Prefeitura diz que uso de ambulância para entrega de medicamentos não prejudicou atendimentos

Por Moara Semeghini - Campinas

Ambulância do SAEC: utilizadas para realizar entrega de medicamentos aos Centros de Saúde

Após denúncias de falta de medicamentos e insumos na rede municipal de saúde de Campinas, um novo episódio revela falhas na logística de distribuição após a terceirização do almoxarifado da Secretaria de Saúde. Entre as medidas adotadas para contornar o problema, ambulâncias e veículos oficiais estariam sendo utilizados para realizar entregas de medicamentos aos Centros de Saúde, serviço que é atribuição da empresa contratada. Segundo o vereador Wagner Romão (PT) e relatos ouvidos pela reportagem, após a terceirização do almoxarifado, ambulâncias do SAEC (Serviço de Atendimento a Pacientes Especiais e Crônicos) e do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) estariam sendo utilizadas para realizar a entrega de medicamentos aos Centros de Saúde.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que “não procede a informação de uso de ambulâncias do Samu para entregar medicamentos” e que a distribuição foi realizada por veículos dos distritos de saúde, com apoio pontual de carros do SAEC, sem prejuízo ao atendimento de pacientes.

Imagens encaminhadas à reportagem mostram veículos do SAEC realizando entregas em unidades básicas de saúde. O serviço, no entanto, é destinado exclusivamente ao transporte de pacientes que necessitam de atendimento contínuo, o que levanta questionamentos sobre o uso desses veículos e o impacto no atendimento aos usuários do sistema.

Segundo relatos de pessoas que preferiram não se identificar, a utilização das ambulâncias ocorre porque a empresa terceirizada não estaria conseguindo cumprir a logística de distribuição dos medicamentos. “O maior problema é uma empresa contratada pela prefeitura para abastecer o serviço público e que não está dando conta de executar a atividade”, afirma uma das fontes.

Ainda de acordo com esses relatos, o contrato previa uma fase de transição que deveria ter ocorrido em dezembro. No entanto, funcionários públicos que atuavam no almoxarifado municipal teriam sido realocados para outras funções antes que a empresa estivesse plenamente estruturada, o que teria provocado um período de pelo menos 15 dias sem distribuição regular de medicamentos no início de janeiro. O desabastecimento só teria ganhado visibilidade após a repercussão de reportagens sobre a falta de remédios nos postos de saúde.
Na semana passada, o vereador Wagner Romão (PT) já havia alertado que havia medicamentos estocados no novo almoxarifado da Saúde da Prefeitura, mas que os medicamentos não estavam chegando às farmácias dos centros de saúde.

Para Romão, o uso de ambulâncias para suprir a entrega de medicamentos evidencia falhas graves de planejamento e gestão. “Ambulâncias estão realizando entregas em Centros de Saúde, enquanto pacientes aguardam por transporte adequado para atendimentos e tratamentos essenciais. A situação escancara a falta de planejamento e de gestão na área da Saúde. O abastecimento das unidades segue sem normalização, e a solução improvisada sobrecarrega serviços de emergência e atendimento especializado, colocando ainda mais vidas em risco”, afirmou o vereador.

Fontes ouvidas pela reportagem afirmam ainda que novas distribuições de medicamentos estariam sendo organizadas com apoio de veículos do SAEC, desta vez durante a semana, supostamente para reduzir a visibilidade da operação e evitar questionamentos.
Segundo o Movimento Popular de Saúde de Campinas, a falta de medicamentos na rede municipal de saúde continua, mesmo após a entrega emergencial realizada na semana passada. De acordo com a entidade, o problema persiste porque a empresa contratada para a logística, a VTCLog, não teria competência nem infraestrutura para realizar o abastecimento semanal dos Centros de Saúde, como ocorria anteriormente.

Ainda segundo o movimento, a empresa, contratada por cerca de R$ 19 milhões, entregou um lote emergencial de medicamentos no último dia 19, mas a distribuição às unidades básicas teria sido realizada pelos próprios distritos de saúde, e não pela terceirizada responsável pelo serviço. Além dos medicamentos, a entidade afirma que também há falta de insumos médicos, como curativos, seringas, vacinas e materiais para aplicação de injeções, o que estaria comprometendo o atendimento à população e ampliando a sensação de desassistência na rede pública.

Confira, na íntegra, a nota enviada pela Prefeitura:

A Secretaria de Saúde informa que não procede a informação de uso de ambulâncias do Samu para entregar medicamentos nas unidades. As entregas foram feitas por carros dos seis distritos de saúde e um caminhão do Departamento Administrativo. No entanto, alguns veículos do Saec deram apoio para agilizar o abastecimento. Nenhum paciente deixou de ser atendido, uma vez que os veículos usados na força-tarefa, iniciada na semana passada, não tinham demandas de pacientes. A secretaria está trabalhando diariamente na reposição dos itens da cesta dos centros de saúde para as unidades que apontaram faltas nas farmácias. A previsão é que o novo almoxarifado assuma a totalidade da distribuição em breve. O estoque de medicamentos no centro de distribuição conta com mais de 96% dos itens e a falta temporária em alguns centros de saúde acontece em razão da transição do antigo almoxarifado para o novo, que começou em dezembro.

O novo centro de distribuição vai organizar e padronizar os processos de recebimento, armazenamento e dispensação dos medicamentos. A transição envolve inventário, reorganização e transferência do estoque dos remédios e insumos usados em toda a rede municipal. Devido à complexidade da operação, estavam previstas faltas pontuais e temporárias de alguns itens, conforme divulgado no final do ano passado.

Manifestação

Entidades ligadas ao controle social da saúde também anunciaram a realização de uma manifestação em Campinas para cobrar a normalização do abastecimento de medicamentos na rede municipal. Em publicação nas redes sociais, o Conselho Local de Saúde do CS Barão e o Movimento Popular de Saúde de Campinas afirmam que a população segue sendo prejudicada pela falta de remédios essenciais após a terceirização da guarda e da distribuição dos medicamentos, hoje sob responsabilidade da empresa VTC Log.

Segundo as entidades, continuam em falta medicamentos de uso contínuo para tratamento de doenças como hipertensão, diabetes, osteoporose, Alzheimer, Parkinson e depressão, além de analgésicos e antitérmicos, como a dipirona. A publicação contesta informações da Secretaria Municipal de Saúde de que o estoque estaria “96% completo” e classifica o problema como persistente, com impacto direto sobre pacientes e trabalhadores da rede.

O ato público, intitulado “Cadê os remédios dos postos de saúde?”, está marcado para a próxima quarta-feira (28), a partir das 16h, na escadaria da Prefeitura de Campinas. O encerramento está previsto para ocorrer às 18h30, durante a Tribuna Livre do Conselho Municipal de Saúde. As entidades afirmam que a mobilização tem como objetivo denunciar o desabastecimento, cobrar providências do poder público e defender o Sistema Único de Saúde (SUS).