Ofensiva antivacina impulsiona sarampo no mundo; Campinas aposta em 'Dia D' e busca ativa para blindar a cidade
Em meio a surto nos EUA e discursos contra a imunização no Brasil e no exterior, especialistas alertam para os perigos da hesitação; metrópole foca em mais de 11 mil crianças com doses atrasadas
A disseminação de fake news e a ofensiva política contra a imunização cobram um preço direto e perigoso da saúde pública mundial. O retrocesso na cobertura vacinal desencadeou nos Estados Unidos o maior surto de sarampo em 35 anos, cenário que facilita a importação do vírus para o Brasil.
A crise internacional se agravou após novas declarações da Casa Branca contra recomendações vacinais históricas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) manifestou preocupação, alertando que as mudanças não têm base científica. O impacto é concreto: após o secretário de Saúde norte-americano, Robert Kennedy Jr., questionar vacinas e declarar em evento que "a cura para o sarampo é canja de galinha e vitamina A", a região da Pensilvânia registrou um surto com mais de 230 casos e dezenas de hospitalizações.
Desinformação e hesitação vacinal também afetam o Brasil
A resistência e os discursos contra as vacinas não são exclusividade do exterior. No Brasil, a propagação de boatos também faz com que pessoas deixem de se vacinar ou falem mal dos imunizantes, abrindo brechas para o retorno de doenças erradicadas.
Em debate sobre o tema no evento BBC World Service: Trust is Earned - O Desafio da Credibilidade, na última sexta-feira (14), o médico e escritor Drauzio Varella criticou a postura dos movimentos antivacina:
"Ignorância é uma coisa, estupidez é outra. Eu sou ignorante em muitas coisas. Cada um de nós", explicou Drauzio. "O ignorante aprende quando ele é ensinado; o estúpido não, porque o estúpido acha que ele sabe."
O cenário no Estado de São Paulo
O impacto da baixa adesão e dos esquemas vacinais incompletos já se reflete nos dados estaduais. O Estado de São Paulo confirma 23 casos de sarampo em 2026, com a seguinte distribuição: capital paulista: 20 casos confirmados; São Bernardo do Campo: 2 casos confirmados; Guarulhos: 1 caso confirmado.
Segundo as autoridades de saúde, a maioria dos pacientes infectados não tinha histórico de vacinação ou apresentava o esquema incompleto, em registros associados a casos importados do vírus. Diante do avanço da doença, o Ministério da Saúde determinou a ampliação da vacinação para todas as pessoas de 6 meses a 59 anos nessas três localidades, independentemente do histórico vacinal.
A estratégia de Campinas contra a ameaça
Diferente dos municípios em surto, Campinas não registra casos de sarampo desde 2021 e não adota a vacinação indiscriminada. A prioridade da cidade é localizar quem está com esquemas em atraso.
A Secretaria Municipal de Saúde identificou 11.837 crianças de até 4 anos com doses pendentes e iniciou uma busca ativa, contatando diretamente as famílias. A orientação em Campinas é para que todas as pessoas de até 59 anos que não tenham o esquema completo procurem um posto de saúde para atualização.
"A atualização da situação vacinal é estratégica para reduzir o risco de reintrodução e circulação de doenças como o sarampo", afirma a coordenadora do Programa de Imunização de Campinas, Chaúla Vizelli.
Dia D de Multivacinação e reforço contra a Pólio
Para barrar o avanço do vírus, Campinas promove no próximo sábado, 22 de agosto, o "Dia D" da Campanha de Multivacinação, voltado a crianças e adolescentes de 6 meses até 14 anos.
A mobilização também inclui a segunda dose de reforço da vacina inativada contra a poliomielite (VIP), aplicada aos 4 anos de idade. Crianças de 5 e 6 anos com doses pendentes também podem se atualizar temporariamente. O Brasil não registra casos de pólio desde 1989, mas a vacinação permanece essencial para evitar o retorno da paralisia infantil.
"A segunda dose de reforço prolonga a proteção das crianças e ajuda a manter a pólio erradicada no Brasil. Por isso, é fundamental que os pais e responsáveis mantenham a caderneta em dia", reforça Chaúla.
Serviço: Onde e como se vacinar
A Campanha Nacional de Multivacinação segue até o dia 1º de setembro.
O que levar: Documento com foto e a caderneta de vacinação (não é preciso agendar).
Dia D (22 de agosto): Atendimento em centros de saúde estratégicos e pontos de grande circulação. A lista completa dos locais está disponível em: campinas.sp.gov.br/sites/vacina/dia-d.
Atendimento de rotina: Endereços e horários das salas de vacina durante a semana podem ser consultados em vacina.campinas.sp.gov.br.