Servidores do CS Centro suspendem atendimentos após casos de violência e falta de médicos em Campinas

Carta do Centro de Saúde denuncia agressões, superlotação e falta de segurança

Por Moara Semeghini - Campinas

Os trabalhadores do Centro de Saúde (CS) Centro, localizado na Rua Padre Vieira, 1145, na região central de Campinas, anunciaram a suspensão das atividades de rotina nesta segunda

Os trabalhadores do Centro de Saúde (CS) Centro, localizado na Rua Padre Vieira, 1145, na região central de Campinas, anunciaram a suspensão das atividades de rotina nesta segunda-feira (30). A decisão foi divulgada por meio de uma carta aberta à comunidade, emitida na última quarta-feira (25), após relatos de episódios de violência dentro da unidade, incluindo agressões a profissionais, além de déficit de médicos, superlotação, falta de condições adequadas de segurança e denúncias de descaso por parte da administração municipal.

Das cinco equipes que compõem a unidade, três estão sem médico de referência, o que, segundo os servidores, deixa mais de 12 mil pessoas sem atendimento regular.

Os servidores relatam que profissionais foram vítimas de assédio sexual dentro da unidade e agressões físicas graves. Em um dos episódios mais recentes, ocorrido na quarta-feira (25), servidores foram agredidos e equipamentos foram destruídos por usuários devido à falta de vagas.

Em um trecho, a carta diz: "Esta é uma decisão difícil, mas necessária, tomada após episódios insustentáveis de violência e descaso institucional que colocam em risco a vida de servidores e pacientes".

Segundo o documento, "a situação no CS Centro atingiu um ponto de ruptura. Não se trata apenas de 'muito trabalho', mas de uma ameaça real à integridade física".

A falta de médicos é outra questão crítica, que, segundo os trabalhadores, contribui para o aumento da tensão na unidade e culmina, muitas vezes, em agressões e violência. "Das cinco equipes da unidade, três estão sem médicos de referência. Isso significa que mais de 12 mil pessoas estão desassistidas por culpa da falta de reposição da Prefeitura", diz outro trecho da carta.

A "superlotação extrema" é outro problema grave. O CS Centro possui mais de 24 mil cidadãos cadastrados, número que ultrapassa a capacidade considerada segura, de 17 mil usuários, conforme parâmetros da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB).

De acordo com os funcionários, a falta de segurança é outro obstáculo enfrentado. O prédio não possui barreiras de proteção, rotas de fuga para os profissionais nem vigilância capacitada para mediar conflitos, deixando funcionários e pacientes expostos a situações de perigo e risco.

Atendimento digno

"Trabalhar com medo não é prestar assistência; é sobreviver. Quando um profissional é agredido ou adoece por sobrecarga, a comunidade perde o seu vínculo de cuidado. A prefeitura tem ciência de todos os pedidos de reposição de funcionários - médicos, técnicos e Agentes Comunitários de Saúde (ACS) - e melhorias na segurança, mas tem ignorado os apelos desta unidade", diz outro trecho da carta.

Os servidores também pedem a reestruturação do modelo de atendimento da unidade. Segundo eles, o centro de saúde vem sendo pressionado a atuar simultaneamente como Unidade Básica de Saúde (UBS) e Unidade de Pronto Atendimento (UPA), sem a estrutura necessária para isso.

Reivindicações

Além da reposição imediata de médicos, técnicos e agentes de saúde, os trabalhadores cobram da Prefeitura a implementação de medidas efetivas de segurança, como a presença fixa da Guarda Municipal ou de segurança armada.

Na carta, os servidores reivindicam "a contratação imediata de médicos, técnicos e Agentes Comunitários de Saúde (ACSs) para as vagas em aberto; segurança efetiva: adequação do prédio para garantir a segurança de quem atende e de quem espera. Presença fixa da Guarda Municipal ou segurança armada que proteja as pessoas, e não apenas o patrimônio; reestruturação do modelo de trabalho: Chega de sermos cobrados como UBS e UPA ao mesmo tempo. Exigimos estrutura digna para o que nos propomos a fazer".

Apesar da paralisação, os trabalhadores ressaltam que o movimento não é contra os usuários e pedem compreensão da população. "Como você pode ajudar? Pedimos o apoio e a compreensão de toda a comunidade. A nossa revolta não é contra o usuário, mas contra a gestão municipal que nos nega o básico. Não direcione sua insatisfação ao trabalhador. Registre sua reclamação nos canais oficiais exigindo que a Prefeitura de Campinas garanta médicos e segurança no CS Centro".

Os servidores orientam que reclamações sejam direcionadas aos canais oficiais da Administração, como a Ouvidoria da Saúde, pelos telefones 0800 275 0620 ou 156.

"Pelo direito de trabalhar e ser atendido com dignidade e segurança", finaliza a carta assinada por trabalhadores do CS Centro, em Campinas, no dia 25 de março de 2026.

Conselho Municipal de Saúde cobra soluções

O presidente do Conselho Municipal de Saúde, Lúcio Rodrigues, afirmou que a falta de profissionais e a incompletude das equipes já vêm sendo discutidas há meses no município. Segundo ele, o conselho solicitou, no ano passado, uma reunião com o Ministério Público para tratar do tema.

O encontro com o promotor Daniel Julian foi realizado no dia 11 de março e contou com a participação de membros da executiva do Conselho e outros conselheiros. Na ocasião, foram debatidos problemas como a falta de trabalhadores nas equipes do Programa de Saúde da Família, a necessidade de ampliação dessas equipes, especialmente em áreas mais vulneráveis, e preocupações com a terceirização nas unidades básicas.

De acordo com Rodrigues, uma nova reunião está marcada com o secretário municipal de Saúde para esta segunda-feira (30), às 10h, na sede da pasta. “Vamos colocar exatamente o que já levamos ao Ministério Público: a necessidade de ampliação dos trabalhadores, a complementação das equipes e a questão da terceirização”, afirmou.

O conselheiro também defendeu que o Conselho pode atuar em parceria com a Secretaria de Saúde, desde que haja diálogo e respeito às diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), como universalidade, integralidade e equidade no atendimento.

Além disso, Rodrigues convocou a população para um ato em defesa da saúde pública no dia 7 de abril, Dia Mundial da Saúde. A concentração está prevista para as 16h, na Catedral Metropolitana de Campinas.
A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de Campinas e aguarda posicionamento.

Confira, na íntegra, a resposta da Prefeitura de Campinas:

A Secretaria de Saúde informa que:

- Repudia qualquer tipo de violência e que a equipe do CS foi acolhida pelos gestores da SMS logo após a ocorrência. O paciente responsável pela agressão foi retirado do local pelo Samu. Já o acompanhante, que participou da ação, prestou depoimento à polícia e foi liberado. Foi registrado boletim de ocorrência e houve apoio da Guarda Municipal.

- A Secretaria de Saúde não apoia a paralisação da unidade, uma vez que o ato afeta a população. No entanto, esclarece que está em constante contato com a Secretaria de Gestão de pessoas para traçar estratégias que acabem com este tipo de ocorrência.

- A pasta reconhece o aumento constante na demanda pelos serviços do SUS, fato que acontece em todo o país, e tem discutido estratégias para absorver o crescimento da SUS dependência, que aumentou de 802.415 cadastros em 2024 para 907.931 em 2025. Os atendimentos dos 69 centros de saúde saltaram de 4.331.908 em 2024 para 5.213.103 no ano passado.

- A Prefeitura de Campinas investe de maneira contínua na expansão e qualificação da assistência do SUS Municipal. Desde 2021, foram contratados cerca de 3 mil profissionais de saúde, sendo que 761 são médicos.