Asfalto no Parque Linear do Capivari, em Campinas, gera críticas entre ambientais e moradores

Por Moara Semeghini - Campinas

A aplicação de asfalto na pista de caminhada do Parque Linear do Capivari, no entorno da Lagoa do Mingone, em Campinas, gerou questionamentos entre moradores, ambientalistas e representantes da sociedade civil

A aplicação de asfalto na pista de caminhada do Parque Linear do Capivari, no entorno da Lagoa do Mingone, em Campinas, tem gerado questionamentos entre moradores, ambientalistas e representantes da sociedade civil. O espaço, amplamente utilizado para atividades físicas e lazer, passa por intervenção da Prefeitura que substitui o piso de terra por pavimentação asfáltica.

A principal crítica é que, por se tratar de uma área ambiental e próxima a um corpo d’água, o local exigiria soluções mais sustentáveis e permeáveis, em vez do uso de asfalto convencional.

O presidente do Conselho Municipal de Mobilidade Urbana, Juarez Bispo Mateus, classificou a medida como inadequada. Segundo ele, o entorno da lagoa é uma área estratégica prevista há décadas para a consolidação do Parque Linear do Capivari.

“Em uma atitude irresponsável da gestão, junto com o administrador regional, estão jogando asfalto nesse espaço, que é um espaço importante, que a população faz caminhada, que é no entorno da lagoa. Existem outras formas de manutenção, como correção de buracos, sem a necessidade de aplicar asfalto. Trata-se de uma intervenção que contradiz princípios ambientais, especialmente por estar ao lado de uma lagoa e de um córrego”, afirmou.

Ele também informou que moradores e entidades da sociedade civil se organizaram em uma reunião para discutir o tema e elaborar encaminhamentos. O encontro reuniu representantes do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema), do Fórum Ambiental e da Câmara Municipal, com possibilidade de envio de ofícios à Prefeitura e ao Ministério Público.

Do ponto de vista ambiental, especialistas alertam que o asfalto convencional apresenta impactos relevantes. Por ser derivado do petróleo, um recurso não renovável, sua produção envolve a emissão de gases de efeito estufa e compostos tóxicos.

Além disso, o material provoca a impermeabilização do solo, dificultando a infiltração da água da chuva e podendo contribuir para alagamentos e redução do lençol freático. Outro efeito é a intensificação das chamadas ilhas de calor, já que o asfalto absorve e retém altas temperaturas.

Há ainda o risco de contaminação por escoamento superficial, já que resíduos químicos presentes no material podem ser carregados pela chuva até a lagoa. Segundo o engenheiro florestal e agrônomo José Hamilton, membro do Comdema, o ideal seria a adoção de soluções que mantenham a permeabilidade do solo.

"Na beira de um código, ao lado de uma lagoa, há outras formas na verdade de fazer os ajustes que precisam ser feitos, se tem buraco, tapar o buraco, mas sem precisar jogar asfalto, que aí seria realmente uma ação nociva que contradiz tudo aquilo que a gente pensa do ponto de vista ambiental e pensar do ponto de vista de uma lagoa, ao lado de uma lago", afirma Juarez. “O mais indicado, principalmente em áreas próximas à água, seria utilizar materiais como saibro, bloquetes, paralelepípedos ou pisos intertravados, que permitem infiltração e reduzem impactos ambientais”, explicou.

Alternativas como pavimentos intertravados, concreto permeável ou até mesmo bica corrida compactada são apontadas como opções comuns em pistas de caminhada e corrida, por aliarem segurança, conforto e menor impacto ambiental.

Em nota, a Prefeitura informou que o Parque Linear José Mingone foi reaberto no último sábado (25) após serviços de limpeza e manutenção. Entre as intervenções realizadas, está a pavimentação da pista de caminhada com asfalto, medida que, segundo o Executivo, atende a uma demanda dos frequentadores.

De acordo com a administração municipal, a mudança busca ampliar a acessibilidade e reduzir riscos de acidentes, especialmente para idosos, crianças e pessoas com mobilidade reduzida. A Prefeitura também argumenta que a pavimentação contribui para evitar o assoreamento da lagoa, já que a pista anterior, de terra, favoreceria o carreamento de sedimentos.

O parque, inaugurado em 2009, possui cerca de 115 mil metros quadrados e oferece infraestrutura de lazer, incluindo lagoa, quadras esportivas, pista de caminhada e equipamentos de ginástica.

Apesar da justificativa oficial, moradores defendem que a discussão sobre o modelo de intervenção ainda precisa ser aprofundada, especialmente diante do caráter ambiental da área e da existência de alternativas técnicas consideradas mais sustentáveis.

Saiba mais:

O asfalto tradicional não é considerado um material ecológico. Ele é derivado do petróleo, um recurso não renovável, e está associado a impactos ambientais relevantes ao longo de todo o seu ciclo, da produção ao uso.

Entre os principais problemas apontados estão:

. Origem fóssil: o asfalto é feito a partir do betume, um derivado do petróleo cuja produção libera gases de efeito estufa (GEE).
. Emissões tóxicas: para aplicação, o material precisa ser aquecido a cerca de 200 °C, liberando compostos orgânicos voláteis (COVs), que poluem o ar e podem afetar a saúde.
. Impermeabilização do solo: a camada asfáltica impede a infiltração da água da chuva, o que pode aumentar o risco de alagamentos e reduzir a recarga do lençol freático.
. Ilhas de calor: por ser escuro e reter calor, o asfalto contribui para o aumento da temperatura nas cidades.
. Risco de contaminação: ao longo do tempo, resíduos químicos podem ser carregados pela água da chuva, atingindo o solo, rios e lagoas.
. Alternativas mais sustentáveis

Para reduzir esses impactos, especialistas apontam soluções como:

. uso de asfalto-borracha, que reaproveita pneus;
. asfalto ecológico, com menor temperatura de aplicação ou materiais reciclados;
e, principalmente em áreas de lazer, pisos drenantes, como bloquetes, concreto permeável e saibro compactado, que permitem a infiltração da água e menor impacto ambiental.

 

 

Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas - A aplicação de asfalto na pista de caminhada do Parque Linear do Capivari, no entorno da Lagoa do Mingone, em Campinas, gerou questionamentos entre moradores, ambientalistas e representantes da sociedade civil

 

Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas - A aplicação de asfalto na pista de caminhada do Parque Linear do Capivari, no entorno da Lagoa do Mingone, em Campinas, gerou questionamentos entre moradores, ambientalistas e representantes da sociedade civil