Campinas (SP) é questionada sobre transparência no reajuste da tarifa de ônibus
"Um verdadeiro absurdo. Além de ser uma das tarifas mais caras do Brasil, o serviço oferecido é extremamente precário.", afirma a vereadora Fernanda Souto (PSOL-SP).
O novo reajuste no transporte público de Campinas (SP) tem sido alvo de questionamentos em relação à transparência dos dados e ao detalhamento de cada insumo presente na planilha tarifária. A partir desta quinta-feira (1º), os passageiros terão que pagar a mais pela passagem. O Bilhete Único Comum passa de R$ 5,70 para R$ 6,00 e o Vale-Transporte de R$ 6,20 para R$ 6,50. O reajuste médio de 4,24% apresenta um índice próximo à inflação acumulada de 4,46% (IPCA) nos últimos 12 meses.
Segundo a prefeitura, o reajuste é necessário para assegurar o equilíbrio econômico-financeiro do sistema, compensando a variação de preços em itens essenciais, como combustíveis e custos de mão de obra. Este ano, o subsídio foi de R$ 236,4 milhões (R$ 218,4 milhões para o transporte coletivo e mais R$ R$ 18 milhões para o PAI-Serviço).
“Um verdadeiro absurdo. Além de ser uma das tarifas mais caras do Brasil, o serviço oferecido é extremamente precário. No ano de 2025, foram diversas ocorrências, inclusive de ônibus que pegaram fogo em nossa cidade, colocando em risco a vida dos usuários”, afirma a vereadora Fernanda Souto (PSOL-SP).
A parlamentar apresentou um Projeto de Lei na Câmara para obrigar a Prefeitura a apresentar as planilhas de custo e lucro das empresas do transporte público antes de qualquer decreto de aumento da passagem. De acordo com o texto, os dados têm que ser apresentados em audiência pública aberta à população.
Questionamentos técnicos
O mestre em Planejamento Urbano, Ayrton Camargo e Silva, ex-diretor da Emdec (empresa municipal responsável pelo trânsito campineiro) também preza pela transparência e questiona os dados que compõem a planilha tarifária - todos os gastos diretamente relacionados com a operação do serviço de ônibus.
São itens como salários dos funcionários da operação dos ônibus, da manutenção dos escritórios administrativos, gastos com manutenção de oficinas, de garagem, com pneus, com lubrificantes, com combustível… elenca o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas.
“A pergunta que fica é: será que todos os itens da planilha tarifária aumentaram ao longo deste ano no mesmo percentual? Qual o impacto disso em relação à diferença entre o que as tarifas arrecadaram e o que faltou para custear o serviço? Porque é aí que entra o papel do subsídio: dinheiro que a Prefeitura aporta no sistema para evitar que a tarifa seja mais alta”, afirma.
"A tarifa ajuda a amenizar a participação do subsídio ou esse aumento tarifário é insuficiente, e o subsídio está sendo cada vez maior? O que está sendo cobrado dos empresários em termos de qualidade? Qual o nível de falhas de viagens não cumpridas? Esse aumento recompõe só os custos ou há alguma margem para cobrar investimentos da melhoria, por exemplo, como a diminuição da idade da frota?", questiona ainda Camargo e Silva.
Em suma, "qual é o nível de qualidade que se quer para o transporte coletivo de Campinas? Que me parece que está cada vez pior", declara.
Outro lado
Em resposta aos questionamentos, a Prefeitura enviou ao Correio da manhã o link do Portal da Transparência, disponibilizando "os estudos de composição da tarifa do sistema de transporte público coletivo, elaborados pela Emdec".
Mas, a última "planilha de cálculo de custo operacional do transporte público coletivo urbano" divulgada é a de dezembro de 2024, relativa a 2025. Ainda de acordo com a autarquia, "as planilhas relativas à tarifa de 2026 devem ser disponibilizadas na segunda-feira (5)", ou seja, quatro dias depois que o reajuste começar a operar. Na seção também não conta a de 2024, relativa a de 2025.
Sem alterações
As isenções para públicos específicos, como idosos, pessoas com deficiência, estudantes e universitários, foram mantidas, como apregoa a lei municipal. O valor da segunda integração também continua a R$ 0,50, sem reajuste. A primeira é grátis, e o passageiro pode utilizar dois circulares , em até 2 horas, pagando um bilhete. Os créditos que forem comprados até 31 de dezembro poderão ser utilizados normalmente por até um ano.
Novos valores
O Bilhete Único Comum passa de R$ 5,70 para R$ 6,00; o Vale-Transporte, de R$ 6,20 para R$ 6,50; o Bilhete Único Escolar, de R$ 2,28 para R$ 2,40; o Bilhete Único Universitário, de R$ 2,85 para R$ 3,00; e a Linha Centro, de R$ 4,13 para R$ 4,33.
Edital
Este mês, a Prefeitura lançou o edital para a concessão do transporte coletivo, com contrato de cerca de R$ 11 bilhões e duração de 15 anos, prorrogáveis por mais cinco.
A sessão para a entrega das propostas está agendada para 23 de fevereiro, às 11h, na sede da B3, em São Paulo, com transmissão via internet. As regras do certame estabelecem a troca da frota por veículos com menor emissão de poluentes, com a introdução de 60 ônibus elétricos no período inicial.
Determina a manutenção da acessibilidade em todos os veículos e a integração com o sistema BRT. Estão previstos investimentos em tecnologia, bilhetagem eletrônica, terminais e no PAI-Serviço, sob regulação da Emdec (empresa municipal responsável pelo trânsito campineiro).
Frota
Atualmente, o sistema opera com 1.032 ônibus em 232 linhas, atendendo 400 mil passageiros por dia útil.
