Mariana Conti e Sâmia Bomfim defendem emergência climática preventiva diante do risco de forte El Niño

Por Moara Semeghini - Campinas

A vereadora de Campinas Mariana Conti (PSOL) e a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP)

Diante das projeções que indicam elevada probabilidade de ocorrência do El Niño no segundo semestre de 2026, a vereadora de Campinas Mariana Conti (PSOL) e a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) encaminharam ofícios aos governos municipal, estadual e federal solicitando a decretação de estado de emergência climática preventivo. As parlamentares também pedem a adoção de medidas imediatas e coordenadas para reduzir os impactos de possíveis eventos extremos associados ao fenômeno.

No documento, elas citam projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) que apontam alta probabilidade de formação de um El Niño nos próximos meses. Os modelos de projeção da agência americana indicam que o cenário deve se desenvolver para um nível moderado ou forte.

Conforme reportagem publicada pelo Correio da Manhã em junho deste ano, a NOAA confirmou o estabelecimento do fenômeno e estimou em 63% a probabilidade de um El Niño muito forte entre novembro e janeiro, uma subida drástica em relação aos 37% previstos no mês passado, com chances reais de o aquecimento médio das águas superar os 2°C. Esse patamar coloca o atual ciclo com potencial para figurar entre os maiores recordes históricos registrados desde 1950.

Na entrevista, a meteorologista Ana Maria Heuminski de Avila, pesquisadora e diretora do Cepagri da Unicamp, afirmou que a confirmação do fenômeno não significa que todos os impactos previstos ocorrerão necessariamente, mas indica uma alteração importante nas condições oceânicas e atmosféricas que influencia o clima em diversas partes do mundo.

As parlamentares argumentam que a adoção de medidas preventivas é necessária diante da possibilidade de aumento de eventos extremos, como ondas de calor, estiagens prolongadas e chuvas intensas. Segundo o documento, a Região Metropolitana de Campinas reúne fatores que ampliam sua vulnerabilidade, como impermeabilização do solo, ocupações em áreas de risco, déficit habitacional e desigualdade na infraestrutura urbana.

"Os governos precisam se antecipar e agir imediatamente diante da possibilidade de fenômenos extremos. A crise climática já é uma realidade. As queimadas, as ondas de calor e as enchentes tendem a se intensificar, e quem mais sofre é a população socialmente vulnerável", afirmou Mariana Conti.

Para Sâmia Bomfim, o enfrentamento dos riscos climáticos exige atuação integrada entre União, Estado e municípios. "A omissão preventiva não pode ser normalizada. A crise climática afeta toda a sociedade, mas seus impactos recaem de forma mais intensa sobre as populações vulneráveis. É dever do poder público adotar um plano de ação coordenado para proteger vidas", disse.

Na avaliação da pesquisadora do Cepagri, embora o El Niño aumente a probabilidade de determinados eventos climáticos, a população deve acompanhar as informações por meio de fontes oficiais e evitar interpretações alarmistas. Ela ressalta que o fenômeno, por si só, não determina a ocorrência de desastres, que normalmente resultam da combinação de diversos fatores ambientais e urbanos. Além disso, destaca que a sociedade está hoje mais vulnerável devido à urbanização, à ocupação de áreas de risco e às mudanças climáticas em curso.

Campinas e região

Para o Sudeste, incluindo Campinas, a expectativa é de temperaturas acima da média e maior irregularidade na distribuição das chuvas. A meteorologista explica que há possibilidade de atraso no estabelecimento da estação chuvosa, além de períodos mais prolongados de calor.

"Existe uma tendência de temperaturas mais elevadas para a nossa região e de uma estação das chuvas mais irregular. Quando as chuvas retornam após períodos mais secos e quentes, também aumenta o risco de eventos de maior intensidade", afirma Ana Ávila.

Ana observa que o El Niño pode estar associado tanto a períodos de seca quanto a episódios de chuva intensa, dependendo da região analisada. Por isso, o fenômeno é frequentemente relacionado ao aumento da ocorrência de eventos extremos em diferentes partes do globo.

Ela destaca, entretanto, que o El Niño e o aquecimento global são processos distintos. Enquanto o primeiro é um fenômeno climático natural e temporário, ligado ao aquecimento das águas do Pacífico, o segundo representa uma elevação persistente da temperatura média do planeta.

"Quando os dois ocorrem simultaneamente, seus efeitos podem se somar, favorecendo condições mais propícias para eventos extremos, que tendem a se tornar mais frequentes e, em alguns casos, mais intensos", explica.