Tarcísio engata sequência de ausências em sabatinas e acende debate sobre tática eleitoral
Após desfalcar o Roda Viva e a EPTV, em Campinas, em intervalo de uma semana, campanha nega blindagem e alega cumprimento normal de agenda. Haddad aproveitou espaço para criticar a gestão e apresentar propostas para a região e estado
A reiteração de ausências do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em entrevistas ao vivo passou a desenhar um padrão de conduta da campanha estadual a um mês do primeiro turno das eleições. Líder nas pesquisas de intenção de voto, o candidato à reeleição desmarcou compromissos em duas vitrines de grande alcance num intervalo de apenas uma semana: a sabatina do telejornal da EPTV Campinas, na última segunda-feira (31), e o programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 24 de agosto.
Em contrapartida, Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo pelo PT, cumpriu ambas as agendas, participando do programa da TV Cultura no dia 31 e da entrevista ao vivo na afiliada da TV Globo, em Campinas, nesta terça-feira (1º).
Os cancelamentos do atual governador reeditam uma dinâmica já adotada na eleição de 2022, quando Tarcísio também desistiu de participar da sabatina do Roda Viva antes do segundo turno. Nas duas ocasiões mais recentes, as datas haviam sido definidas em sorteios prévios com a participação de representantes da própria campanha. A emissora paulista citou "incompatibilidade de agenda" para a ausência, embora a agenda pública do governador não registrasse compromissos oficiais no horário do programa.
A sequência de desfalques acirrou a cobrança de adversários políticos. Em agenda pela Região Metropolitana de Campinas (RMC), a vereadora e candidata a deputada estadual Guida Calixto (PT) criticou a postura do candidato do Republicanos. "A população de São Paulo quer ouvir propostas, cobrar respostas e saber quem está disposto a encarar os problemas do nosso estado de frente. Debate público se faz com coragem, presença e compromisso", declarou.
O outro lado
Procurada pela reportagem para responder sobre o acúmulo de cancelamentos e a avaliação de bastidor de que haveria uma tática deliberada para evitar contrapontos ao vivo, a assessoria da campanha de Tarcísio de Freitas rebateu a leitura.
Em nota enviada à reportagem, a comunicação da campanha informou que o candidato "já participou de 8 sabatinas e entrevistas ao vivo desde o início do período eleitoral" e afirmou que "a agenda de entrevistas com veículos de todas as regiões do Estado continua sendo cumprida normalmente e novos compromissos estão sendo agendados para as próximas semanas".
A equipe do governador declarou ainda que "não procede a leitura de que haveria uma estratégia de evitar formatos ao vivo ou espaços de sabatina", ressaltando que "esse tipo de compromisso segue com espaço relevante na agenda de campanha".
Haddad explora ausência e apresenta propostas na EPTV
Aproveitando o tempo de exposição na EPTV Campinas, Fernando Haddad iniciou a entrevista lamentando a ausência do rival e fez duras críticas aos indicadores econômicos e sociais da atual gestão. O ex-ministro da Fazenda afirmou que as finanças estaduais passaram de um quadro de superávit para déficit e sustentou que o crescimento econômico do estado estaria estagnado. Haddad detalhou prioridades do seu plano de governo voltadas para a região e para o estado.
Segurança pública e crime organizado - Criticou os índices de furtos e roubos de celulares, propondo a adesão ao programa federal "Celular Seguro" e o rastreamento via IMEI. Para combater as facções no interior, propôs a criação de um Gabinete Antifacção presidido pelo próprio governador, integrando a Polícia Militar, a Polícia Civil, a Polícia Federal e a Receita Federal. “O governador sequer aceita uma parceria com o governo federal. Vou dar um exemplo. A Operação Carbono Oculto foi considerada por todos os especialistas a operação mais exitosa contra o crime organizado", disse Haddad. "A Reag, a Refit e o Banco Master. Você deve ter ouvido falar de pelo menos um desses três escândalos. Foi uma operação da Receita Federal. Por que ela teve esse sucesso? Porque ela estava integrada com a Polícia Federal, com o Ministério Público do Estado de São Paulo, e aí essa força-tarefa, que cumpriu mandatos com a ajuda da Polícia Militar do Estado, acabou com esses três esquemas. Foi a cooperação. Qual é o problema hoje? Essa cooperação não é a regra, é a exceção", afirmou.
Saúde e fila de exames - Apontou gargalos no sistema CROSS (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde), classificando-o como defasado. Propôs a implementação de "Hospitais Dia" no interior para cirurgias ambulatoriais de rápida recuperação e a criação do "Farmácia Popular Móvel", com entrega gratuita de medicamentos em domicílio para evitar filas. "Assim que nós tomamos posse, em 2023, nós fizemos uma reposição do orçamento de saúde que foi cortado pelo Bolsonaro. Nós colocamos 100 bilhões a mais por ano no orçamento da saúde. Esse dinheiro, apesar de ser um dinheiro federal, é distribuído pelo SUS para estados e municípios. São Paulo recebeu a sua justa parte, como todos os estados da federação. No país, a fila andou. Em São Paulo, a fila não andou, apesar do dinheiro adicional que o governo federal mandou para cá", afirmou o ex-ministro.
"A fila não tem uma gestão inteligente. Primeiro, ela segue uma ordem cronológica e, às vezes, a pessoa que está atrás da fila está precisando de atendimento imediato, em função de um problema vascular ou a questão oncológica. Tem um terceiro problema, que é muito comum, que você, em São Paulo, sai de uma fila para entrar em outra. Então, você entra na fila do exame, depois da consulta, depois do exame, depois da cirurgia. Essas três filas pelas quais você passa, às vezes, você tem um ano e meio, dois anos para ser atendido ao final, quando você deve e pode contratar um cuidado integral, de acordo com a necessidade do paciente. Isso não está sendo feito em São Paulo e está sendo feito a nível federal, pelo programa Aqui Tem Especialista do Ministério da Saúde", afirmou. "Nós queremos integrar uma integração maior com o Ministério da Saúde, com o SUS digital, com a saúde digital. Nós vamos instalar hospitais dia no interior, porque nem toda a cirurgia precisa de internação. Então, muitas vezes, uma cirurgia ambulatorial pode ter a recuperação feita em casa", completou.
Pedágios e concessões - Incomodado com a cobrança do sistema Free Flow e a tarifa de pedágios nas rodovias paulistas, Haddad prometeu passar a limpo contratos firmados pela gestão Tarcísio, citando como exemplo a privatização da Sabesp e serviços de trens metropolitanos, além de cobrar revisão de gastos de custeio da máquina pública.
Agro e infraestrutura hídrica - Rejeitou a pecha de resistência ao agronegócio, destacando ações do período em que esteve no Ministério da Fazenda. Prometeu a criação de um novo plano de seguro rural estadual para proteger produtores contra eventos climáticos extremos e destacou a necessidade de investimentos em reservação de água para a RMC, citando obras como as barragens de Pedreira e Duas Pontes.
Carga tributária - Questionado sobre a cobrança de impostos sobre compras internacionais (a "taxa das blusinhas"), Haddad disse que a cobrança estadual ao ICMS instituído pelos governadores, incluindo a atual gestão paulista, e a aprovação de legislação pelo Congresso Nacional, afirmando ter focado sua gestão no governo federal na isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil.
BBB
"Eu não criei importo nenhum, eu cobrei de quem não pagava. Sobretudo de bet, bancos e os bilionários que receberam dividendos e não pagavam. Agora, é curioso que a oposição fala que eu cobrei de Banco e de Bet, mas esquece de dizer que eu exercei um imposto de renda, 15 milhões de brasileiros, que ganham até 5 mil reais. Só para você ter uma ideia, no governo do Bolsonaro e do Tarcísio, quem ganhava 2 mil reais já pagava imposto de renda, 2 mil reais", afirmou.
"Nós aumentamos a faixa de isenção para 5 mil reais e de quem ganha de 5 a 7 mil 350, não está isento, mas está pagando menos do que pagava no tempo do Bolsonaro. Então, de quem ganha até 7 mil reais, teve isenção ou redução de imposto de renda. Quem está pagando mais? Os 140 mil brasileiros que não pagavam imposto e passaram a pagar", disse o candidato. "Sobre a taxa das blusinhas, quem começou a cobrar foram os governadores. Tarcísio começou a cobrar ICMS, foi lá no governo federal fazer um convênio com os Correios para passar a cobrar ICMS, que era o Correio que trazia para cá, e não foi o governo federal que decidiu o imposto federal, foi o Congresso Nacional por unanimidade, afirmou Haddad.
"O partido do Tarcísio votou a favor da taxa das blusinhas, que o Congresso criou. Então, ele como governador criou e o partido dele no Congresso Nacional votou a favor. O presidente Lula não era a favor da taxa, e tanto é que depois de toda essa confusão que, até a imprensa fez essa confusão, o presidente Lula mandou uma medida provisória para ir acabando com a taxa no plano federal, mas no plano estadual continua sendo cobrada pelo Tarcísio e pelos outros 26 governadores", concluiu.