Sindicato dos Delegados de SP lança campanha e acusam Tarcísio de promessas não cumpridas

Por Moara Semeghini - Campinas

'Governador Tarcísio, quando a polícia é desvalorizada, a criminalidade aumenta', diz outdoor

O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) lançou na última semana uma campanha pública para denunciar o que classifica como “promessas não cumpridas” do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). A entidade afirma que pretende “escancarar o sucateamento da Polícia Civil” e cobrar valorização salarial e estrutural da categoria.

A campanha tem espalhado outdoors nas principais rodovias do estado, em várias cidades do interior e litoral, para reclamar de baixos salários e falta de estrutura. Os outdoors estão instalados em nas vias de grande circulação no interior paulista, entre elas a Rodovia dos Bandeirantes, na altura do km 111, em Campinas, no sentido São Paulo com os dizeres: "Governador Tarcísio, quando a polícia é desvalorizada, a criminalidade aumenta! Valorização, já! - Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp)".

“A população precisa saber, de fato, como os policiais civis são tratados por este governo”, afirmou a presidente do Sindpesp, delegada Jacqueline Valadares. Segundo ela, o discurso oficial de fortalecimento da segurança pública não corresponde à realidade nas delegacias. “A verdade precisa ser dita: trata-se de uma gestão que não entrega salários dignos para aqueles que enfrentam facções criminosas e têm carga de trabalho extenuante.”

Segundo o sindicato, as promessas eleitorais do governador, feitas na campanha de 2022 na corrida ao Palácio dos Bandeirantes, também estão sendo lembradas e cobradas na ação.

“A realidade nas Delegacias é dura. E quando o Estado falha com os policiais, quem paga o preço é o povo. É a segurança do dia a dia da sociedade que, na ponta, está em jogo. Nos municípios do interior, a violência, em decorrência da falta de investimentos por parte do Governo do Estado, também é preocupante”, alerta a líder sindical.

A ausência de uma política de valorização salarial leva à alta evasão de profissionais, de acordo com Jacqueline. Delegados, por exemplo, recebem o 4º pior salário do País - entre os 27 estados da federação. "A falta de investimentos na Segurança Pública é geral. Para se ter ideia, São Paulo, estado mais rico do Brasil, ocupa a penúltima posição no ranking de investimento per capita nessa área, conforme aponta o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025", afirmou.

Foco no interior e em polos regionais como Campinas

A campanha teve início no dia 24 de fevereiro e contempla cidades-polo do interior, do Vale do Paraíba e do litoral, como Araçatuba, Bauru, Campinas, Piracicaba, Presidente Prudente, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, São José dos Campos, Santos e Sorocaba. Em Campinas, um dos painéis foi instalado em ponto estratégico da Rodovia dos Bandeirantes, com alto fluxo diário de veículos entre o interior e a capital.

De acordo com o sindicato, o objetivo é atingir principalmente a população do interior, onde, segundo a entidade, os efeitos da defasagem de efetivo seriam mais perceptíveis. “Muitas vezes o cidadão não entende por que demora para registrar um boletim de ocorrência ou por que uma investigação leva tanto tempo. Isso é reflexo direto da falta de policiais civis”, sustenta a presidente.

Além dos outdoors, o Sindpesp promove uma ofensiva digital nas redes sociais. Em um dos vídeos divulgados, a campanha questiona: “Você acha que é fácil investigar crime organizado, delitos violentos, golpes que destroem famílias enquanto estamos abandonados? A Polícia Civil de São Paulo está no limite. E não é só falta de efetivo, é falta de respeito. O que o governo do Estado não mostra é o policial que sai do plantão e, em vez de descansar com a família, vai fazer bico para completar o aluguel.

"É o delegado sobrecarregado, o investigador doente, é o profissional que dedicou sua vida à sociedade para acabar morto em uma emboscada. A gente cuida da sua segurança, mas fomos traídos por quem deveria cuidar da nossa. Tarcísio prometeu, mas não cumpriu.

"Usou nossas vidas, nosso futuro e a sua segurança como moeda política para se eleger. E agora? Governador, segurança pública se faz com investimentos e salários dignos. Uma Polícia Civil esgotada, enxugando gelo, é uma sociedade em risco", afirma a policial no vídeo.

O material afirma ainda que policiais recorrem a “bicos” para complementar renda e fala em sobrecarga e evasão de profissionais.

Déficit de efetivo e evasão

Segundo dados apresentados pelo sindicato, o déficit atual na Polícia Civil paulista é de 14.377 profissionais, entre delegados, escrivães, investigadores, agentes, peritos e médicos-legistas. Entre 2023 e janeiro de 2026, foram registradas 5.760 admissões, mas também 3.691 desligamentos, por aposentadorias, exonerações e outros motivos. Somente em janeiro deste ano, houve 113 baixas.

Para a entidade, o número demonstra que a reposição não tem sido suficiente para recompor o quadro. “Não adianta apenas contratar. Se não houver política de valorização real, o Estado continua perdendo profissionais experientes”, afirma Jacqueline.

Debate sobre reajuste salarial

A discussão ganhou novos contornos após reportagem publicada pela Veja em fevereiro, que repercutiu nota do Sindpesp contestando declarações do governador sobre reajuste acumulado de 45,2% aos policiais civis entre 2022 e 2025.

Segundo a publicação, o sindicato classificou como “fake news” os dados apresentados pelo governador. Em nota divulgada e reproduzida pela revista, a entidade afirmou que o percentual incluiria reajustes concedidos em gestão anterior, o que, na avaliação do sindicato, “não reflete os valores efetivamente recebidos pelos Delegados de Polícia no atual mandato”.

O trecho publicado pela Veja diz: “O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) divulgou uma nota nesta sexta-feira classificando como ‘fake news’ os dados apresentados pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em reunião com associações policiais apontando que a classe acumulou, entre 2022 e 2025, um aumento salarial de 45,2%.”

Para o Sindpesp, a forma de apresentação dos números distorceria a realidade e afastaria o debate sobre a defasagem remuneratória e a evasão de profissionais.

Ano eleitoral e prazo legal

A campanha ocorre em ano eleitoral. Pela legislação, reajustes salariais ao funcionalismo público ficam vedados a partir de determinado período anterior às eleições, neste ano, a partir de maio. Até lá, eventual aumento precisaria ser encaminhado pelo Executivo por meio de projeto de lei à Assembleia Legislativa.

Para o sindicato, o momento é decisivo. “Se o governador pretende falar em Segurança Pública no próximo pleito, deve começar cumprindo o que deve à Polícia Civil: remuneração digna, plano de carreira justo e condições concretas para enfrentar o crime organizado”, declarou a presidente da entidade.

Resposta do governo

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública do Estado informou, em nota, que mantém diálogo permanente com as entidades representativas e reconhece a importância do trabalho das carreiras policiais.

Segundo a pasta, a valorização dos profissionais e o fortalecimento das instituições são prioridades da atual gestão, com ações voltadas à recomposição dos efetivos e à melhoria das condições de trabalho. O governo afirma que, entre 2022 e 2025, policiais civis e militares acumularam reajuste salarial de 45,2%, enquanto policiais penais tiveram aumento de 54% no mesmo período.

A gestão também sustenta que houve reforço no efetivo, com a contratação de 15 mil novos policiais no estado, incluindo 4 mil vagas para a Polícia Civil, classificadas como a maior nomeação da história da corporação.

Agência SP - O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) iniciou nesta semana uma campanha pública contra o que classifica como "promessas não cumpridas" do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos)