Renovação da frota é obrigação, não diferencial de gestão, diz especialista

Por Raquel Valli

Prefeitura destaca que a renovação parcial da frota visa substituir veículos mais antigos e proporcionar mais conforto e previsibilidade aos usuários

A incorporação de 137 novos ônibus ao transporte público de Campinas, divulgada pela prefeitura na semana passada, por si só, não resolve os principais desafios da mobilidade urbana da cidade, avalia o mestre em planejamento urbano Ayrton Camargo e Silva, ex-presidente da Emdec (autarquia responsável pelo transporte coletivo campineiro) e professor da PUC-Campinas. 

Do total, 52 ônibus já circulam: 37 são zero-quilômetro e 15 seminovos, fabricados em 2025 e 2026. Os veículos têm ar-condicionado, tomadas USB e substituem ônibus mais antigos, com renovação feita em acordo entre a Emdec, a Secretaria de Transportes e empresas operadoras. A administração afirma que, com esse lote, mais de 400 ônibus novos e seminovos terão sido incorporados ao sistema antes da nova concessão.

Entretanto, Camargo e Silva aponta que a renovação periódica da frota é uma obrigação contratual, não um diferencial de gestão. Segundo ele, o principal indicador qualitativo é a idade média dos veículos, dado que não foi divulgado pelo Poder Executivo.

"A renovação de frota é essencial, é rotineira. Ninguém está fazendo mais do que a obrigação", afirma. "A grande questão é qual é a idade média da frota. Quanto maior ela for, maior o desgaste dos ônibus, o consumo de diesel, a emissão de poluentes e menor a confiabilidade do serviço, caso não haja manutenção adequada."

Questionada a respeito, a Prefeitura informou que a idade média da frota, já considerando os novos veículos, está sendo atualizada e será divulgada na próxima semana.

Acrescentou que a nova licitação prevê modernização completa dos ônibus, incluindo os do BRT, com ar-condicionado, Wi-Fi, tomadas USB, câmeras, GPS e computador de bordo.

Mas, para Camargo, o desempenho do sistema deve ser medido por indicadores abrangentes, como falhas mecânicas, cumprimento de horários e regularidade das viagens. "Não adianta colocar ônibus novo ou mais ou menos novo se ele está parado no trânsito", diz. 

Sobre os indicadores, a Prefeitura informou que os dados das linhas municipais estão disponíveis no aplicativo da Emdec, na seção "Desempenho do Transporte", com atualização diária sobre partidas realizadas, antecipadas e atrasadas. O município não respondeu sobre o índice de falhas mecânicas da frota.

Camargo também aponta deficiência na infraestrutura para os usuários. Segundo ele, muitos pontos de parada ainda não têm cobertura nem informação sobre o horário de chegada dos ônibus. Ele cita sistemas com painéis eletrônicos integrados ao GPS como referência.

"O passageiro precisa ter abrigo no ponto de parada, com o mínimo de conforto e segurança. Enquanto essas questões estruturais não forem resolvidas, anunciar ônibus novos não enfrenta os problemas do sistema", afirma.

A Prefeitura informa que entre 2021 e 2025, foram incorporados 267 ônibus novos ou seminovos, sendo 149 zero-quilômetro e 118 seminovos, e que este ano, as empresas operadoras adquiriram 110 veículos após acordo firmado com o município.