Mesmo após promessas, falta de medicamentos persiste em centros de saúde de Campinas

Por Moara Semeghini - Campinas

Falta insulina em unidades das regiões do Campo Grande, nos Centros de Saúde do Parque Itajaí (foto) Jardim Bassoli, Satélite Íris, Sírius/Cosmos e também em Barão Geraldo

Usuários do SUS voltaram a relatar ao Correio da Manhã dificuldades para obter remédios essenciais nos Centros de Saúde de Campinas, mesmo após a Prefeitura afirmar que a situação seria normalizada com a implantação do novo almoxarifado da Saúde. 

Levantamento realizado pela reportagem no sistema municipal de consulta de medicamentos aponta que, das 68 unidades de saúde do município, 46 registravam indisponibilidade da Insulina Humana NPH 100 UI/ml no momento da verificação. O medicamento é de uso contínuo e essencial para pacientes diabéticos. Dezenas de medicamentos estão em falta nos Centros de Saúde de Campinas (confira a lista no fim da reportagem).

Um mês após as primeiras promessas de normalização, pacientes continuam enfrentando dificuldade para obter medicamentos essenciais, como a própria insulina e também a losartana potássica, utilizada no controle da pressão arterial, em diferentes regiões da cidade.

O problema vem se estendendo desde o final do ano passado, quando a empresa VTCLog assumiu, em dezembro, a gestão do almoxarifado e da dispensação para os equipamentos de saúde do município. A terceirização foi formalizada por três anos em contrato de R$ 19.892.000.

Procurada pela reportagem, a Prefeitura informou que a instabilidade na reposição ocorre em razão do processo de transição do antigo almoxarifado para o novo centro de distribuição.

Segundo a Secretaria de Saúde, as faltas seriam pontuais, e medicamentos de uso crônico e antibióticos vêm sendo repostos por meio de entregas emergenciais incluídas no cronograma. A pasta orienta ainda que a população pode retirar medicamentos em qualquer Centro de Saúde, independentemente do bairro de residência, e consultar a disponibilidade pelo site oficial remedios.campinas.sp.gov.br (Medicamentos e Vacinas nos Centros de Saúde). 

Apesar disso, usuários afirmam que percorrem diferentes unidades, fazem consultas pelo telefone 160 e ainda assim não conseguem retirar a medicação. Para pessoas com doenças crônicas, a interrupção no fornecimento representa risco direto à saúde.

Falta de insulina em diferentes regiões

No dia 10 de fevereiro, a agricultora periurbana Fátima Alzira Lopes dos Santos informou que o Centro de Saúde Campo Grande estava sem Insulina Humana NPH 100 UI/ml (uso contínuo). Já no dia 19, voltou a procurar a reportagem. “O Centro de Saúde do Parque Itajaí continua sem insulina”, relatou.

Segundo Fátima, o medicamento não está disponível em unidades das regiões do Campo Grande, nos Centros de Saúde do Parque Itajaí, Jardim Bassoli, Satélite Íris, Sírius/Cosmos e também em Barão Geraldo.

“Liguei no 160 e nem no Posto de Saúde de Barão Geraldo tem insulina”, afirmou. De acordo com ela, embora o site da Prefeitura permita consulta sobre a disponibilidade, na prática a busca tem sido frustrada.
Nesta sexta-feira (20), a conselheira do Centro de Saúde Jardim Bassoli, Geisa Rodrigues Gonçalves, também relatou dificuldades. Diabética, ela afirma que o tema foi discutido em reunião distrital realizada na véspera.

“Eu fui na reunião do Conselho de Saúde do distrito e perguntei sobre os medicamentos, porque eu sou diabética. Está faltando insulina para mim. No meu bairro não tem, no Campo Grande não tem. Estou em Barão Geraldo para ver se consigo”, contou.

Geisa utiliza a medicação duas vezes ao dia, na proporção 50/50, e afirma ter apenas uma ampola restante. “Se acabar, eu não tenho como tomar de novo.”

Ela relatou ainda que passou por um cateterismo há menos de quatro semanas e que sua diabetes está descompensada. “Nunca fica abaixo de 160. Eu preciso dessa medicação. E como eu, tem muitas pessoas.”

Reprodução/remedios.campinas.sp.gov.br - Consulta realizada pela reportagem no sistema municipal de disponibilidade de medicamentos aponta que, das 68 unidades de saúde do município, 46 registravam indisponibilidade da Insulina Humana NPH 100 UI/ml no momento da verificação

Medicamentos em falta nos CS

Além da insulina, o levantamento feito pela reportagem no sistema municipal aponta desabastecimento significativo de diversos outros medicamentos.

O carbonato de cálcio + colecalciferol (vitamina D), comprimido equivalente a 500 mg de cálcio e 400 UI de vitamina D, está em falta em todas as unidades consultadas. O mesilato de doxazosina 2 mg aparece indisponível em praticamente 100% dos centros de saúde (99%), assim como a isossorbida, a levodopa + benserazida de liberação prolongada (100 mg + 25 mg) e o mebendazol, todos com índices próximos a 99%.

A ciclobenzaprina e a nistatina solução oral (100.000 UI/ml) apresentam falta em cerca de 90% das unidades, enquanto a polimixina B + lidocaína solução otológica atinge 85%. Medicamentos como desogestrel (70%), sulfametoxazol + trimetoprima suspensão, etinilestradiol 0,02 mg + drospirenona 3 mg (a depender da apresentação), periciazina solução oral, enalapril 10 mg, estradiol 1 mg, itraconazol, nitrofurantoína, oseltamivir 75 mg e simeticona solução oral também apresentam desabastecimento expressivo.

Há ainda casos quase totais, como a medroxiprogesterona 10 mg, disponível em apenas um centro de saúde, e o metronidazol 4% solução oral, encontrado em apenas duas unidades. Antibióticos injetáveis como penicilina G benzatina e penicilina G procaína + potássica registram falta em cerca de três quartos da rede, assim como a tobramicina.

Denúncia e representação ao MP

As queixas ocorrem pouco mais de um mês após as primeiras reportagens sobre o tema. Em 15 de janeiro, o vereador Wagner Romão fez denúncia pública sobre a falta de medicamentos e posteriormente protocolou representação no Ministério Público solicitando providências em relação ao desabastecimento após a terceirização do centro de distribuição da Secretaria Municipal de Saúde.

Ambulâncias

Em janeiro, após as primeiras denúncias, surgiram relatos de que ambulâncias do SAEC (Serviço de Atendimento a Pacientes Especiais e Crônicos) teriam sido utilizadas para realizar entregas de medicamentos aos Centros de Saúde. Em nota enviada à reportagem na ocasião, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que as entregas foram feitas por veículos dos distritos de saúde, com apoio pontual de carros do SAEC, sem prejuízo ao atendimento de pacientes.

Imagens encaminhadas à reportagem mostraram veículos do SAEC realizando entregas em unidades básicas. Segundo relatos ouvidos sob reserva, a utilização desses veículos teria ocorrido em razão de dificuldades logísticas da empresa terceirizada responsável pela distribuição. Atualmente, não há novos registros de uso desses veículos para transporte de medicamentos, mas o episódio foi incluído na representação apresentada ao Ministério Público.

Confira, na íntegra, o posicionamento da Prefeitura

Sobre os casos de falta de medicamentos nas farmácias, a pasta esclarece que a instabilidade na reposição de insumos nas unidades se da por conta do processo de transição do antigo almoxarifado para o novo centro de distribuição. As faltas pontuais de medicamentos de uso crônico e antibióticos são atendidas por reposições emergenciais que entram no cronograma de entregas.

A população pode retirar medicamentos e receber vacinas em qualquer Centro de Saúde, independentemente do bairro de residência. A consulta de disponibilidade por unidade pode ser feita no site: https://remedios.campinas.sp.gov.br/

Sobre a VTCLog

A VTC operadora logística Ltda - VTCLog já foi mencionada em investigações na CPI da Covid no Senado, em 2021, por suspeitas relacionadas a contratos com o Ministério da Saúde durante a pandemia. A empresa, no entanto, nega irregularidades sobre esses casos.