Médico preso por matar cachorro a tiros em Campinas (SP) confessa ter matado outros animais
O médico Artur Udelsmann, de 76 anos, que foi preso em flagrante na quinta-feira (30) em Campinas (SP), após matar o cachorro dele, da raça rottweiler, com dois tiros na nuca do animal, confessou aos policiais militares que o prenderam que já sacrificou outros cachorros próprios, em ocasiões anteriores, com a finalidade de encerrar o sofrimento dos animais. Além de seringas, os PMs ainda encontraram, em posse do médico, um porrete de madeira manchado de sangue.
“A legislação brasileira não autoriza que o tutor ou qualquer terceiro dê fim à vida do animal por meios próprios, ainda que sob a alegação de sofrimento, sendo imprescindível a observância de critérios técnicos, éticos e legais, especialmente aqueles previstos nas normas que regem a atuação médico-veterinária, informa a advogada ambiental e de direitos dos animais, Angélica Soares”.
Contradição
Inicialmente, Udelsmann afirmou aos policiais que tentou eutanasiar o cachorro com uma injeção, para cessar o sofrimento do animal, que estaria debilitado por diabetes, mas que o cão convulsionou. Na sequência, afirmou ter dado dois tiros na nuca do rottweiler, com um revólver calibre 38.
A arma está em nome do médico, mas com o registro vencido desde de 2012. Foi apreendida com dez munições íntegras e duas deflagradas. No carro dele, um Volkswagen Polo, a perícia encontrou o corpo do cachorro dentro de um saco de lixo preto.
Foram encontrados também um pedaço de pau ensanguentado, três seringas (duas vazias e uma com substância amarronzada), um floconete de glicose e dois floconetes de cloreto de sódio.
Entretanto, o médico mudou a versão ao prestar depoimento no 1º Distrito Policial. Alegou que o disparo contra o cão teria sido acidental, ao tentar repelir uma suposta invasão de um suposto assaltante no imóvel. Apesar disso, Udelsmann manteve a confissão do porte ilegal da arma.
A mulher do indiciado, a enfermeira Elisabeth Dreyer, de 67 anos, declarou que o casal havia se mudado recentemente da casa onde estava o cachorro. Confirmou ter ouvido os disparos, mas negou a participação no crime. Afirmou ter ouvido os disparos enquanto esperava do lado de fora da casa.
Mas, segundo o boletim de ocorrência registrado pela Polícia Militar, o casal foi à casa onde morava por ter recebido reclamações dos vizinhos de que o cachorro estava latindo. A PM foi acionada via Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) após receber denúncia pelo telefone 190 devido a ruídos de disparos de arma de fogo. Chegando à casa, os agentes interceptaram o médico e a enfermeira deixando o imóvel.
Segundo a perícia, foram encontrados vestígios de sangue em um quarto anexo à garagem e panos sujos no veículo, que haviam sido 'limpos' tanto por Udelsmann, quanto por Dreyer.
O delegado plantonista que atendeu a ocorrência, Daniel Pirro Cerzosimo, não arbitrou fiança, pois a soma das penas máximas (pelos crimes de maus-tratos a animais e porte ilegal de arma de fogo) ultrapassa quatro anos de detenção.
O médico foi levado para a cadeia anexa ao 2º Distrito Policial de Campinas e passará por audiência de custódia nesta sexta-feira (30).
Já o corpo do rottweiler foi encaminhado para exame necroscópico por duas médicas-veterinárias nomeadas como peritas.
Justiça
A advogada ambiental e de direitos dos animais, Angélica Soares, lembra que “a atuação da Polícia Civil observou os requisitos legais para a lavratura do flagrante, cabendo agora ao Ministério Público e ao Poder Judiciário a análise do caso, sempre com respeito ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa”.
Ainda de acordo com Soares, “casos como este evidenciam a relevância da aplicação efetiva da legislação de proteção animal, que visa coibir práticas violentas e assegurar a tutela da vida e da dignidade dos animais, reconhecidos juridicamente como seres sencientes”.
A coordenadora jurídica do Conselho Municipal Proteção Defesa Animal (CMPDA), Franciane Vilar Fruch, acompanha o caso e questiona o fato do cachorro não parecer doente, estando grande e gordo, indicativo contrário à situação de um animal que esteja em estado crítico por diabetes.
Quem é Artur Udelsmann
Médico formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, com residência em anestesiologia pela mesma instituição. Mestre em farmacologia e doutor em anestesia e reanimação pela Université Louis Pasteur de Strasbourg (França). Pós-doutor pelo Montreal Children's Hospital da McGill University. Ex-professor do Departamento de Anestesiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e do Ambulatório de Dor do Hospital de Clínicas da universidade. Médico na área de terapia da dor na Fundação Centro Médico de Campinas. É ainda advogado pela Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).
O outro lado
Até o fechamento desta reportagem, o Correio da Manhã não conseguiu contatar as partes envolvidas. Mas, segue à disposição, oferece espaço para o posicionamento dos investigados.