Ataque a murais e agressões interrompem recepção de calouros no IFCH da Unicamp
Um episódio de agressão e vandalismo interrompeu parte das atividades de recepção aos calouros da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) na segunda-feira (23), no campus de Barão Geraldo. A confusão ocorreu nas dependências do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e terminou com ao menos três estudantes feridos.
Segundo entidades estudantis, os indivíduos envolvidos não são alunos da universidade nem possuem qualquer vínculo com a instituição. O grupo teria iniciado provocações aos estudantes e passado tinta branca sobre muros com intervenções artísticas e grafites produzidos por alunos. Além das agressões verbais, os invasores começaram a apagar pinturas e manifestações visuais no prédio, até que a situação evoluiu para confronto físico, deixando estudantes com ferimentos leves. Registros em foto e vídeo divulgados por centros acadêmicos mostram momentos de tensão, correria e alunos atingidos durante as atividades de recepção.
De cordo com relatos de alunos que presenciaram a ação, um grupo de oito a nove homens ligados ao Movimento Brasil Livre (MBL) e ao partido Missão esteve no local portando latas de tinta branca. O objetivo seria cobrir grafites e intervenções artísticas em paredes próximas à biblioteca do IFCH, incluindo manifestações de coletivos LGBTQIAPN+ e obras ligadas ao movimento negro.
De acordo com o diretor do IFCH, Sávio Machado Cavalcante, esta não é a primeira vez que o instituto é alvo de ações semelhantes. “Já tivemos algo em torno de quatro ou cinco eventos como esse, com grupos principalmente do MBL e outros ativistas de extrema direita, que vêm fazer vídeos não autorizados na universidade, de acordo com suas pautas”, afirmou.
Ainda segundo o diretor, alguns dos grafites atingidos foram realizados com ciência da direção da unidade. O grupo, no entanto, não possuía autorização nem para realizar filmagens nem para intervir nas paredes.
“O que aconteceu foi que, ao verem eles colocando tinta branca em grafites de artistas daqui e de pessoas do movimento negro, estudantes da Letras e do IFCH foram questionar o que estava acontecendo. Quando perceberam que estavam intervindo na parede, tentaram tomar a tinta. Nesse momento, começou um empurra-empurra e os militantes iniciaram agressões físicas”, relatou Cavalcante.
Três alunos tiveram lesões corporais. Um deles sofreu um corte na boca, precisou de atendimento hospitalar e já recebeu alta. Outro estudante teve machucados na perna e na mão após receber chutes e socos. Um boletim de ocorrência foi registrado por uma das vítimas. A universidade também prepara um registro institucional do caso. Segundo o diretor, a Procuradoria Geral da Unicamp está reunindo documentos e materiais para encaminhamento à polícia.
A reportagem teve acesso a prints de perfis de Instagram de alguns dos envolvidos, enviados por pessoas que preferiram não se identificar. Também foram localizados, nas redes sociais, conteúdos publicados pelos próprios integrantes do grupo relacionados à ação no campus. De acordo com o diretor, há indícios de que o episódio tenha sido premeditado.
“Conseguimos identificar materiais na internet que mostram que a coisa toda estava premeditada para criar um tipo de confusão e transformar isso em material de campanha. É um ano eleitoral, e isso faz parte de uma forma de agitação e propaganda desses grupos”, disse.
Ele classificou o caso como preocupante e apontou uma escalada de violência. “Agora houve uma atuação bem mais agressiva, a ponto de provocar lesões corporais. Isso mostra uma escalada na forma como esses grupos vêm atuando”, afirmou.
Desde o ano passado, segundo Cavalcante, o IFCH adotou um protocolo para orientar a comunidade acadêmica a acionar imediatamente a vigilância do campus em situações semelhantes, a fim de evitar confrontos. No episódio de segunda-feira, porém, a ação foi rápida e não houve tempo para a chegada da segurança antes das agressões.
Reitoria repudia invasão e violência
Em nota oficial divulgada nesta terça-feira (24), a Reitoria da Unicamp repudiou a invasão e os atos de intimidação e agressão registrados no primeiro dia de aula.
“A universidade é um espaço de pluralidade, pautado pelo diálogo, não se submetendo a ações que busquem impor interesses por meio da violência ou da coerção”, diz o texto. A administração classificou episódios de invasão, filmagens não autorizadas e agressões como “intoleráveis” e uma “grave afronta à democracia, à autonomia universitária e à segurança de estudantes, funcionários e docentes”.
A Reitoria informou ainda que está adotando medidas administrativas e jurídicas para identificar os envolvidos e garantir a responsabilização pelos atos, além de se solidarizar com os estudantes e membros da comunidade acadêmica expostos à situação.
O caso segue sob apuração.
