O vício que virou propaganda

Por Victor Corrêa*

Dia sim, outro também, aparece a história de alguém que se perdeu nas bets. O vício em jogo não nasceu com os aplicativos. O Brasil conhece essa história desde os tempos em que o jogo do bicho vivia seu auge, sustentado pela contravenção. A diferença é que agora a aposta ganhou escala, propaganda, influenciador, patrocínio esportivo e aparência inofensiva de entretenimento.

Jogo de azar vicia. Não é fraqueza moral, falta de caráter ou simples irresponsabilidade financeira. É um transtorno capaz de sequestrar a relação da pessoa com recompensa, perda, esperança e controle. E quando o transtorno se instala, a pessoa raramente percebe sozinha.

As bets são perigosas porque não vendem apenas jogo. Vendem a sensação de que a próxima tentativa pode consertar a anterior. É aí que a armadilha se fecha: a perda vira convite para insistir, o ganho vira prova de que vale continuar, e a esperança passa a funcionar como combustível da compulsão. O que começa como diversão pode virar tentativa de recuperar o que foi perdido. Quando isso acontece, a pessoa já não aposta por prazer. Aposta para tentar sair do buraco que a própria aposta abriu.

O SUS registrou mais de 10 mil atendimentos relacionados a jogo patológico entre 2018 e 2025. São os casos que chegaram ao serviço público. Os que ficaram no silêncio da casa, da dívida e da vergonha ninguém sabe contar.

Por que alguém que não tem dinheiro aposta o que não tem?

Porque, para quem vive no aperto, a aposta nem sempre aparece como lazer. Às vezes aparece como atalho. Como promessa de virada. Como a única janela aberta quando emprego, salário, crédito e futuro parecem fechados. As bets entenderam esse vazio antes do Estado. E lucraram com ele.

Não é coincidência que beneficiários do Bolsa Família tenham movimentado cerca de R$ 3 bilhões em apostas em um único mês, em agosto de 2024. O dado assustou, mas talvez não tenha surpreendido quem conhece o Brasil real. Não é falta de juízo. É falta de saída. É desespero com interface amigável.

Quando mais de meio milhão de pessoas precisaram pedir ao Estado para serem impedidas de apostar, já não estamos falando apenas de entretenimento. Entre os que recorreram à Plataforma de Autoexclusão criada pelo governo em dezembro de 2025, 41% disseram ter perdido o controle sobre o jogo. A política pública chegou quando o controle já havia sido perdido.

A dependência em jogo também carrega vergonha. Muita gente demora a procurar ajuda porque ainda interpreta o próprio adoecimento como falha moral. Perde dinheiro, mente para a família, tenta recuperar o prejuízo, afunda mais um pouco. A aposta raramente destrói apenas uma conta bancária. Atravessa a casa. Afeta casamento, aluguel, comida, confiança, sono, filhos, pais, irmãos.

O público das apostas também tem rosto. Os homens são maioria entre os apostadores recentes, e a maior concentração está entre adultos de 25 a 49 anos. Mas o dado mais preocupante talvez venha antes: a propaganda não espera a maioridade.

A estética das bets já está nas redes, nos vídeos, no futebol e no vocabulário digital de crianças e adolescentes. A publicidade não vende apenas aposta. Vende adrenalina, pertencimento, virada de vida, esperteza, domínio sobre o acaso. Vende a ideia de que é possível vencer o sistema com um palpite. O problema é que o sistema, quase sempre, vence de volta.

Por isso, o movimento recente de artistas e influenciadores contra a publicidade das bets importa. Caetano Veloso, Anitta e outros nomes do setor cultural integram o coletivo 342 Artes, que lançou a campanha #BlockNoTigrinho para alertar sobre os impactos sociais e de saúde pública das apostas.

A cantora Simone Mendes recusou R$ 64 milhões em contratos de propaganda de bets. Quando uma imagem pública deixa de aceitar dinheiro de uma plataforma de apostas, algo muda no ambiente. Não resolve o problema, mas ajuda a romper a normalidade.

Quando um ídolo associa sua imagem a uma bet, aquilo deixa de parecer risco e passa a parecer hábito. Entra no intervalo do jogo, na camisa do time, no feed, no meme, na conversa de bar. Vai perdendo a cara de vício e ganhando a cara de lazer.

A conta também chega ao país. Quando a aposta vira dívida, depressão, ruptura familiar e risco de suicídio, o prejuízo deixa de ser apenas individual.

Estimativas apontam que os danos associados às apostas podem custar R$ 38,8 bilhões por ano ao Brasil, sendo R$ 30,6 bilhões ligados à saúde.

O SUS montou respostas, com autoteste, teleatendimento e encaminhamento para a rede psicossocial. Mas há uma diferença enorme entre oferecer uma porta de saída e permitir que a porta de entrada para o vício fique escancarada, iluminada por propaganda, patrocínio e influenciador.

O Estado demorou a reconhecer a dimensão do problema. Regulou, arrecadou, autorizou publicidade, permitiu que o mercado ocupasse o imaginário popular e só depois começou a correr atrás do dano.

Saúde mental não é só consultório, diagnóstico ou remédio. Também é regulação, publicidade, renda, proteção social e limite para mercados que lucram com a vulnerabilidade. O mesmo Estado que autoriza a expansão de um setor precisa responder pelo sofrimento que esse setor ajuda a produzir.

*Jornalista, mestre e doutorando em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getulio Vargas