1990 em São Paulo, Carlos Zarattini mantém vínculos estreitos com Campinas, visitando frequentemente a cidade e atuando diretamente em diversos bairros do município e da região.
Os Três Eixos do Avanço da Direta e os Desafios do Segundo Turno
Ao avaliar o cenário que levou o pleito presidencial ao segundo turno em uma disputa acirrada, Carlos Zarattini aponta que a campanha do adversário soube explorar temas sensíveis do cotidiano da população, exigindo do governo federal e da campanha de Lula uma resposta firme e direta baseada nos fatos. Para o parlamentar, o debate do segundo turno precisa se concentrar em três eixos centrais:
. O preço dos alimentos e a carga tributária: Zarattini aponta que, embora o governo Lula tenha desacelerado a inflação (no governo Bolsonaro o preço dos alimentos subiu 54,2% de janeiro de 2019 até julho de 2022. No período equivalente no governo Lula, a alta foi bem menor, 13,6%) mas a percepção de alto custo de vida nos supermercados permaneceu forte.
E a aprovação da reforma tributária, que desonera a cesta básica, foi um passo fundamental, mas pondera que o timing de implementação poderia ter sido antecipado para impactar os preços antes das urnas. Em contrapartida, alerta que o discurso da direita sobre "cortar impostos" visa beneficiar os mais ricos, enquanto esconde o verdadeiro plano de cortes de despesas sociais.
. Previdência Social: um dos pontos mais graves denunciados pelo deputado é o plano velado da oposição de desvincular o salário mínimo do piso da previdência. Segundo Zarattini, essa medida significaria o congelamento gradual dos rendimentos dos aposentados, gerando um colapso no poder de compra da terceira idade em poucos anos.
. Segurança Pública e o discurso da punição severa: enquanto os progressistas apostam em soluções baseadas em inteligência, investigação e sufocamento financeiro do crime organizado, a extrema-direita aposta no apelo emocional do "punição severa de impacto", repetindo modelos estrangeiros (como o adotado em El Salvador) através de discursos de força de setores policiais e militares.
Questionado sobre os riscos de paralisação institucional diante de um Senado amplamente dominado pela oposição e um Congresso com forte presença conservadora a partir de 2027, Zarattini demonstra pragmatismo e aponta a necessidade de articulação imediata.
Para ele, os partidos do Centrão também enfrentam uma ameaça existencial com o crescimento da ultradireita, visto que o avanço do bloco radical ocorre frequentemente à custa do esvaziamento político tradicional do Centrão. "Nós vamos ter que fazer um governo onde vamos ter que estabelecer uma base de governo mais firme. O presidente Lula, ganhando a eleição, deve chamar os partidos do chamado centrão para uma conversa e efetivamente estabelecer uma série de garantias [...] impedindo que eles façam uma adesão ao outro lado e mantendo a neutralidade deles", pontua o deputado.
Mobilização territorial, o voto nas metrópoles e o alerta institucional
Diante do cenário desfavorável de governos estaduais no Sul e Sudeste, Zarattini destaca que a chave para a virada no segundo turno está na mobilização massiva nas grandes concentrações urbanas, onde o eleitorado progressista demonstrou força expressiva (como nas capitais e regiões metropolitanas de São Paulo e Porto Alegre).
Por fim, Zarattini faz um alerta contundente sobre as garantias democráticas e o risco institucional caso a oposição concentre todos os poderes: "Se tiverem o Congresso na mão, o STF na mão e a presidência da República, vai haver uma reforma constitucional para cercear as liberdades de organização e de manifestação do povo brasileiro".
A leitura e o olhar a partir de Campinas com Wagner Romão
A reportagem também conversou com o vereador de Campinas Wagner Romão (PT), que analisou a conjuntura sob a ótica dos resultados parlamentares e dos desafios imediatos para a reeleição do presidente Lula no segundo turno. Para Romão, a prioridade absoluta do campo democrático é clara: superar a vantagem construída pelo adversário e unificar as forças progressistas.
"A principal tarefa nossa agora é reeleger o presidente Lula, superar essa diferença de cerca de 2 milhões e 500 mil votos que o Flávio Bolsonaro colocou de dianteira no segundo turno, e fazer um convite às pessoas progressistas e democráticas para que possam perceber o perigo que está à vista com um novo mandato do clã Bolsonaro", afirma o vereador.
Analisando a configuração do Legislativo, Romão destaca um dado importante: a esquerda manteve numericamente o mesmo patamar de cadeiras ou algo muito próximo disso. O que realmente mudou o peso da correlação de forças foi a enorme expansão do PL, partido que hoje concentra a base da extrema direita.
Para o parlamentar campineiro, essa mutação no Congresso traz um problema sistêmico e preocupante para a convivência política nacional: "Goste-se ou não do centrão, é um campo político em que há possibilidade de negociação e construção de consensos, o que não é possível com a extrema direita. Nós não podemos, seja enquanto esquerda, seja enquanto pessoas progressistas, democráticas, compactuar com os valores que a extrema direita defende. A extrema direita quer destruir a democracia, quer destruir o campo progressista; ela quer instaurar um processo político que intimida, que dá medo e que, no limite, trabalha pelo extermínio de determinados segmentos sociais", alerta Romão.