Jockey Club Campineiro: patrimônio, poder e memória

Jockei Club Campinas: ícone arquitetônico marca a história sociocultural da cidade

Por Ana Carolina Martins

Fachada da construção a partir da Avenida Dr. Thomaz Alves, após restauração em 2008: um edifício imponente em estilo eclético

Por décadas, o Jockey Club Campineiro foi muito mais do que um espaço dedicado ao turfe, que é o esporte que promove e incentiva as corridas de cavalos. Foi o ponto de encontro e cenário de festas elegantes nas tardes ensolaradas e domingos em que a cidade parecia caber inteira em torno da pista. Ali, entre o som dos cascos dos belos e bem-cuidados animais, o burburinho das apostas e os aplausos de quem assistia das arquibancadas, a audiência construiu parte importante da memória social e esportiva do município.

Foi lá, no centro histórico de Campinas, na Praça Antônio Pompeu, que se construiu um dos mais belos e significativos patrimônios arquitetônicos, inaugurado em 1925. Fundado em um período de intensa efervescência econômica e urbana, o Jockey nasceu inspirado nos grandes hipódromos do país e do exterior.

Nesse contexto, em 19 de setembro de 1877, a Sociedade Campineira Club de Corridas foi fundada por nomes como Antônio Egídio de Souza Aranha, Francisco Elisiário, Francisco José de Camargo Andrade e José Francisco Aranha, inserindo o turfe como um elemento central da vida social da elite regional.

Hipódromo oficial

O primeiro hipódromo oficial do município foi inaugurado em 29 de setembro de 1878, atraindo cerca de seis mil espectadores - um contingente de respeito naquela época - e consolidando as corridas como um espetáculo público e social que misturava prestígio, apostas e encontros sociais.

Sua criação dialogava com um tempo em que o turfe , esporte que promove e incentiva corridas de cavalos, simbolizava modernidade, prestígio, sofisticação e sociabilidade. Comparecer às disputas era muito mais do que a vontade de assistir o desempenho dos belos cavalos e de seus cavaleiros ou acertar um palpite sobre o vencedor, era ainda uma questão de ver e ser visto, de participar de um ritual que reunia famílias tradicionais, autoridades, esportistas e curiosos atraídos pelo espetáculo.

O espaço, cuidadosamente planejado para acolher a audiência, com pista, arquibancadas, salões e áreas sociais, oferecia um verdadeiro complexo de lazer. Em dias de prova, o movimento começava bem cedo, com a chegada dos homens trajados com seus ternos e chapéus elegantes, as mulheres e seus vestidos que jamais se repetiam, e as crianças correndo pelos jardins acompanhadas pelas babás. O Jockey pulsava como um pequeno mundo à parte, onde o tempo parecia seguir o mesmo ritmo das largadas das disputas.

Construção da sede

Centro de Memória/ Unicamp - Clube Campineiro e o monumento-túmulo a Carlos Gomes na Praça Antônio Pompeu.

Enquanto as corridas prosperavam, um ambicioso projeto social começou a ganhar forma. Em 1914, o Clube Campineiro iniciou a construção de sua sede no Centro da cidade, tendo à frente o arquiteto Christiano Stockler das Neves e, respondendo pelas obras, o engenheiro Augusto Lefèvre. Apesar de algumas interrupções, a construção foi concluída em dezembro de 1925, presenteando o centro urbano com um edifício imponente em estilo eclético, dotado de influências art nouveau e elementos neorrenascentistas.

A construção de mais de 1.300m² e três pavimentos rapidamente se tornou ponto de convergência da elite local. Seus salões receberam bailes de gala, recitais de piano e violino, festas de Carnaval e declamações de poesia em uma atmosfera que remetia à alta sociedade europeia de então.

Ao longo dos anos, o Jockey Club Campineiro acompanhou as transformações do município, que cresceu, expandiu as suas avenidas, mudou hábitos e prioridades. O turfe, que já havia sido um dos esportes mais populares do país, perdeu espaço para novas formas de entretenimento. Ainda assim, o Jockey permanece como símbolo de uma era, guardando fatos e histórias que atravessam gerações.

Entorno com novos usos

O entorno também mudou. Onde antes predominavam áreas mais abertas, com o avanço urbano passou a ter novos usos, novas dinâmicas e outros fluxos. O Jockey deixou de ser um destino esportivo para se tornar referência espacial, afetiva e histórica. Para muitos campineiros, ele é lembrança de infância, de um avô apostador, de um pai entusiasmado, de um domingo em família.

Atualmente, o Jockey Club Campineiro carrega o desafio e a oportunidade de ressignificação. Entre a preservação de sua memória e a busca por novos usos, o espaço segue despertando interesse e nostalgia. O Jockey guarda o espírito de um tempo em que a cidade parava para assistir às corridas de cavalos, vibrar com a chegada e celebrar o encontro.

Embora seja uma propriedade privada, o edifício do Jockey Club Campineiro foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc) no dia 22 de dezembro de 1994, impondo certas restrições e a necessidade de preservação de suas características originais.

Novas formas de ocupação

O século XXI trouxe novas formas de ocupação ao espaço. Após projetos de restauração concluídos em 2008 e novamente renovados em 2018, o prédio passou a acolher eventos culturais, atrações turísticas e espaços de convivência, sem perder o seu charme histórico. Inclusive, preservando um dos primeiros elevadores da cidade, um modelo de ferro dourado ainda em funcionamento, e um piano de cauda fabricado em 1918 usado em saraus da época.

Revisitar a sua história é, sobretudo, revisitar Campinas. É entender como a cidade se desenvolveu, divertiu-se e se organizou socialmente. Um patrimônio que permanece como testemunha de um passado vibrante e um convite aberto para que a memória urbana continue viva, contada e valorizada.

Uma desccrição realista daquela época

Nos dias de evento, a chegada ao Jockey Club Campineiro era, por si só, um espetáculo. Automóveis reluzentes estacionavam diante da fachada imponente, enquanto criados auxiliavam as senhoras a descerem, com cuidado, ajustando luvas claras e vestidos longos de tecidos finos. Os homens vestiam ternos escuros bem cortados, gravatas alinhadas, alguns com chapéus discretamente inclinados, sinal de distinção e respeito às convenções sociais da época.

O comportamento seguia um ritual silencioso de elegância. Cumprimentos contidos, apertos de mão firmes, conversas em tom baixo. As mulheres circulavam em pequenos grupos, exibindo seus penteados elaborados e joias discretas; os homens se reuniam para comentar negócios, política e resultados das corridas, sempre com ar de quem pertencia naturalmente àquele espaço.

Nos salões, o tilintar dos copos se misturava ao som do piano. Serviam-se vinhos importados, espumantes e licores, enquanto bandejas percorriam o ambiente com canapés, doces finos e quitutes cuidadosamente preparados. Em ocasiões especiais, jantares formais reuniam pratos elaborados, inspirados na culinária francesa, reforçando a sensação de sofisticação que marcava o clube.

Mais do que lazer, aquelas reuniões eram afirmação de status. Estar ali significava pertencer. O Jockey era o palco onde a elite campineira se reconhecia, observava e se legitimava socialmente — um modo de vida elegante e hierarquizado que, com o passar das décadas, se transformaria e acabaria por desaparecer.