Campinas senta à mesa do turismo sustentável e assume liderança do interior

Por Por Patrick Bertholdo*

Representantes do trade turístico

A assinatura da Declaração de Belém para o Turismo Sustentável nesta última terça (10) em São Paulo, marca uma tentativa rara do próprio setor organizar uma “régua comum” de sustentabilidade e governança — com menos discurso e mais métrica. A proposta é alinhar critérios, indicadores e compromissos para toda a cadeia (hotelaria, agências, viagens corporativas, organizadores, atrações), com um recado explícito contra greenwashing - termo inglês que traduzido ao português seria algo como "lavagem verde", que é quando se vende uma imagem “sustentável”, sem práticas reais.

O peso institucional do ato também chama atenção pela composição: foram listadas como signatárias a Associação Brasileira de Empresas de Eventos (ABEOC Brasil), a Associação Brasileira de Agências de Viagens de São Paulo (ABAV-SP), a Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas (ABRACORP), a Associação Latino-Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (ALAGEV), a Associação de Marketing Promocional (AMPRO), a Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), a MPI Brasil, o Sistema Integrado de Parques e Atrações Turísticas (SINDEPAT), a União Nacional de Convention & Visitors Bureaux (entidades de destinos e bureaus de convenções e visitantes) e o Visite Campinas (Campinas e Região Convention & Visitors Bureau).

É aqui que Campinas ganha relevo político e econômico: entre as entidades de destino citadas nominalmente, o Visite Campinas aparece como a principal voz do interior em um pacto nacional que tende a influenciar padrões de contratação, exigências a fornecedores e, no limite, políticas públicas. “Nosso propósito, através de todas essas ações de disseminação e conscientização, muito direcionadas às práticas de ESG, é mitigar o impacto dos grandes eventos e da atividade turística na região”, afirma Luís Felipe Campos Almeida, presidente do Visite Campinas, em entrevista exclusiva ao Correio da Manhã. Toda essa centralidade não é simbólica: Campinas é a “capital” do interior paulista também na escala, com população estimada em 1.187.974 pessoas e PIB per capita de R$ 80.741,47 (IBGE), além de ancorar a Região Metropolitana com cerca de 3 milhões de habitantes. E há um elemento de posicionamento que conversa diretamente com investimento e confiança: no Global Cities Index (índice global de cidades) de 2025, da Oxford Economics, Campinas foi apontada como a melhor cidade do interior da América Latina para investimentos e a quarta melhor do Brasil.

No território, essa força se explica pelo peso do turismo de negócios e eventos — o universo MICE (turismo de reuniões, incentivos, congressos e feiras). Em 2024 (ano fechado), Campinas registrou 1.663 eventos; em 2023 foram 867. Em 2025, até agosto, a cidade já havia contabilizado 1.664 eventos, igualando (e superando por pouco) todo o volume do ano anterior, com impacto total de R$ 90,85 milhões (R$ 34,94 milhões diretos e R$ 55,91 milhões indiretos).

No recorte de mão de obra, o setor chegou a mais de 24,9 mil contratações em 2025 (até agosto), frente a 4.995 contratações no 1º semestre de 2024, expondo a potência social de uma cadeia que emprega em larga escala e pulveriza renda em centenas de fornecedores. Esse motor ganha tração com a logística: o sistema Anhanguera–Bandeirantes é corredor estruturante, com a Bandeirantes figurando no pelotão de elite da Pesquisa CNT, e a Dom Pedro I aparecendo entre as mais bem avaliadas; ao mesmo tempo, projetos em discussão em Brasília sobre licenciamento e gestão de resíduos em grandes eventos indicam que a régua regulatória tende a subir — reforçando o valor de um padrão nacional que antecipe rotinas e reduza improviso.

Na prática, a Declaração de Belém tende a projetar Campinas em posição de vantagem: dá protagonismo para influenciar padrões (em vez de apenas reagir), oferece acesso a metodologias e ferramentas que permitem comprovar desempenho — e não só “prometer” — e reforça a competitividade na captação de congressos e feiras que já chegam com exigências de sustentabilidade no briefing. Soma-se a isso um argumento técnico para orientar políticas municipais e compras públicas com base em indicadores, além do efeito multiplicador sobre hotelaria, alimentação, transporte e serviços técnicos. Com o peso de “cidade-polo” reconhecida por rankings de atratividade a investimentos, o recado fica claro quando a sustentabilidade vira métrica e a métrica vira regra, Campinas não será apenas coadjuvante; será interlocutora estruturante.