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Milton Hatoum diz ser "inaceitável" possível interferência dos EUA nas eleições brasileiras

Em passagem por Campinas, escritor eleito imortal na ABL e semi finalista do Jabuti conversa com exclusividade com o Correio da Manhã sobre o cenário político atual, a soberania nacional e o papel humanizador da ficção.

Por Moara Semeghini - Campinas

O escritor Milton Hatoum, durante visita à Livraria Candeeiro, no Cambuí; imortal da ABL participou de bate-papo no Sesc Campinas

A poucos dias de um momento decisivo para o País, o escritor Milton Hatoum esteve em Campinas para uma agenda que uniu literatura e reflexão sobre os rumos da sociedade. Antes de seguir para um concorrido bate-papo no Sesc Campinas, parte do projeto Leituras Circulantes do Sesc SP, que tem o objetivo de aproximar escritores de seus leitores, o autor conversou rapidamente com exclusividade com o Correio da Manhã na Livraria Candeeiro, no Cambuí.

A visita à cidade coroa um período de consagração e intensa relevância pública do autor. Eleito imortal para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2025, sendo o primeiro amazonense a integrar a instituição, e com mais de meio milhão de livros vendidos, Hatoum vê agora seu mais recente romance, Dança de Enganos (Companhia das Letras), figurar entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti 2026 na categoria Romance Literário. O livro encerra a aclamada trilogia O Lugar Mais Sombrio, ambientada nos anos de chumbo da ditadura militar, temática que consagra sua habilidade de traduzir dramas familiares em potentes painéis históricos e políticos.

Diante do clima de expectativa e tensão que antecede o pleito eleitoral, Hatoum abriu a conversa comentando com firmeza sobre o cenário geopolítico e a defesa intransigente da democracia e da soberania nacional.

A seguir, leia a entrevista na íntegra:

Correio da Manhã: A poucos dias de irmos às urnas, como você avalia este momento político que estamos vivendo, e essa possível interferência que os EUA podem fazer nas eleições brasileiras?

Milton Hatoum: Olha, uma possível intervenção já aconteceu, né? Isso foi além da possibilidade, foi um ato concreto na Venezuela. E a gente sabe que os Estados Unidos, o governo norte-americano influenciou nas eleições na Colômbia. Eu não gostaria que isso acontecesse no Brasil, porque eu acho que, independentemente de qualquer matiz ideológico, eu tenho amigos liberais, tenho amigos de direita, de esquerda, mas nenhum concorda com a ingerência de um país estrangeiro na vida política brasileira.

Então, eu acho isso inaceitável: qualquer tipo de influência ou ingerência nessas eleições, porque o Brasil é um país soberano e nós devemos manter essa soberania e essa independência a todo custo.

Correio da Manhã: E qual deve ser o papel da literatura e da arte? Ela atua como um antídoto que trabalha a favor das relações humanas?

Milton Hatoum: Acho que a literatura não é, a meu ver, uma cartilha ideológica. Eu não gosto de textos de denúncia, de textos panfletários, vamos dizer que não é o tipo de literatura que me agrada, porque a literatura não deve explicar, ela deve fazer perguntas ao leitor, ela deve convidar o leitor a refletir sobre o seu tempo, sobre a sua vida, sobre a sua cultura, ela é uma porta de entrada para o conhecimento de outras culturas e também para o conhecimento de nós mesmos.

Então, para mim, a boa literatura é aquela que trabalha com ambiguidade e com as contradições, porque são as contradições que nos tornam mais, vamos dizer, humanos. A compreensão de que nós não somos totalmente bons nem totalmente maus, que nós não somos, vamos dizer assim, que o nosso modo de ser pode ser contraditório às vezes. E é com isso que a literatura trabalha.

Agora, tem uma coisa aí que é importante, que é a dimensão ética da literatura. E ética significa basicamente responsabilidade. Então, por exemplo, eu jamais escreveria, vamos dizer, jamais daria uma dimensão importante para um personagem torturador, destruidor, negacionista, uma pessoa que pratica orgias, essas coisas.

Eu acho que essa personagem, que existe na vida real, não é? Pessoas cruéis, pedófilos, pessoas intolerantes com a religião dos outros, não é? Existem essas pessoas. Só que eu não daria um relevo positivo para essas personagens. E aí reside minha responsabilidade ética.

Moara Semeghini / Correio da Manhã - O escritor e crítico literário Paulo Elias Franchetti, docente do IEL da Unicamp e o escritor Milton Hatoum na Livraria Candeeiro

Moara Semeghini / Correio da Manhã - O escritor imortal Milton Latoun autografa um de seus livros durante conversa na livraria candeeiro, em Campinas