Quando o Brasil perdeu a capacidade da indignação coletiva?
Que país queremos para os nossos filhos e netos? Um Brasil que só punirá nas urnas o político flagrado batendo em um cachorrinho e que é perdoado pelos eleitores pelas várias malas recheadas de dinheiro da corrupção achados em seu apartamento? O que aconteceu ao povo que se tornou benevolente com o roubo do dinheiro público e até com os casos mais hediondos, como desvios de verbas da saúde ou de respiradores fantasmas em plena pandemia?
Quando o Brasil perdeu a sua capacidade de se indignar? Culpa da imprensa, do judiciário ou da falta de pena de morte na nossa legislação e da banalização da corrupção?
São tantos os escândalos envolvendo homens públicos que perdemos a noção de grandeza. Milhão virou trocado e bilhão virou salário mínimo. Há uma década, um escândalo com as cifras do INSS seria inimaginável. Nem na época do petrolão, cifras com bilhões existiam.
A sociedade brasileira parece ter colapsado na percepção do dolo. Cozinha planejada em triplex ou pedalinhos em sítio viraram prêmio de construtora a ex-presidente. As urnas deixaram de ser um instrumento de punição pública. Até o voto passou a ser comprado e até justificar a corrupção com a expressão "é dinheiro para campanha". Crime eleitoral virou punição até desejável pela classe política. Paga-se com multa e não dá cadeia.
A corrupção está chegando a um estágio supremo, na qual a sociedade fica leniente com a falta de ética e o respeito ao bem público.
O gatilho punitivo só é acionado com crimes compreensíveis às massas, como bater em um animal ou na esposa. Fora isso, a leniência reina, com a corrupção chegando ao sistema judiciário com supersalários e super contratos de parentes. O ápice é quando são devolvidos a réus confessos valores milionários oriundos do crime, só porque as provas foram anuladas por decisões monocráticas.
As pesquisas eleitorais mostram que até políticos filmados recebendo maços de dinheiro despontam como preferidos nas próximas eleições. Como explicar esta amnésia coletiva?
O fim da Lava Jato transformou o Brasil no país da impunidade. Aliás, o país é governado por um ex-presidiário que nomeou magistrados na Corte Suprema. Pôde voltar à presidência por uma decisão monocrática de outro magistrado nomeado em governo anterior. Esses ministros, escolhidos politicamente, condenaram um ex-presidente por crimes que não foram efetivamente cometidos.
Com essas contaminações chegando até a níveis supremos, o que resta à sociedade brasileira? Eleger o menos bandido em outubro próximo?
O perigo é que a própria imprensa começa a lavar as mãos ao fazer denúncias que não resultarão em punição pelos eleitores que também são leitores. Eles se indignam bem mais com a morte do cachorrinho Orelha, em Santa Catarina, do que com os milhões roubados dos aposentados pelo esquema bilionário de descontos fantasmas do INSS. Talvez agora, com a quebra de sigilo do Lulinha, o primogênito do presidente Lula, comece a se materializar o sentimento popular com reflexo nas urnas. Infelizmente Lulinha não foi o único filho de presidente que foi abduzido pela corrupção e pelas amizades corruptoras.
Será que os olhos da sociedade estão embaçados por uma forte catarata que não se permite enxergar com clareza os crimes que estão sendo cometidos como se houvesse um festival de corrupção e que, mesmo explicados e denunciados, não causam indignação? Por que a sociedade brasileira se tornou tão leniente?
É este o país que estamos deixando de legado para as próximas gerações? Que país é este no qual a morte do cachorrinho Orelha comove e mobiliza mais a opinião pública, do que o roubo de milhares de velhinhos patrocinados pelo careca do INSS?
