MPT apura conduta de escola particular após denúncia de racismo contra porteiro em Campinas; vereadora protocola representação

Por Moara Semeghini - Campinas

Relatórios do Disque 100 indicam que o serviço é cada vez mais acionado para registrar denúncias de racismo e injúria racial

O Ministério Público do Trabalho (MPT) abriu procedimento para apurar a conduta do Colégio Objetivo Barão Geraldo, em Campinas, após a denúncia de um ex-porteiro que afirma ter sofrido ofensas racistas de alunos e sido demitido depois de comunicar o caso à direção da escola.

Rodnei Ferraz procurou a Polícia Civil e registrou boletim de ocorrência relatando que foi chamado de “negro sujo”, “macaco” e “sub-raça” enquanto trabalhava na portaria da unidade.

Segundo ele, o episódio aconteceu em 15 de dezembro de 2025, quando três alunos do ensino médio estavam na escola para fazer provas de recuperação. Ao chamar a atenção do grupo por indisciplina, passou a ser alvo dos xingamentos.

“É revoltante, porque você se sente frágil, impotente diante de uma situação dessas”, disse.

Com 20 anos de experiência como porteiro, Rodnei estava havia quatro meses na escola. Ele afirma que comunicou o caso à direção, mas acabou desligado dias depois. Para o trabalhador, a demissão foi uma retaliação.

“A educação vem de berço e, naquele momento, eu me senti muito constrangido”, desabafou.

Além da investigação criminal conduzida pela Polícia Civil, o caso passou a ser acompanhado pelo MPT, que vai apurar possíveis falhas da instituição na proteção aos funcionários, eventual omissão diante do racismo e suspeita de retaliação.

A apuração foi motivada por uma representação protocolada pela vereadora Mariana Conti (PSOL). O pedido solicita a investigação das condições de trabalho na escola, com o processo em sigilo para proteger funcionários e evitar nova exposição das vítimas.

“Acionamos o Ministério Público do Trabalho para que investigue as graves denúncias de racismo. Pessoas e instituições envolvidas nesse absurdo precisam ser responsabilizadas”, afirmou a parlamentar.

Novo relato

Após a repercussão do caso, um comentário público feito no perfil da rede social da vereadora nas redes sociais trouxe um novo relato semelhante. Uma mulher que se identificou como ex-professora da escola afirmou ter sido demitida após mudança na direção e relatou episódios de racismo em sala de aula sem punição aos alunos.

“Eu fui professora nesse colégio. Sou professora de história e alunos foram racistas na minha aula e não tiveram punição alguma. Vocês não têm noção do que os funcionários passam nessa escola e de como os alunos acham que podem cometer crimes por pagam o seu salário”, escreveu no Instagram.

Providências pedidas

Na representação, a vereadora solicita que o MPT requisite documentos e informações da escola e da mantenedora, como registros de ocorrências, canais de denúncia, protocolos de prevenção e apuração de casos de discriminação, além de dados sobre desligamentos de funcionários.

Se forem constatadas irregularidades, o Ministério Público poderá adotar medidas como recomendações, termo de ajustamento de conduta (TAC) ou ação civil pública.

Repercussão

A Federação dos Professores do Estado de São Paulo (Fepesp) repudiou o episódio e classificou o caso como “grave e inaceitável, especialmente por ter ocorrido em ambiente educacional”. A entidade afirmou que nenhum trabalhador pode sofrer retaliação por denunciar práticas discriminatórias.

“Racismo é crime. Não há tolerância possível diante de qualquer manifestação discriminatória”, declarou a federação.

O que diz a escola

Em nota, o Colégio Objetivo Barão Geraldo afirmou que repudia qualquer ato de racismo e informou que o caso foi tratado “com extrema cautela, profunda atenção e seriedade”.

A instituição declarou que ouviu alunos, colaboradores e famílias, que os estudantes negaram a prática de ofensas racistas e que a acusação foi apurada internamente. A escola também negou relação entre a denúncia e a demissão do porteiro.

Segundo o colégio, o desligamento “não teve qualquer ligação com os fatos” e a unidade está colaborando com as autoridades. (Veja, abaixo, a nota na íntegra).

Disque 100

O episódio ocorre em meio ao aumento de denúncias de racismo no estado. Dados do Disque 100 apontam que São Paulo registrou 1.088 denúncias em 2025, alta de 20,2% em relação a 2024. Em Campinas, foram 26 registros no período.